REVISTA PALAFITAS – Saberes a partir das margens

Categoria: Comunalismo

  • Por um Punhado de Dólares

    Por um Punhado de Dólares

    Justiça climática, dívida histórica e o fracasso global diante do colapso ambiental

    DOI 10.5281/zenodo.17589308

    Autor: Fabio Borjas Rosim Braga

    Coordenador do Centro de Estudos e 

    Editor da Revista Palafitas ISSN 3086-2892

    https://orcid.org/0009-0008-7496-575X

    Email: editor@palafitas.org

    Enquanto o planeta atinge recordes de temperatura e colapsos ambientais se tornam rotina, as potências que mais contribuíram para essa destruição seguem respondendo com promessas vazias — e um punhado de dólares. A proposta de US$ 300 bilhões anuais anunciada na COP29, em Baku, está muito aquém do necessário. A emergência climática exige trilhões, mas o que se oferece são migalhas, embrulhadas em discursos diplomáticos.

    A dissonância entre a dimensão da crise e a escala das soluções propostas evidencia um abismo ético e político. Trata-se de uma crise global que, embora naturalizada como fenômeno técnico ou ambiental, revela estruturas profundas de dominação histórica. O Brasil, neste cenário, ocupa o epicentro não apenas dos efeitos, mas também das contradições que atravessam o sistema internacional.

    Nesse contexto, a análise de Nancy Fraser em Capitalismo Canibal [1] oferece uma perspectiva crucial para entender a raiz dessa dissonância. Fraser argumenta que o capitalismo é uma ordem social ampliada que, em sua busca incessante por acumulação, tende a “canibalizar” as condições de fundo que o sustentam, incluindo a natureza e as capacidades políticas de governança [1]. A insuficiência do financiamento climático e a recusa das potências em arcar com sua responsabilidade histórica são manifestações diretas desse “canibalismo”, onde os custos da devastação são externalizados e as condições para uma solução justa são minadas.

    O colapso já começou

    O verão de 2024–2025 foi um dos mais quentes desde que há registro, com média de 0,34 °C acima da histórica, mesmo sob influência do fenômeno La Niña, que tende a resfriar o clima. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) registrou o agravamento de eventos extremos: secas prolongadas no Nordeste, enchentes violentas no Sul e Norte, e ondas de calor em todas as regiões [2].

    Essa emergência ambiental atinge com maior violência populações que já vivem sob múltiplas formas de vulnerabilidade: comunidades negras, indígenas, periféricas, quilombolas, ribeirinhas, LGBTQIAPN+. A desigualdade climática é também uma desigualdade política, epistêmica e territorial. A necropolítica climática se expressa no abandono de territórios inteiros, no colapso de infraestruturas precárias e na invisibilização dos saberes que resistem nas margens.

    Fraser, ao discutir o capitalismo racializado e a expropriação, ilumina como a desigualdade climática não é um acidente, mas uma característica intrínseca do sistema capitalista. As populações mais vulneráveis são aquelas cujas vidas e recursos são sistematicamente expropriados para sustentar a acumulação de capital, criando uma “linha divisória” entre quem se beneficia e quem sofre os ônus [1]. A “necropolítica climática” descrita no artigo é, portanto, uma expressão brutal do “canibalismo” capitalista, que devora as condições de vida e o bem-estar de comunidades inteiras.

    A falácia dos 100 bilhões

    Desde 2009, países ricos prometeram mobilizar US$ 100 bilhões por ano para apoiar a adaptação e mitigação nos países em desenvolvimento. Esse valor foi incorporado ao Acordo de Paris em 2015, mas nunca foi plenamente cumprido — e, mesmo se fosse, já se tornou completamente defasado.

    Relatório recente da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) estima que os países em desenvolvimento precisarão de US$ 5,1 a 6,8 trilhões até 2030 para cumprir suas metas climáticas (NDCs) — ou seja, cerca de US$ 455 a 584 bilhões por ano (UNFCCC, 2024). Estimativas independentes apontam para uma necessidade mínima de US$ 1 trilhão por ano até 2030 — chegando a US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 (UNFCCC, 2025) [3].

    Esses números revelam o real tamanho do desafio. E mostram que a distância entre o discurso e a prática não é acidental: é estrutural.

