Justiça climática, dívida histórica e o fracasso global diante do colapso ambiental
Autor: Fabio Borjas Rosim Braga
Coordenador do Centro de Estudos e
Editor da Revista Palafitas ISSN 3086-2892
https://orcid.org/0009-0008-7496-575X
Email: editor@palafitas.org
Enquanto o planeta atinge recordes de temperatura e colapsos ambientais se tornam rotina, as potências que mais contribuíram para essa destruição seguem respondendo com promessas vazias — e um punhado de dólares. A proposta de US$ 300 bilhões anuais anunciada na COP29, em Baku, está muito aquém do necessário. A emergência climática exige trilhões, mas o que se oferece são migalhas, embrulhadas em discursos diplomáticos.
A dissonância entre a dimensão da crise e a escala das soluções propostas evidencia um abismo ético e político. Trata-se de uma crise global que, embora naturalizada como fenômeno técnico ou ambiental, revela estruturas profundas de dominação histórica. O Brasil, neste cenário, ocupa o epicentro não apenas dos efeitos, mas também das contradições que atravessam o sistema internacional.
Nesse contexto, a análise de Nancy Fraser em Capitalismo Canibal [1] oferece uma perspectiva crucial para entender a raiz dessa dissonância. Fraser argumenta que o capitalismo é uma ordem social ampliada que, em sua busca incessante por acumulação, tende a “canibalizar” as condições de fundo que o sustentam, incluindo a natureza e as capacidades políticas de governança [1]. A insuficiência do financiamento climático e a recusa das potências em arcar com sua responsabilidade histórica são manifestações diretas desse “canibalismo”, onde os custos da devastação são externalizados e as condições para uma solução justa são minadas.
O colapso já começou
O verão de 2024–2025 foi um dos mais quentes desde que há registro, com média de 0,34 °C acima da histórica, mesmo sob influência do fenômeno La Niña, que tende a resfriar o clima. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) registrou o agravamento de eventos extremos: secas prolongadas no Nordeste, enchentes violentas no Sul e Norte, e ondas de calor em todas as regiões [2].
Essa emergência ambiental atinge com maior violência populações que já vivem sob múltiplas formas de vulnerabilidade: comunidades negras, indígenas, periféricas, quilombolas, ribeirinhas, LGBTQIAPN+. A desigualdade climática é também uma desigualdade política, epistêmica e territorial. A necropolítica climática se expressa no abandono de territórios inteiros, no colapso de infraestruturas precárias e na invisibilização dos saberes que resistem nas margens.
Fraser, ao discutir o capitalismo racializado e a expropriação, ilumina como a desigualdade climática não é um acidente, mas uma característica intrínseca do sistema capitalista. As populações mais vulneráveis são aquelas cujas vidas e recursos são sistematicamente expropriados para sustentar a acumulação de capital, criando uma “linha divisória” entre quem se beneficia e quem sofre os ônus [1]. A “necropolítica climática” descrita no artigo é, portanto, uma expressão brutal do “canibalismo” capitalista, que devora as condições de vida e o bem-estar de comunidades inteiras.
A falácia dos 100 bilhões
Desde 2009, países ricos prometeram mobilizar US$ 100 bilhões por ano para apoiar a adaptação e mitigação nos países em desenvolvimento. Esse valor foi incorporado ao Acordo de Paris em 2015, mas nunca foi plenamente cumprido — e, mesmo se fosse, já se tornou completamente defasado.
Relatório recente da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) estima que os países em desenvolvimento precisarão de US$ 5,1 a 6,8 trilhões até 2030 para cumprir suas metas climáticas (NDCs) — ou seja, cerca de US$ 455 a 584 bilhões por ano (UNFCCC, 2024). Estimativas independentes apontam para uma necessidade mínima de US$ 1 trilhão por ano até 2030 — chegando a US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 (UNFCCC, 2025) [3].
Esses números revelam o real tamanho do desafio. E mostram que a distância entre o discurso e a prática não é acidental: é estrutural.
COP29: prometer, adiar, transferir a culpa
Na COP29, realizada em Baku, a promessa de triplicar o financiamento climático foi apresentada como vitória. Mas o valor proposto — US$ 300 bilhões por ano — representa menos de um terço do necessário. Além disso, os países desenvolvidos pressionaram para que China, países árabes e outras economias emergentes dividam a conta, diluindo sua responsabilidade histórica (UNFCCC, 2024; Climate Change News; Financial Times) [4, 5, 6].
O resultado é o adiamento crônico da ação, o empobrecimento dos instrumentos multilaterais e o deslocamento da responsabilidade. Quando confrontadas com a necessidade de trilhões, as potências preferem entregar centavos — e ainda exigir aplausos.
Essa dinâmica de “prometer, adiar, transferir a culpa” ilustra a crise política do capitalismo que Fraser descreve. A capacidade dos Estados e das instituições multilaterais de agir de forma eficaz é corroída pela lógica da acumulação, que prioriza os interesses de curto prazo do capital em detrimento das necessidades de longo prazo da sociedade e do planeta [1]. A governança climática global, nesse sentido, torna-se um palco para a manutenção do status quo e a perpetuação da dívida histórica, em vez de um espaço para a reparação e a justiça.
Uma crise do sistema-mundo
A crise ambiental global não é apenas um fenômeno natural ou técnico, mas resulta diretamente das contradições estruturais do sistema-mundo moderno, tal como formulado por Immanuel Wallerstein [7]. Um sistema fundado na exploração desigual de regiões periféricas, na acumulação incessante de capital e na concentração de poder econômico e político em centros hegemônicos.
Nesse contexto, o colapso climático não é um acidente. É uma consequência histórica da própria lógica que organizou o mundo moderno: a expansão colonial, o extrativismo e a financeirização da vida. A destruição dos ecossistemas anda de mãos dadas com a destruição das possibilidades de futuro para os povos que vivem fora dos centros de decisão.
A visão de Fraser de um capitalismo canibal se alinha perfeitamente com a ideia de uma “crise do sistema-mundo”. Para ela, as crises ecológicas, sociais e políticas não são isoladas, mas interconectadas e inerentes à própria estrutura do capitalismo como uma ordem social totalizante [1]. A expansão colonial, o extrativismo e a financeirização são mecanismos pelos quais o capital “devora” as condições de sua própria existência, gerando um ciclo vicioso de acumulação e destruição que ameaça a própria possibilidade de futuro.
Justiça climática exige reparação
É necessário dizer com todas as letras: sem reparação histórica, não haverá transição justa. E sem transição justa, o colapso será total — ainda que distribuído de forma desigual. O financiamento climático não é caridade. É dívida.
Enquanto os países que lucraram por séculos com a exploração de territórios alheios se recusarem a pagar essa conta, a justiça climática continuará sendo apenas uma retórica elegante. É preciso enfrentar a hipocrisia da governança climática global e romper com a lógica de mercado que transforma a vida em ativo e a destruição em oportunidade de lucro.
Enquanto isso, seguimos contando os mortos. E esperando por um punhado de dólares.
Referências
[1] FRASER, Nancy. Capitalismo Canibal: Como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta, e o que podemos fazer com isso. São Paulo: Boitempo, 2023.
[2] MCTI – Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (2025).
[3] UNFCCC (2024, 2025).
[4] COP29 – UNFCCC Press Release (2024).
[5] Climate Change News (2024).
[6] Financial Times (2024).
[7] WALLERSTEIN, Immanuel (2004).
[8] Net-Zero Asset Owner Alliance (2025).

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