REVISTA PALAFITAS – Saberes a partir das margens

Autor: escala.decagono.47

  • Título: Manifesto Editorial — Palafitas Brasil: Saberes Decoloniais, Justiça Climática e a Construção de Futuros Possíveis Autor: Fábio Braga, Editor

    Título: xClimática e a Construção de Futuros Possíveis
    Autor: Fábio Braga, Editor
    Seção: Editorial
    Data: (coloca a data de publicação)

  • Do Contrato Decolonial: Fundamentos para um Pacto de Coexistência em um Planeta Ferido

    Produção: Centro de Estudos e Revista Palafitas – Saberes a partir das margens

    Autor: Fabio Borjas Rosim Braga

    DOI 10.5281/zenodo.17674600

    Coordenador do Centro de Estudos e 

    Editor Responsável da Revista Palafitas – Saberes a partir das margens

    REVISTA PALAFITAS – ISSN 3086- 2892.

    Fediverso (Mastodon): https://hub.palafitas.org/@palafitas

    https://orcid.org/0009-0008-7496-575X

    Email: editor@palafitas.org

    Resumo 

    Em resposta à falência do pacto social moderno — desmascarado no artigo anterior como um contrato colonial, racial e necropolítico —, este artigo elabora as bases para um novo acordo civilizatório: o Contrato Decolonial. Argumenta-se que a superação das crises sistêmicas atuais exige um projeto construtivo que vá além da crítica. Fundamentado em uma constelação teórica que inclui o anarquismo antropológico (Graeber & Wengrow), o feminismo marxista (Federici), a economia ecológica (Hickel) e as epistemologias do Sul (Boaventura de Sousa Santos), o artigo propõe uma nova sociabilidade articulada em quatro pilares interdependentes: (1) uma política comunalista e confederada que substitui o Estado-nação; (2) uma economia dos comuns e do decrescimento planejado que supera a lógica da acumulação infinita; (3) uma sociedade do cuidado que coloca a reprodução da vida acima da produção de mercadorias; e (4) o comunalismo digital como extensão tecnológica e decolonial das práticas de autogestão comunitária no espaço virtual. O Contrato Decolonial emerge não como um modelo utópico, mas como a sistematização de práticas já em curso por movimentos indígenas, camponeses, feministas, municipalistas e comunalistas digitais ao redor do globo.

    Palavras-chave: Contrato Decolonial, Comunalismo, Comunalismo Digital, Decrescimento, Economia do Cuidado, Comuns (Commons), Pós-Capitalismo, Silvia Federici, David Graeber, Jason Hickel, Boaventura de Sousa Santos.

    Introdução: Para Além da Ruína, a Construção

    O artigo anterior demonstrou a impossibilidade de um “capitalismo bom”, revelando-o como um sistema necropolítico inerentemente colonial, racial e extrativista. A crítica, contudo, nos deixa à beira do abismo. Denunciar a ruína é necessário, mas insuficiente. A tarefa mais urgente é construir sobre ela. Se o Contrato Social moderno foi, na verdade, um Contrato Colonial que nos legou o Estado-nação, a economia do crescimento infinito e a sociedade patriarcal, então um Contrato Decolonial deve propor uma alternativa concreta para cada um desses pilares.

    Este artigo se dedica a essa tarefa construtiva. Ele argumenta que o Contrato Decolonial não é um ideal abstrato, mas um projeto político-organizacional viável, cujas bases já estão sendo erguidas por diversos atores sociais nas margens do sistema-mundo. Para dar forma a este projeto, articulamos uma nova constelação teórica, focada não na crítica, mas na arquitetura de alternativas. Propomos uma sociabilidade pós-capitalista fundada em quatro eixos interdependentes: uma nova organização política — o comunalismo confederado —; uma nova organização econômica — baseada nos comuns e no decrescimento —; uma nova organização social — a sociedade do cuidado —; e uma nova dimensão tecnológica — o comunalismo digital —, que reconfigura a internet como espaço público de deliberação, transparência e autogestão coletiva. Esta quarta dimensão, desenvolvida a partir da experiência brasileira, como por exemplo do Reclame Aqui, demonstra que as tecnologias de rede podem ser apropriadas como infraestruturas comunais, abrindo caminho para uma democracia digital de base comunitária, transparente e decolonial.

    Capítulo 1: A Política do Contrato Decolonial: Do Estado-Nação ao Comunalismo Confederado

    O Estado-nação moderno, com suas fronteiras, exércitos e burocracias centralizadas, não é uma forma política universal, mas uma tecnologia de poder europeia exportada para o resto do mundo através da violência colonial. Ele foi projetado para facilitar a extração de recursos, a homogeneização de culturas e o controle de populações. Como tal, é inadequado para uma sociabilidade decolonial.

    A alternativa reside em resgatar e atualizar a vasta gama de formas de auto-organização que o Estado-nação tentou suprimir. Como demonstram David Graeber e David Wengrow em O Despertar de Tudo (2022), a história humana não é uma marcha linear em direção ao Estado. Pelo contrário, é um laboratório de experimentação política. Nossos ancestrais “alternavam entre diferentes arranjos sociais dependendo da estação do ano” (GRAEBER & WENGROW, 2022), praticando a democracia direta, a descentralização e a confederação por milênios.

    O Contrato Decolonial se apropria dessa herança para propor uma organização política baseada no comunalismo confederado. 

    Neste modelo:

    1. A unidade política fundamental é a comuna: a assembleia local, o bairro, a aldeia, onde a democracia direta é praticada. A soberania reside nesta escala.
    2. As comunas se unem voluntariamente em confederações para gerir questões de escala maior (bacias hidrográficas, redes de transporte, etc.), enviando delegados com mandatos imperativos e revogáveis, em vez de políticos profissionais.
    3. O poder flui de baixo para cima, em uma rede descentralizada, substituindo a hierarquia piramidal do Estado.