    COP29: prometer, adiar, transferir a culpa

    Na COP29, realizada em Baku, a promessa de triplicar o financiamento climático foi apresentada como vitória. Mas o valor proposto — US$ 300 bilhões por ano — representa menos de um terço do necessário. Além disso, os países desenvolvidos pressionaram para que China, países árabes e outras economias emergentes dividam a conta, diluindo sua responsabilidade histórica (UNFCCC, 2024; Climate Change News; Financial Times) [4, 5, 6].

    O resultado é o adiamento crônico da ação, o empobrecimento dos instrumentos multilaterais e o deslocamento da responsabilidade. Quando confrontadas com a necessidade de trilhões, as potências preferem entregar centavos — e ainda exigir aplausos.

    Essa dinâmica de “prometer, adiar, transferir a culpa” ilustra a crise política do capitalismo que Fraser descreve. A capacidade dos Estados e das instituições multilaterais de agir de forma eficaz é corroída pela lógica da acumulação, que prioriza os interesses de curto prazo do capital em detrimento das necessidades de longo prazo da sociedade e do planeta [1]. A governança climática global, nesse sentido, torna-se um palco para a manutenção do status quo e a perpetuação da dívida histórica, em vez de um espaço para a reparação e a justiça.

    Uma crise do sistema-mundo

    A crise ambiental global não é apenas um fenômeno natural ou técnico, mas resulta diretamente das contradições estruturais do sistema-mundo moderno, tal como formulado por Immanuel Wallerstein [7]. Um sistema fundado na exploração desigual de regiões periféricas, na acumulação incessante de capital e na concentração de poder econômico e político em centros hegemônicos.

    Nesse contexto, o colapso climático não é um acidente. É uma consequência histórica da própria lógica que organizou o mundo moderno: a expansão colonial, o extrativismo e a financeirização da vida. A destruição dos ecossistemas anda de mãos dadas com a destruição das possibilidades de futuro para os povos que vivem fora dos centros de decisão.

    A visão de Fraser de um capitalismo canibal se alinha perfeitamente com a ideia de uma “crise do sistema-mundo”. Para ela, as crises ecológicas, sociais e políticas não são isoladas, mas interconectadas e inerentes à própria estrutura do capitalismo como uma ordem social totalizante [1]. A expansão colonial, o extrativismo e a financeirização são mecanismos pelos quais o capital “devora” as condições de sua própria existência, gerando um ciclo vicioso de acumulação e destruição que ameaça a própria possibilidade de futuro.

    Justiça climática exige reparação

    É necessário dizer com todas as letras: sem reparação histórica, não haverá transição justa. E sem transição justa, o colapso será total — ainda que distribuído de forma desigual. O financiamento climático não é caridade. É dívida.

    Enquanto os países que lucraram por séculos com a exploração de territórios alheios se recusarem a pagar essa conta, a justiça climática continuará sendo apenas uma retórica elegante. É preciso enfrentar a hipocrisia da governança climática global e romper com a lógica de mercado que transforma a vida em ativo e a destruição em oportunidade de lucro.

    Enquanto isso, seguimos contando os mortos. E esperando por um punhado de dólares.

    Referências

    [1] FRASER, Nancy. Capitalismo Canibal: Como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta, e o que podemos fazer com isso. São Paulo: Boitempo, 2023.

    [2] MCTI – Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (2025).

    [3] UNFCCC (2024, 2025).

    [4] COP29 – UNFCCC Press Release (2024).

    [5] Climate Change News (2024).

    [6] Financial Times (2024).

    [7] WALLERSTEIN, Immanuel (2004).

    [8] Net-Zero Asset Owner Alliance (2025).

  • Aula 4: Municipalismo Libertário e Comunalismo: A Reconstrução da Política

    Aula 4: Municipalismo Libertário e Comunalismo: A Reconstrução da Política

    Fabio Borjas Rosim Braga
    Coordenador e Editor

    Centro de Estudos Palafitas — Saberes a partir das Margens
    ORCID: https://orcid.org/0009-0008-7496-575X
    Revista Palafitas (Editor)
    E-mail: contato@palafitas.org

    Introdução: A Crise da Representação e a Busca por Alternativas

    Nas aulas anteriores, estabelecemos que a crise ecológica é intrinsecamente ligada a uma crise de dominação social, e que a libertação da natureza não pode ocorrer sem a libertação humana. Murray Bookchin, em sua Ecologia Social, não apenas diagnostica as raízes da dominação, mas também propõe caminhos concretos para a construção de uma sociedade ecológica e libertária. Esta aula se dedicará a explorar suas propostas políticas mais distintivas: o Municipalismo Libertário e o Comunalismo. Veremos como Bookchin vislumbra a reconstrução da política a partir da base, oferecendo uma alternativa radical ao Estado-nação e à democracia representativa que, segundo ele, falham em promover a verdadeira autogestão e a sustentabilidade.

    O Municipalismo Libertário: Redefinindo o Espaço Político

    O Municipalismo Libertário é a proposta política central de Murray Bookchin para a criação de uma sociedade ecológica e autônoma. Ele argumenta que a cidade, ou o município, deve ser o locus primário da vida política e da tomada de decisões. Em vez de delegar o poder a representantes em um Estado centralizado, Bookchin defende a revitalização das assembleias populares e da democracia direta em nível local. Para ele, a verdadeira cidadania e a participação política significativa só podem florescer em comunidades de escala humana, onde os indivíduos podem se reunir, debater e decidir sobre os assuntos que afetam diretamente suas vidas.

    “O municipalismo libertário busca recuperar a cidade como o espaço onde os cidadãos podem se autogovernar, onde a política se torna uma atividade ética e racional, e não uma mera administração de interesses.” [Bookchin, Murray. The Rise of Urbanization and the Decline of Citizenship. 1987.]

    Os princípios do Municipalismo Libertário incluem:

    • Democracia Direta: A tomada de decisões deve ser feita por assembleias de cidadãos, e não por corpos representativos distantes. Isso permite uma participação ativa e contínua dos membros da comunidade na gestão de seus próprios assuntos.
    • Cidadania Ativa: A política não é uma esfera separada da vida cotidiana, mas uma prática constante de engajamento e responsabilidade cívica.
    • Descentralização e Autonomia: O poder deve ser descentralizado para o nível municipal, permitindo que as comunidades desenvolvam suas próprias soluções para problemas sociais e ecológicos, de acordo com suas necessidades e valores.
    • Confederação: Os municípios autônomos se confederariam em redes regionais e, eventualmente, globais, para coordenar ações em questões de maior escala, como a gestão de recursos naturais ou a defesa contra ameaças externas. Essa confederação seria baseada em princípios de ajuda mútua e solidariedade, sem a imposição de uma autoridade central coercitiva.

    Comunalismo: A Base Ética e Econômica

    O Comunalismo é o termo que Bookchin eventualmente adotou para descrever sua filosofia política, enfatizando a dimensão ética e econômica de sua proposta. Ele vai além do municipalismo libertário ao sublinhar a necessidade de uma economia comunal, onde os meios de produção e os recursos são controlados democraticamente pelas comunidades, e não por corporações privadas ou pelo Estado. Isso implica uma ruptura com a lógica capitalista de propriedade privada e acumulação, em favor de uma gestão coletiva e ecológica dos bens comuns.

    “O comunalismo é a ideia de que a sociedade deve ser organizada em comunidades autônomas e confederadas, onde a economia é gerida democraticamente pelos cidadãos para atender às suas necessidades e às necessidades do ecossistema.” [Bookchin, Murray. The Next Revolution: Popular Assemblies and the Promise of Direct Democracy. 2015.]

    O Comunalismo busca criar uma sociedade onde a tecnologia avançada, em vez de ser usada para a exploração, sirva para reduzir o trabalho alienado e promover a abundância pós-escassez, liberando o potencial humano para a autogestão e a criatividade. A ética comunalista é pautada pela solidariedade, pela cooperação e pelo respeito à diversidade natural e social.

    Relevância para a Transformação Social e Ecológica

    As propostas de Municipalismo Libertário e Comunalismo de Bookchin são de extrema relevância para a busca de uma transformação social e ecológica radical. Elas oferecem um modelo para:

    1. Enfrentar a Crise Climática: Ao promover a autogestão local e a confederação, as comunidades podem desenvolver soluções ecológicas adaptadas às suas realidades, como a produção de energia renovável, a agricultura orgânica e a gestão sustentável de resíduos, sem depender de políticas estatais ou corporativas que muitas vezes são lentas ou ineficazes.
    2. Combater a Colonialidade do Poder: Ao descentralizar o poder e valorizar a participação local, o comunalismo decolonial pode desmantelar as estruturas de dominação herdadas da colonialidade, permitindo que as comunidades marginalizadas recuperem sua autonomia e seus saberes.
    3. Superar a Alienação Capitalista: A economia comunal e a democracia direta oferecem um caminho para superar a alienação do trabalho e a mercantilização da vida, promovendo uma relação mais significativa e ética entre os indivíduos, suas comunidades e o ambiente.
    4. Construir uma Democracia Real: Em um contexto de crise da democracia representativa, o municipalismo libertário propõe uma forma de democracia que é verdadeiramente participativa e inclusiva, onde o poder reside nas mãos dos cidadãos.