    Esta não é uma utopia. É a práxis de atores como o movimento Zapatista em Chiapas, com seus “Caracóis” e Juntas de Bom Governo, e do Confederalismo Democrático implementado em Rojava (Curdistão sírio). São os sujeitos políticos do Contrato Decolonial mostrando que é possível organizar a vida social complexa com autonomia, democracia e sem a necessidade de um aparato estatal coercitivo.

    Capítulo 2: A Economia do Contrato Decolonial: Dos Comuns e do Decrescimento Planejado

    A economia capitalista se baseia em dois pilares: a acumulação infinita de capital e a privatização sistemática dos meios de subsistência. Uma economia decolonial deve atacar ambos.

    Primeiramente, é preciso recriar os comuns (commons). Como documenta Silvia Federici em Calibã e a Bruxa (2017), a acumulação primitiva que deu origem ao capitalismo dependeu da destruição violenta dos comuns — as terras, florestas e águas geridas coletivamente pelas comunidades camponesas. O Contrato Decolonial é um pacto para reverter essa pilhagem. Isso significa colocar os recursos essenciais à vida (terra, água, energia, saúde, conhecimento, moradia) sob gestão democrática e coletiva das comunas, retirando-os da lógica do mercado e da propriedade privada.

    Em segundo lugar, é preciso abandonar o dogma do crescimento infinito. A economia ecológica, particularmente na formulação de Jason Hickel (2021), demonstra que o crescimento contínuo do PIB é biofisicamente impossível em um planeta finito e é a principal causa da crise climática. A solução não é o “crescimento verde”, mas o decrescimento planejado. Hickel propõe que:

    O decrescimento é uma estratégia para reduzir o uso de energia e recursos do Norte Global de forma planejada e equitativa, a fim de trazer a economia de volta ao equilíbrio com o mundo vivo, ao mesmo tempo em que se melhora o bem-estar humano e a justiça social. (HICKEL, 2021, p. 29, tradução nossa)

    Para o Sul Global, isso não significa “não se desenvolver”, mas sim libertar-se da maldição do extrativismo imposto pelo sistema-mundo, permitindo que essas nações organizem suas economias em torno do bem-estar de seu povo e da saúde de seus ecossistemas, em vez de servir à fome de consumo do Norte. A economia do Contrato Decolonial é, portanto, uma economia dos comuns, localmente autogerida e globalmente equilibrada por um processo justo de decrescimento.

    Capítulo 3: A Sociedade do Contrato Decolonial: Da Produção de Mercadorias à Reprodução da Vida

    O capitalismo é um sistema que valoriza a produção de mercadorias enquanto desvaloriza e invisibiliza o trabalho de reprodução da vida — o cuidado com crianças e idosos, o preparo de alimentos, a manutenção do lar, o suporte emocional. Como demonstra Federici (2019), esse trabalho, majoritariamente imposto às mulheres e fundamental para a existência da força de trabalho, é a base não paga sobre a qual todo o edifício da acumulação se ergue.

    Uma sociedade decolonial deve operar uma inversão radical: colocar a reprodução da vida no centro da organização social. Isso implica:

    1. Desprivatizar o cuidado: Transformar o cuidado de uma responsabilidade individual (da mulher, da família) em uma responsabilidade coletiva, através de creches comunitárias, cozinhas solidárias, lavanderias públicas e redes de apoio mútuo.
    2. Valorizar o trabalho reprodutivo: Reconhecer e, em muitos casos, remunerar o trabalho de cuidado, garantindo autonomia econômica para quem o realiza.
    3. Fundamentar-se em uma “ecologia de saberes”: Como propõe Boaventura de Sousa Santos (2007), é preciso superar a hierarquia que coloca o conhecimento científico acima dos saberes práticos, populares e ancestrais. Uma sociedade do cuidado se guia pelo conhecimento das parteiras, das agricultoras, das curandeiras — os saberes que, na prática, sustentam a vida.

    Os protagonistas dessa transformação são os feminismos comunitários, periféricos e decoloniais, que há muito denunciam a insustentabilidade de um sistema que despreza quem cuida.

    Conclusão: Tecendo o Pluriverso

    O Contrato Decolonial, articulado através do comunalismo confederado, da economia dos comuns e do decrescimento, e da sociedade do cuidado, não é um modelo único a ser imposto. É um conjunto de princípios e práticas que criam as condições para a floração de um pluriverso — “um mundo onde caibam muitos mundos”, como sonham os Zapatistas.

    Ele não é uma utopia a ser alcançada em um futuro distante, mas uma práxis que já está em andamento, tecida nas lutas cotidianas dos atores sociais que nunca foram plenamente integrados ao Contrato Colonial. São os movimentos indígenas defendendo seus territórios (os comuns), os movimentos camponeses praticando a agroecologia (decrescimento e reciprocidade), as feministas construindo redes de cuidado e os municipalistas experimentando com a democracia direta.

    O Contrato Decolonial é a tarefa de reconhecer, articular e fortalecer essas alternativas existentes, construindo poder a partir das margens até que o centro necropolítico se torne obsoleto. É o projeto de reaprender a viver na Terra, não como seus donos, mas como seus filhos, em um pacto de cuidado mútuo e responsabilidade compartilhada.

    Conclusão Expandida: O Comunalismo Digital como Encerramento Decolonial

    O Reclame Aqui é uma das expressões mais significativas do comunalismo digital emergente no Sul Global. Criado em 2000 por quatro sócios — três administradores de sistemas e um publicitário — a partir da frustração de um consumidor com o mau atendimento de uma companhia aérea, o site nasceu como um espaço público onde qualquer pessoa poderia relatar problemas com empresas. Inicialmente concebido como um mural simples de desabafos, a plataforma evoluiu para o que é hoje a maior infraestrutura pública de reputação corporativa do Brasil, com mais de 27 milhões de acessos mensais e mais de 20 milhões de reclamações registradas. (Fonte: A história do Reclame Aqui em livroO Globo, 24 out. 2025, disponível aqui).