    Conclusão: A Reconstrução da Política a Partir da Base

    O Municipalismo Libertário e o Comunalismo de Murray Bookchin representam uma visão audaciosa e inspiradora para a reconstrução da política e da sociedade. Ao propor que a transformação comece em nível local, através de assembleias populares e da confederação de comunidades autônomas, Bookchin nos oferece um caminho para superar as estruturas de dominação que geram a crise ecológica e social. Essas ideias serão fundamentais para a nossa discussão na Aula 9, onde exploraremos a proposta de criação de conselhos municipais com finalidade política e ecológica, inspirados diretamente nos princípios comunalistas. A próxima aula aprofundará a análise da necropolítica e da dignidade dos corpos, com as contribuições de Frantz Fanon e Achille Mbembe, conectando as estruturas de poder à gestão da vida e da morte.

  • A Universidade ao Contrário: Ecologia dos Saberes e Justiça Cognitiva

    🌿 ECOLOGIA DOS SABERES

    “A justiça social vai obrigar a que se comprometa com a justiça cognitiva”

    Entrevista com Boaventura de Sousa Santos
    Diversa no. 8 – Revista da Universidade Federal de Minas Gerais | Outubro de 2005


    O senhor defende uma equiparação ecológica dos diferentes tipos de saberes. Que significa isso?

    A ecologia dos saberes é a extensão universitária ao contrário. É a universidade preparada para se abrir às práticas sociais, mesmo quando não informadas pelo conhecimento científico, que nunca é único. O conhecimento científico tem de saber dialogar com outros conhecimentos que estão presentes nas práticas sociais e, assim, trazê-los para dentro da universidade.

    O que significa, eventualmente, que os alunos da universidade terão contato com líderes comunitários, que, hoje, não são credenciados para ensinar na Academia, mas, provavelmente, podem trazer a ela sua experiência. É isso exatamente o que faço, na minha experiência como sociólogo, como lema da minha vida profissional. É integrar as grandes teorias epistemológicas, abstratas, às práticas concretas.

    Acabo de vir da Vila Santa Lúcia, depois fui à Santa Rita, depois à São Bento, que está em uma ravina. Falei com um catador de lixo, um homem extraordinário, que me explicou quais eram suas soluções para canalização de água, de forma a garantir segurança àquela população sem que ela seja removida.

    Aquela população não quer ser removida por uma razão absolutamente racional – porque, se isso acontecer, vai para longe do lixo de luxo que é base de sua sustentação. Naturalmente, a Prefeitura não está sensibilizada para isso.

    O conhecimento que esse homem revelou sobre a estrutura da terra, o que acontece quando a água cai, é um conhecimento popular. Seria uma lástima se os técnicos da Prefeitura não tomassem em conta o conhecimento popular que existe naquela região.

    Só para dar um exemplo – eu já vi isso em Porto Alegre – os técnicos em diálogo direto com a população das vilas. Isso é ecologia do saber. É um novo equilíbrio, uma nova relação entre o conhecimento científico e os conhecimentos populares, os conhecimentos das associações cívicas, os conhecimentos dos cidadãos.

    A questão do impacto ambiental é fundamental. Hoje, por exemplo, temos na Europa formas de interação, como, por exemplo, as science shops – lojas de ciência –, que são pontos de encontro entre o conhecimento científico e o conhecimento do cidadão.

  • 🏛️ As Ruínas da Política Municipal: quando o feed substitui a praça

    DOI 10.5281/zenodo.17550602

    Por Fábio Braga, Editor


    Revista Palafitas – ISSN 3086-2892

    “A verdadeira questão não é organização versus não-organização, mas que tipo de organização.”
    Murray Bookchin, Post-Scarcity Anarchism, 1971

    A política municipal morreu — e foi substituída por um feed.
    Não há mais debate público, há publicidade.
    Não há mais praça, há palco.
    As redes sociais não apenas esvaziaram o espaço político: elas colonizaram a imaginação democrática. O que antes era lugar de deliberação virou vitrine de vaidades; o mandato, uma marca pessoal; o orçamento público, um plano de impulsionamento.

    Nas pequenas cidades, o fenômeno é ainda mais brutal: vereadores transformados em influencers, prefeitos em gestores de imagem, e o povo em platéia digital.
    Fala-se de “proximidade”, mas tudo é filtrado por uma distância invisível — a do algoritmo.
    O resultado é uma caricatura da democracia: um espetáculo de opiniões, sem estudos, sem dados, sem escuta.
    Fulano vota contra porque acha que é certo; sicrano vota a favor porque acha que o mundo vai melhorar.
    A política virou achismo e autopromoção — e, pior, ninguém parece se incomodar.


    📉 Da cidade comunitária à cidade administrada

    O que se perdeu não é apenas o senso de responsabilidade pública, mas o próprio significado da cidade como comunidade.
    Como observa Murray Bookchin (1995), a urbanização capitalista transformou o município — essa célula viva da convivência humana — em uma “subunidade administrativa do Estado e do capital”.
    Ou seja: a cidade deixou de ser um corpo político e virou um organismo gerencial, dominado por interesses econômicos, planos de marketing e lógicas de eficiência.

    Em From Urbanization to Cities, Bookchin recorda que a democracia nasceu nos espaços locais, não nos parlamentos.
    Foi na ágora de Atenas e, séculos depois, nas town meetings da Nova Inglaterra, que os cidadãos comuns deliberavam, cara a cara, sobre leis, impostos e orçamentos — sem mediação partidária.
    Essas assembleias, em Massachusetts e Connecticut desde o século XVII, representavam a possibilidade concreta de autogoverno popular.
    Alexis de Tocqueville as descreveu em Democracia na América (1835) como “a escola primária da liberdade”.
    Nelas, o cidadão aprendia a ser cidadão.

    “As reuniões municipais são o exercício perfeito do autogoverno e a garantia de sua preservação.”
    Thomas Jefferson, apud Tocqueville (1835)

    Bookchin recupera esse exemplo histórico para propor o que chamou de municipalismo libertário: um projeto de reorganização da sociedade a partir de assembleias populares locais, confederadas entre si, que substituam o Estado hierárquico por uma rede de comunidades autônomas e solidárias.
    Não se trata de nostalgia, mas de reconexão com a dimensão humana da política — o rosto, a voz, o vínculo.


    ⚙️ A tecnocracia e o espetáculo

    O que vemos hoje é o oposto disso.
    A cidade virou cenário e a política, gestão de imagem.
    O ideal republicano foi engolido pelo marketing digital.
    Bookchin já previa esse esvaziamento: quando a esfera pública é dominada pela lógica da mercadoria, o debate se transforma em espetáculo — e o cidadão, em consumidor.

    A “cidade”, diz ele, foi despolitizada por dentro.
    E a burocracia municipal tornou-se o braço local da dominação estatal, reproduzindo o mesmo modelo de comando vertical que o municipalismo libertário queria abolir.

    “Os cidadãos não deliberam mais, apenas consomem decisões já empacotadas.”
    Bookchin, 1995, p. 77

    A internet amplificou essa doença civilizatória: o fetichismo da opinião.
    A ilusão de participação substitui a experiência do engajamento real.
    Likes viram votos simbólicos; indignações coletivas substituem a organização coletiva.
    E o pior: até quem se importa é arrastado pela lógica da visibilidade.


    🏚️ O vazio da política local

    O sintoma mais cruel desse colapso é a indiferença diante da miséria.
    As câmaras municipais, antes espaços de representação, tornaram-se arenas de autopromoção — lotadas de leigos apaixonados por controle, moralismo e fascismo social.
    Não há planejamento urbano, não há política pública de moradia, não há política para a população de rua.
    Há decretos estéticos contra o “feio”, leis de “limpeza visual”, e muito silêncio diante do sofrimento.

    A política pública virou “gestão do incômodo”.
    E, como observou Bookchin (1982), a dominação da natureza é apenas a extensão da dominação social.
    Quem vê o outro como descartável não vê a cidade como casa comum.
    Por isso, a luta ecológica e a luta municipal são a mesma luta: reconstruir o comum.