    O funcionamento do Reclame Aqui é simples, mas politicamente transformador: as reclamações são públicas e indexadas pelos motores de busca, o que confere visibilidade às práticas empresariais e incentiva a resolução dos conflitos. As empresas podem responder gratuitamente, e os consumidores avaliam as soluções oferecidas. Dessa interação surge uma forma de accountability coletiva, em que a confiança e a reputação substituem o poder coercitivo do Estado. A força do Reclame Aqui não vem da lei, mas da transparência e da vergonha pública — mecanismos morais e comunitários que produzem equilíbrio e justiça social sem recorrer à coerção jurídica.

    Lido sob a ótica de Murray Bookchin, o Reclame Aqui é um exemplo concreto de comunalismo digital. Assim como as town meetings da Nova Inglaterra do século XVIII — assembleias populares em que os cidadãos deliberavam diretamente sobre os rumos de suas comunidades —, a plataforma funciona como uma praça pública contemporânea, descentralizada e autogerida. O poder político não é delegado: ele é exercido cotidianamente por meio da deliberação coletiva, mediada pela palavra e pela reputação. Tal como nas comunas comunalistas descritas por Bookchin, o que sustenta o sistema é o consenso e o cuidado mútuo, não a hierarquia nem a coerção estatal.

    No entanto, diferentemente das experiências de autogestão do Norte Global, o comunalismo digital do Reclame Aqui nasce da experiência periférica e desigual do Sul Global, marcada pela ausência histórica do Estado e pela precariedade institucional. Ele é, portanto, uma resposta popular à ineficiência estatal e à mercantilização das relações de consumo: uma infraestrutura de soberania popular construída à margem das corporações e do aparato jurídico. Nesse sentido, o Reclame Aqui realiza, em escala digital, os princípios do Contrato Decolonial — autonomia, reciprocidade e cuidado — demonstrando que comunidades podem criar, manter e expandir sistemas complexos de governança sem depender de estruturas centralizadas de poder.

    A comparação com as ideias de Bookchin revela um ponto essencial: o que o filósofo libertário vislumbrou em suas teorias sobre municipalismo e autogestão encontra, nas práticas espontâneas das periferias digitais brasileiras, sua forma concreta e amadurecida. O Reclame Aqui é um municipalismo libertário em rede, uma comuna digital que exerce poder social sem violência, regula condutas sem punição e gera valor sem mercantilização. É, ao mesmo tempo, tecnologia e ética, infraestrutura e pacto social.

    Mais do que um sucesso empresarial, o Reclame Aqui representa uma ruptura epistêmica: prova que a confiança pode ser produzida coletivamente, fora da lógica estatal e mercantil. É um exemplo de como o Sul Global — e não o Norte — hoje ensina ao mundo novas formas de democracia e autogestão. Enquanto as grandes redes sociais corporativas degeneram em feudalismos eletrônicos, governadas por algoritmos proprietários e latifundiários digitais que controlam o acesso e a visibilidade, o Reclame Aqui mantém-se como um comum digital autônomo, baseado na reciprocidade, na transparência e na autogestão comunitária.

    Conclui-se, portanto, que o comunalismo digital brasileiro representado pelo Reclame Aqui realiza, na prática, os princípios do Contrato Decolonial. Ele mostra que as formas políticas emergentes das margens não são resquícios de um passado primitivo, mas laboratórios vivos de um futuro pós-capitalista. O que Murray Bookchin imaginou para os bairros de Vermont, o Brasil construiu para o mundo: uma democracia sem Estado, uma economia sem acumulação e uma justiça sem tribunais. O Reclame Aqui é o testemunho de que o comunalismo, quando floresce no Sul, não é utopia — é infraestrutura de sobrevivência.

    Referências

    FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

    FEDERICI, Silvia. O Ponto Zero da Revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2019.

    GRAEBER, David; WENGROW, David. O Despertar de Tudo: uma nova história da humanidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

    HICKEL, Jason. Less is More: How Degrowth Will Save the World. London: Penguin Books, 2021.

    O GLOBO. A história do Reclame Aqui em livro. Blog Lauro Jardim, 24 out. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2025/10/a-historia-do-reclame-aqui-em-livro.ghtml. Acesso em: 21 nov. 2025.

    SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do Pensamento Abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos Estudos CEBRAP, nº 79, 2007.

  • Aula 3: A Ecologia Social de Murray Bookchin: Crítica à Dominação e Libertação Social

    Introdução: Para Além da Crise Ambiental – Uma Crise de Dominação

    Nas aulas anteriores, exploramos as raízes da crise ecológica na lógica do capitalismo e da colonialidade. Agora, voltamos nossa atenção para a obra de Murray Bookchin, um pensador seminal que, desde meados do século XX, argumentou que a crise ambiental não é meramente um problema técnico ou de gestão de recursos, mas uma manifestação profunda de uma crise social enraizada na dominação. Para Bookchin, a dominação da natureza é um reflexo da dominação humana, e a libertação ecológica é inseparável da libertação social. Esta aula introduzirá os fundamentos da Ecologia Social de Bookchin, sua crítica ao dominacionismo e a proposta de uma sociedade ecológica e libertária.

    Murray Bookchin e a Ecologia Social: Uma Nova Perspectiva

    Murray Bookchin (1921-2006) foi um filósofo, ativista e teórico anarquista que desenvolveu a Ecologia Social como uma filosofia abrangente para entender e transformar a relação entre a sociedade e a natureza. Em contraste com outras abordagens ambientalistas que focam em problemas específicos (poluição, desmatamento) ou em soluções tecnológicas, a Ecologia Social de Bookchin argumenta que a crise ecológica tem suas raízes em problemas sociais e éticos, particularmente na existência de hierarquias e relações de dominação dentro da sociedade humana.

    Crítica ao Dominacionismo e à Hierarquia

    O cerne da Ecologia Social de Bookchin reside na sua crítica ao dominacionismo. Ele postula que a ideia de dominar a natureza surgiu historicamente da dominação de seres humanos por outros seres humanos. A hierarquia social – seja ela de classe, gênero, raça ou idade – precedeu e serviu de modelo para a ideia de que a humanidade poderia e deveria dominar o mundo natural. A exploração da natureza, portanto, é uma extensão lógica da exploração humana. Bookchin argumenta que:

    “A noção de dominação da natureza surge diretamente da dominação do ser humano pelo ser humano. A hierarquia e a dominação são os verdadeiros inimigos, não a tecnologia ou o crescimento populacional em si.” [Bookchin, Murray. The Ecology of Freedom: The Emergence and Dissolution of Hierarchy. 1982.]

    Essa perspectiva desafia a visão antropocêntrica que coloca a humanidade acima da natureza, mas também critica as abordagens ecocêntricas que ignoram as dimensões sociais da crise. Para Bookchin, a solução para a crise ecológica não está em “salvar a natureza” de uma humanidade inerentemente destrutiva, mas em transformar as relações sociais que geram a dominação e a exploração.

    Anarquismo Pós-Escassez: A Base Material para a Libertação

    Bookchin foi um proponente do anarquismo pós-escassez, uma visão de sociedade onde o avanço tecnológico e a abundância material, se utilizados de forma racional e ecológica, poderiam eliminar a necessidade de trabalho coercitivo e a escassez, que são as bases da hierarquia e da dominação. Em uma sociedade pós-escassez, a tecnologia seria empregada para reduzir o trabalho alienado e liberar o potencial humano para a criatividade e a autogestão. Isso permitiria a emergência de uma sociedade verdadeiramente livre, onde a cooperação substituiria a competição e a ecologia seria um princípio organizador fundamental.

    “A sociedade pós-escassez, com sua tecnologia avançada e sua abundância material, pode nos libertar da necessidade de dominação e hierarquia, permitindo que a humanidade se reconcilie com a natureza e consigo mesma.” [Bookchin, Murray. Post-Scarcity Anarchism. 1971.]

    A Interconexão entre Libertação Social e Ecológica

    Um dos pilares da Ecologia Social é a tese de que não pode haver libertação ecológica sem libertação social. A crise ambiental não pode ser resolvida enquanto persistirem as estruturas de dominação e exploração dentro da sociedade humana. A luta por um ambiente saudável e sustentável é, portanto, inseparável da luta por uma sociedade justa, igualitária e livre de hierarquias. Isso implica uma crítica radical ao capitalismo, ao Estado e a todas as formas de opressão.

    Conclusão: Rumo a uma Sociedade Ecológica e Libertária

    A Ecologia Social de Murray Bookchin oferece uma lente poderosa para analisar a crise ecológica como uma crise de dominação social. Ao conectar a exploração da natureza à exploração humana, Bookchin nos convida a repensar as bases de nossa organização social e a buscar soluções que promovam a libertação em todas as suas dimensões. Sua visão de um anarquismo pós-escassez e a interconexão entre as lutas sociais e ecológicas fornecem um arcabouço teórico fundamental para o nosso curso. Na próxima aula, aprofundaremos as propostas políticas de Bookchin, explorando o municipalismo libertário e o comunalismo como caminhos para a reconstrução de uma política verdadeiramente democrática e ecológica.

  • Aula 2: As Raízes da Crise: Capitalismo, Colonialidade e a Ruptura Metabólica

    Introdução: A Crise Ecológica como Crise Civilizatória

    A crise ecológica que enfrentamos hoje não pode ser compreendida isoladamente. Ela é, em sua essência, uma crise civilizatória, profundamente enraizada nas estruturas históricas e sistêmicas do capitalismo e da colonialidade. Para desvendar as complexas interconexões que nos trouxeram a este ponto crítico, esta aula se aprofundará nas contribuições de Karl Marx e Aníbal Quijano, que nos oferecem ferramentas conceituais para analisar a exploração capitalista, a persistência da colonialidade do poder e a relação destrutiva entre a humanidade e a natureza.

    Karl Marx: Crítica ao Capitalismo e a Ruptura Metabólica

    Karl Marx, em sua vasta obra, desvendou os mecanismos internos do capitalismo, revelando-o como um sistema intrinsecamente voltado para a acumulação de capital e a exploração da força de trabalho. Sua crítica ao capitalismo não se limitou à esfera econômica, mas se estendeu às suas implicações sociais e, como estudos mais recentes têm demonstrado, também ecológicas. O materialismo histórico, método de análise marxista, postula que as condições materiais da existência humana – as formas como as sociedades produzem e reproduzem sua vida – são a base para a compreensão das estruturas sociais, políticas e ideológicas.

    Embora a dimensão ecológica não fosse o foco central de Marx, pensadores como John Bellamy Foster têm resgatado e desenvolvido o conceito de ruptura metabólica presente em sua obra. Marx observou que o capitalismo, ao separar a população rural da urbana e ao intensificar a produção agrícola para o mercado, rompia o ciclo natural de nutrientes do solo. Os nutrientes extraídos da terra nas áreas rurais eram consumidos nas cidades e não retornavam ao solo, gerando um empobrecimento da terra e a necessidade de fertilizantes artificiais. Essa ruptura metabólica ilustra a contradição fundamental do capitalismo com os processos naturais, revelando que a exploração da natureza é uma condição inerente à sua lógica de acumulação. O sistema capitalista, ao tratar a natureza como um mero recurso a ser explorado e os seres humanos como força de trabalho a ser mercantilizada, estabelece uma relação destrutiva que culmina na crise ecológica atual.