    🌿 Comunalismo libertário: reaprender a se reunir

    Bookchin não propôs destruir o Estado de uma vez, mas esvaziá-lo de dentro — pela criação de assembleias populares municipais que retomem o poder de decisão sobre o território.
    Essas assembleias seriam o embrião de uma nova forma de soberania: o poder que se dissolve no povo, em vez de governá-lo.

    “O comunalismo libertário é a política da liberdade tornada prática cotidiana.”
    Bookchin, 1995

    Esse projeto encontra eco nas epistemologias do Sul de Boaventura de Sousa Santos (2018), que defende a “ecologia dos saberes” — a coexistência de múltiplas racionalidades na construção do comum.
    Ambos convergem em um ponto essencial: a democracia real nasce na escala em que as pessoas podem se olhar nos olhos.

    Tocqueville e Jefferson aprenderam a admirar as town meetings da Nova Inglaterra; mas as verdadeiras assembleias do povo sempre estiveram mais ao sul — nas aldeias, nos quilombos e nas margens onde a política nasce da vida comum, não da propriedade.
    Nas assembleias indígenas, quilombolas e dos povos tradicionais, o comum é vivido como reciprocidade, e não como contrato.
    Entre os Guarani, os Xavante, os povos de terreiro, as quebradeiras de coco e as comunidades ribeirinhas, a decisão coletiva é mais do que deliberação: é um gesto de cuidado, de escuta e de pertencimento.
    Essas são as town meetings da floresta, democracias do convívio que não precisam do Estado para existir porque nascem do território e de seus vínculos simbólicos, espirituais e ecológicos.
    Como lembra Sueli Carneiro (2005), “a epistemologia da dor é potência criadora”: nas margens, a política é inseparável da sobrevivência.

    As town meetings não eram perfeitas, mas eram humanas.
    E é isso que a cidade precisa reaprender.
    A política não começou no Estado; começou na praça.
    E será lá — ou nas margens, onde ainda pulsa — que poderá renascer.


    🌎 Conclusão: Recomeçar pelas margens

    As redes sociais mataram a política, mas ainda não conseguiram matar o desejo de comunidade.
    E é por isso que, mesmo entre as ruínas, há esperança:
    nos coletivos que se reúnem em praças; nas cozinhas solidárias; nas assembleias de bairro; nas hortas comunitárias; nos mutirões de cuidado.
    É ali, nas margens, que o comunalismo libertário já respira.

    O municipalismo de Bookchin não é utopia distante: é o retorno à política real, onde cada voz conta e cada corpo importa.
    Enquanto as cidades forem governadas por publicitários, nada mudará.
    Mas se voltarmos a falar — não no feed, mas na praça — talvez o comum ainda possa florescer.

    “A praça é o corpo político em sua forma mais pura.”
    Fábio Braga, Palafitas, 2025


    📚 Referências
    BOOKCHIN, Murray. Post-Scarcity Anarchism. Montreal: Black Rose Books, 1971.
    BOOKCHIN, Murray. From Urbanization to Cities: Toward a New Politics of Citizenship. London: Cassell, 1995.
    DE TOCQUEVILLE, Alexis. Democracia na América. São Paulo: Martins Fontes, 2005 [1835].
    BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. Epistemologies of the South: Justice Against Epistemicide. London: Routledge, 2018.
    MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. São Paulo: Boitempo, 2013 [1867].

  • Curso: Comunalismo Decolonial — Por uma Ecologia da Liberdade Introdução Geral ao Curso –

    Curso: Comunalismo Decolonial — Por uma Ecologia da Liberdade Introdução Geral ao Curso –

    Áudio da introdução do curso  Este curso integra o Dossiê COP30

    Curso: Comunalismo Decolonial — Por uma Ecologia da Liberdade Introdução Geral ao Curso

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  • Manifesto Editorial — Palafitas Brasil: Saberes Decoloniais, Justiça Climática e a Construção de Futuros Possíveis

    DOI 10.5281/zenodo.17550399 

    Fábio Braga, Editor

    “A epistemologia da dor é potência criadora.”

    1. Quem Somos


    “O Palafitas é mais que uma revista.
    É um pacto de escuta e coexistência.”

    Palafitas  – Saberes a partir das Margens
    Periódico eletrônico de acesso aberto
    ISSN 3086-2892
    Editor responsável: Fábio Braga, Editor
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