    Aníbal Quijano: A Colonialidade do Poder

    Aníbal Quijano, sociólogo peruano, introduziu o conceito fundamental de colonialidade do poder para explicar como as estruturas de dominação herdadas da colonização persistem e se reconfiguram na organização da sociedade moderna, mesmo após o fim do colonialismo formal. A colonialidade do poder não se refere apenas à dominação política ou econômica, mas a um padrão de poder global que articula raça, trabalho, gênero e conhecimento, mantendo hierarquias e desigualdades históricas.

    Para Quijano, a ideia de raça foi um elemento central na constituição desse padrão de poder. A classificação racial da população mundial, iniciada com a conquista da América, serviu para justificar a exploração e a dominação, estabelecendo uma hierarquia global onde os povos não-europeus eram inferiorizados e seus conhecimentos e formas de vida desvalorizados. Essa hierarquia racial se entrelaça com a divisão internacional do trabalho, onde certas populações são destinadas a posições subalternas na produção capitalista global.

    Assim, a colonialidade do poder é crucial para entender como a exploração capitalista se manifesta de forma diferenciada em diversas regiões do mundo, especialmente no que tange à extração de recursos naturais e à imposição de modelos de desenvolvimento que desconsideram as realidades e os saberes locais. A persistência dessa estrutura de poder global contribui diretamente para a crise ecológica, ao legitimar a apropriação e a degradação ambiental em territórios considerados “periféricos” ou “subdesenvolvidos”, onde a natureza e os povos são frequentemente classificados como “objetos” ou “recursos” a serem utilizados para o benefício do centro capitalista global. Conforme a teoria do sistema-mundo de Wallerstein, a manutenção da engenharia de exploração é necessária para a sobrevivência do sistema, e a colonialidade do poder autoriza esse “canibalismo” ao justificar a hierarquia centro-periferia.

    Conexões entre Capitalismo, Colonialidade e Crise Ecológica

    A intersecção entre a crítica de Marx ao capitalismo e a teoria da colonialidade do poder de Quijano revela que a crise ecológica não é um problema técnico ou meramente ambiental, mas uma manifestação profunda de um sistema global de exploração e dominação. O capitalismo, em sua busca incessante por lucro e expansão, não apenas explora o trabalho humano, mas também esgota os recursos naturais e desestabiliza os ecossistemas. A colonialidade do poder, por sua vez, fornece a base ideológica e estrutural para que essa exploração ocorra de forma desigual, concentrando os ônus ambientais e sociais nas populações e territórios historicamente marginalizados.

    Essa compreensão nos permite ir além das soluções superficiais do “capitalismo verde” e reconhecer que a superação da crise ecológica exige uma transformação radical das relações de poder e produção. A luta por uma ecologia da liberdade, portanto, é inseparável da luta contra o capitalismo e a colonialidade, buscando desmantelar as estruturas que autorizam a destruição ambiental e a opressão social.

    Conclusão: Desvendando as Estruturas de Dominação

    Ao final desta aula, esperamos que os participantes tenham uma compreensão mais aprofundada das raízes históricas e sistêmicas da crise ecológica. A análise conjunta de Marx e Quijano nos capacita a identificar as conexões intrínsecas entre a exploração capitalista, a colonialidade do poder e a degradação ambiental. Essa perspectiva é fundamental para construir um caminho em direção a uma “Ecologia da Liberdade” que seja verdadeiramente decolonial e emancipatória, questionando não apenas os sintomas, mas as causas profundas da nossa atual condição planetária. A próxima aula aprofundará as propostas de Murray Bookchin para uma Ecologia Social, oferecendo alternativas concretas a esse cenário de dominação.

  • Aula 9: Comunalismo Decolonial na Prática: Conselhos Municipais e Ecologia da Liberdade

    Aula 9: Comunalismo Decolonial na Prática: Conselhos Municipais e Ecologia da Liberdade

    Introdução: Da Crítica à Proposta – Construindo uma Ecologia da Liberdade

    Ao longo deste curso, mergulhamos nas profundas análises de Murray Bookchin, Aníbal Quijano, Sueli Carneiro, Frantz Fanon, Achille Mbembe, Rita Segato, Silvia Rivera Cusicanqui, Nancy Fraser e Karl Marx. Desvendamos as raízes da crise ecológica e social no capitalismo, na colonialidade e nas diversas formas de dominação, e exploramos as propostas de libertação social, decolonialidade e justiça interseccional. Agora, na nossa aula final, é tempo de sintetizar esses conhecimentos e transformá-los em uma proposta concreta para a ação: a criação de Conselhos Municipais com finalidade política e ecológica, inspirados nos princípios do comunalismo decolonial e da Ecologia da Liberdade.

    A Síntese dos Conceitos: Um Caminho para a Transformação

    Nossa jornada revelou que a crise do planeta não é um problema isolado, mas uma crise civilizatória (Aula 1) impulsionada pela lógica do capitalismo e da colonialidade do poder (Aula 2). O sistema capitalista, em sua busca incessante por acumulação, gera uma ruptura metabólica com a natureza e uma alienação do trabalho e da vida, enquanto a colonialidade do poder justifica a exploração de povos e territórios, classificando-os como “objetos” ou “recursos”.

    Murray Bookchin, com sua Ecologia Social (Aula 3), nos mostrou que a dominação da natureza é um reflexo da dominação humana, e que a libertação ecológica é inseparável da libertação social. Sua proposta de Municipalismo Libertário e Comunalismo (Aula 4) oferece um modelo para a reconstrução da política a partir da base, através de assembleias populares e da confederação de comunidades autônomas, como uma alternativa radical ao Estado-nação e à democracia representativa.

    As contribuições de Fanon e Mbembe (Aula 5) nos alertaram para a necropolítica, o poder de “fazer morrer” e a gestão da morte de corpos racializados e marginalizados, evidenciando como a lógica de extermínio se estende aos ecossistemas. Os feminismos decoloniais de Sueli Carneiro, Rita Segato, Silvia Rivera Cusicanqui e Angela Davis (Aulas 6 e 7) aprofundaram nossa compreensão da interseccionalidade das opressões de raça, gênero e classe, da colonialidade do gênero, da pedagogia da crueldade e da importância da dignidade dos corpos e da desobediência como formas de resistência. O conceito de ch”ixi de Cusicanqui nos oferece uma epistemologia da coexistência, enquanto o abolicionismo prisional de Davis aponta para a necessidade de desmantelar sistemas de controle e opressão.

    Finalmente, Nancy Fraser (Aula 8) nos forneceu uma teoria tridimensional da justiça social – redistribuição, reconhecimento e representação – e uma crítica contundente ao “capitalismo canibal”, que devora a natureza, o trabalho de cuidado e a própria política democrática. Ela nos convocou a um feminismo anticapitalista e a uma luta unificada por justiça.

    A Proposta: Conselhos Municipais para uma Ecologia da Liberdade

    Inspirados por essa constelação de ideias, propomos a criação de Conselhos Municipais que atuem como instâncias de poder popular e de autogestão local, nos moldes dos conselhos tutelares da infância, mas com uma finalidade política e ecológica mais ampla. Esses conselhos seriam a materialização prática do comunalismo decolonial, buscando empoderar as comunidades para que possam “dar as cartas” em seus próprios territórios.

    Finalidade e Escopo dos Conselhos Municipais:

    1. Fiscalização e Controle Social Ecológico:
    • Fiscalização de Contratos e Políticas Públicas: Ir além da fiscalização tradicional (já realizada por câmaras municipais e Ministério Público) para incluir uma análise rigorosa do impacto socioambiental de todos os contratos e políticas públicas municipais. Isso envolveria a avaliação de projetos de infraestrutura, concessões de serviços, planos urbanísticos e qualquer iniciativa que possa afetar o meio ambiente e as comunidades.
    • Monitoramento de Grandes Poluidores: Embora os grandes poluidores sejam frequentemente multinacionais gigantescas, os conselhos poderiam atuar na fiscalização de suas operações em nível local, denunciando irregularidades, exigindo transparência e cobrando responsabilidade socioambiental. Poderiam, inclusive, articular-se com outros conselhos e movimentos para pressionar por mudanças em esferas maiores.
    • Gestão de Resíduos e Saneamento: Fiscalizar a gestão de resíduos sólidos, o saneamento básico e a qualidade da água, propondo soluções comunitárias e sustentáveis, e garantindo que as políticas públicas atendam às necessidades da população e do meio ambiente.
    1. Orçamento Participativo e Prioridades Ecológicas:
    • Ampliação do Orçamento Participativo: Fortalecer e aprofundar o modelo de orçamento participativo (já existente em algumas cidades, como as iniciativas do PT), garantindo que as prioridades ecológicas e as demandas das comunidades marginalizadas sejam centralizadas na alocação de recursos. Os conselhos seriam os principais articuladores dessas demandas.
    • Investimento em Bioeconomia Local: Promover e fiscalizar investimentos em iniciativas de bioeconomia que valorizem os saberes locais, a agricultura familiar, a produção orgânica e a economia solidária, em oposição a modelos extrativistas.
    1. Promoção da Ecologia da Liberdade e Justiça Climática Local:
    • Educação Ambiental e Cidadã: Desenvolver programas de educação ambiental e cidadã que promovam a conscientização sobre a crise ecológica, os direitos socioambientais e as alternativas comunalistas e decoloniais.
    • Defesa dos Bens Comuns: Atuar na defesa dos bens comuns (água, florestas, solo, biodiversidade) contra a privatização e a exploração predatória, garantindo seu uso sustentável e equitativo pelas comunidades.
    • Apoio a Iniciativas Comunitárias: Incentivar e apoiar projetos de autogestão comunitária, cooperativas e outras formas de organização social que promovam a sustentabilidade e a solidariedade.
    • Mediação de Conflitos Socioambientais: Atuar como mediadores em conflitos socioambientais, buscando soluções justas e equitativas que protejam as comunidades e o meio ambiente.

    Como Funcionariam?

    Esses conselhos seriam compostos por membros eleitos diretamente pelas comunidades, com mandatos rotativos e revogáveis, garantindo a democracia direta e a participação ativa dos cidadãos. Seriam espaços de deliberação e decisão, com poder de veto sobre projetos que ameacem a integridade ecológica e social do município. A confederação desses conselhos em níveis regionais e estaduais permitiria a articulação de lutas e a coordenação de ações em escalas maiores, sem replicar a lógica hierárquica do Estado.

    O Desafio da COP 30 e o Futuro

    A COP 30 na Amazônia (Aula 1) serve como um lembrete urgente de que o “planeta está pedindo socorro”. A proposta desses conselhos municipais é uma das “cartas na mesa” para responder a esse chamado. Eles representam uma forma de desobediência às lógicas dominantes e uma aposta na capacidade das comunidades de construir uma Ecologia da Liberdade a partir da base. Ao invés de esperar por soluções de cima para baixo, esses conselhos empoderariam os cidadãos a “dar as cartas” em seus próprios territórios, fiscalizando, propondo e implementando políticas que reflitam os princípios de justiça social, ecológica e decolonial.

    Conclusão: Uma Ecologia da Liberdade Construída Coletivamente

    O curso “Comunalismo Decolonial — Por uma Ecologia da Liberdade” nos convida a repensar radicalmente nossa relação com o planeta e com os outros. A proposta dos Conselhos Municipais é um passo concreto nessa direção, um convite à ação e à construção coletiva de um futuro mais justo, equitativo e sustentável. É a aposta na capacidade humana de transcender as estruturas de dominação e de criar uma sociedade onde a vida, em todas as suas formas, seja valorizada e protegida. Que este curso inspire a reflexão e a prática para a construção de um mundo onde a liberdade e a ecologia caminhem de mãos dadas.

    Conclusão Geral do Curso

    Ao final do curso “Comunalismo Decolonial — Por uma Ecologia da Liberdade”, esperamos ter fornecido ferramentas conceituais e analíticas para uma compreensão aprofundada da crise civilizatória contemporânea. A jornada pelas obras de Murray Bookchin, Aníbal Quijano, Sueli Carneiro, Frantz Fanon, Achille Mbembe, Rita Segato, Silvia Rivera Cusicanqui, Nancy Fraser e Karl Marx revelou a interconexão intrínseca entre a crise ecológica e as diversas formas de dominação – capitalista, colonial, racial e patriarcal.

    Percebemos que a “Ecologia da Liberdade” não é um conceito abstrato, mas um projeto político e ético que exige a descolonização do pensamento e da ação, a superação do capitalismo canibal e a construção de relações sociais e ecológicas baseadas na solidariedade, na cooperação e no respeito à diversidade. A proposta dos Conselhos Municipais, inspirada no municipalismo libertário de Bookchin e nas críticas decoloniais, emerge como um caminho concreto para a materialização desses ideais. Ao empoderar as comunidades para a autogestão e a fiscalização socioambiental, esses conselhos representam uma aposta na capacidade humana de construir alternativas a partir da base, desafiando as estruturas de poder que historicamente “dão as cartas”.

    Que este curso sirva como um catalisador para a reflexão crítica e para a ação transformadora. Que as ideias aqui apresentadas inspirem a criação de novas formas de organização social e política, onde a dignidade dos corpos, a integridade dos territórios e a coexistência plural sejam os pilares de um futuro verdadeiramente livre e ecológico. A luta por uma Ecologia da Liberdade é uma luta contínua, que exige engajamento, criatividade e a coragem de imaginar e construir um mundo diferente. Que possamos, juntos, “dar as cartas” para um futuro de esperança e emancipação.

    Referências

    • Bookchin, Murray. The Ecology of Freedom: The Emergence and Dissolution of Hierarchy. Palo Alto: Cheshire Books, 1982.
    • Bookchin, Murray. Post-Scarcity Anarchism. Montreal: Black Rose Books, 1971.
    • Bookchin, Murray. The Rise of Urbanization and the Decline of Citizenship. San Francisco: Sierra Club Books, 1987.
    • Bookchin, Murray. The Next Revolution: Popular Assemblies and the Promise of Direct Democracy. London: Verso, 2015.
    • Carneiro, Sueli. Ennegrecer o feminismo: a performance e a política da corporeidade. In: Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 13, n. 3, p. 539-555, set./dez. 2005.
    • Davis, Angela. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo, 1981.
    • Fanon, Frantz. Os Condenados da Terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1961.
    • Fraser, Nancy. Redistribuição ou Reconhecimento? Uma Luta Pós-Socialista. Rio de Janeiro: Record, 2003.
    • Fraser, Nancy. Capitalism: A Conversation in Critical Theory. London: Verso, 2018.
    • Mbembe, Achille. Necropolitics. Durham: Duke University Press, 2019.
    • Rivera Cusicanqui, Silvia. Ch’ixinakax utxiwa: Una reflexión sobre prácticas y discursos descolonizadores. Buenos Aires: Tinta Limón, 2010.
    • Quijano, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. In: A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005.

    Conclusão Geral do Curso

    Ao final deste percurso, o curso “Comunalismo Decolonial — Por uma Ecologia da Liberdade” nos deixa com a convicção de que a crise ecológica e social que enfrentamos é, em sua essência, uma crise civilizatória. Ela é o resultado de séculos de dominação, exploração e hierarquias impostas por sistemas como o capitalismo e a colonialidade. No entanto, a análise aprofundada das obras de Murray Bookchin, Aníbal Quijano, Sueli Carneiro, Frantz Fanon, Achille Mbembe, Rita Segato, Silvia Rivera Cusicanqui, Nancy Fraser e Karl Marx não nos conduziu ao desespero, mas sim à identificação de caminhos e ferramentas para a transformação.

    Compreendemos que a libertação da natureza é inseparável da libertação humana, e que a luta por uma “Ecologia da Liberdade” exige uma abordagem interseccional e decolonial. Isso significa desmantelar as estruturas de poder que perpetuam a exploração econômica, a opressão racial e de gênero, e a violência contra os corpos e os territórios.

    A proposta dos Conselhos Municipais, inspirada no Municipalismo Libertário de Bookchin e enriquecida pelas perspectivas decoloniais, emerge como uma alternativa concreta e viável. Esses conselhos representam a aposta na capacidade das comunidades de se autogovernar, de fiscalizar o poder, de gerir seus recursos de forma sustentável e de construir uma política verdadeiramente democrática e ecológica a partir da base. Eles são a materialização da “desobediência” às lógicas dominantes e a afirmação de que “quem dá as cartas” deve ser o povo organizado.

    Que as reflexões e propostas apresentadas neste curso sirvam como um convite à ação, à organização e à construção coletiva de um futuro onde a justiça social, a equidade e a sustentabilidade não sejam meros ideais, mas realidades vividas em cada comunidade, em cada território. A “Ecologia da Liberdade” é um projeto em construção, e cada um de nós tem um papel fundamental nessa jornada. O planeta está pedindo socorro, e a resposta está em nossas mãos, na nossa capacidade de imaginar e construir um mundo onde a vida, em todas as suas formas, possa florescer plenamente.

  • Aula 8: Justiça Social e Capitalismo Canibal: Nancy Fraser e as Dimensões da Luta

    Aula 8: Justiça Social e Capitalismo Canibal: Nancy Fraser e as Dimensões da Luta

    FABIO BORJAS ROSIM BRAGA

    Introdução: Redefinindo a Justiça em Tempos de Crise

    Após explorar as raízes da crise ecológica e social no capitalismo e na colonialidade, e as propostas de libertação social e decolonialidade através das lentes de diversos pensadores, esta aula se volta para a obra de Nancy Fraser. Filósofa política e teórica crítica, Fraser oferece uma estrutura abrangente para entender a justiça social em suas múltiplas dimensões, indo além da mera economia para incluir aspectos culturais e políticos. Sua crítica ao capitalismo contemporâneo, que ela descreve como “capitalismo canibal”, e sua defesa de um feminismo anticapitalista são cruciais para a construção de uma “Ecologia da Liberdade” que seja verdadeiramente transformadora.

    Nancy Fraser: A Teoria Tridimensional da Justiça Social

    Nancy Fraser propõe uma teoria da justiça social que se articula em três dimensões interligadas, buscando superar as limitações de abordagens que focam apenas em uma delas. Para Fraser, a justiça plena exige a consideração e a luta simultânea por:

    1. Redistribuição: Esta dimensão refere-se à justiça econômica, à distribuição equitativa de recursos e riqueza. As injustiças de redistribuição são enraizadas na estrutura econômica da sociedade e se manifestam como exploração, privação, desigualdade de classe e pobreza. A luta por redistribuição visa transformar as relações de produção e propriedade para garantir que todos tenham acesso aos meios necessários para uma vida digna.
    1. Reconhecimento: Diz respeito à justiça cultural ou simbólica, à valorização igualitária de identidades e diferenças culturais. As injustiças de reconhecimento são enraizadas nos padrões sociais de representação, interpretação e comunicação, manifestando-se como dominação cultural, não-reconhecimento, desrespeito e estigmatização. A luta por reconhecimento busca desconstruir hierarquias culturais e promover o respeito à diversidade de identidades e modos de vida.
    1. Representação (ou Participação): Fraser adicionou posteriormente esta dimensão, argumentando que a justiça também exige a capacidade de participar igualmente na tomada de decisões e na formação da agenda política. Injustiças de representação ocorrem quando certos grupos são impedidos de ter voz, de serem representados politicamente ou de influenciar as decisões que afetam suas vidas. A luta por representação visa democratizar as estruturas políticas e garantir a inclusão de todos os atores sociais no processo decisório.

    “A justiça hoje exige tanto redistribuição quanto reconhecimento e representação. E proponho examinar a relação entre eles.” [Fraser, Nancy. Redistribuição ou Reconhecimento? Uma Luta Pós-Socialista. 2003.]

    Fraser argumenta que essas três dimensões são analiticamente distintas, mas intrinsecamente interligadas na prática. Uma luta por justiça que ignore uma dessas dimensões estará fadada ao fracasso ou a reproduzir novas formas de injustiça.

    Dilemas da Justiça e a Crítica ao Capitalismo Canibal

    Fraser explora os dilemas entre as lutas por redistribuição e reconhecimento, observando que, em certos momentos históricos, as lutas por reconhecimento cultural podem desviar a atenção das questões de redistribuição econômica, ou vice-versa. Ela critica a “astúcia da história” que, segundo ela, levou algumas vertentes do feminismo a se tornarem cúmplices do capitalismo neoliberal. Ao focar excessivamente no reconhecimento cultural e na diversidade de identidades, sem questionar as estruturas econômicas subjacentes, essas vertentes feministas podem, paradoxalmente, legitimar um sistema que continua a gerar desigualdade e exploração.

    Para descrever a fase atual do capitalismo, Fraser cunha o termo “capitalismo canibal”. Ela argumenta que o capitalismo contemporâneo, em sua busca incessante por acumulação, devora e destrói as próprias bases que o sustentam. Esse “canibalismo” se manifesta em três frentes principais:

    • Canibalismo da Natureza: O capitalismo devora os recursos naturais e os ecossistemas, gerando a crise ecológica que discutimos nas aulas anteriores. A natureza é tratada como um reservatório ilimitado de insumos e um depósito de resíduos, sem reconhecimento de seus limites e ciclos.
    • Canibalismo do Trabalho de Cuidado e Reprodução Social: O capitalismo se alimenta do trabalho de cuidado e reprodução social (criação de filhos, cuidado com idosos, manutenção do lar, etc.), que é majoritariamente realizado por mulheres e muitas vezes não remunerado ou subvalorizado. Ao desvalorizar e sobrecarregar essa esfera, o sistema mina a capacidade da sociedade de se reproduzir socialmente de forma sustentável.
    • Canibalismo da Política Democrática: O capitalismo corrói as instituições democráticas e a capacidade dos cidadãos de participar efetivamente na tomada de decisões. A política é mercantilizada, e os interesses corporativos e financeiros passam a dominar a agenda pública, esvaziando o potencial emancipatório da democracia.

    “O capitalismo, em sua fase neoliberal, tornou-se ‘canibal’, devorando a natureza, o trabalho de cuidado e a própria política democrática que o sustenta.” [Fraser, Nancy. Capitalism: A Conversation in Critical Theory. 2018.]

    Diante desse cenário, Fraser defende um feminismo anticapitalista que integre as lutas por redistribuição, reconhecimento e representação, e que seja capaz de desafiar as raízes estruturais do capitalismo canibal. A luta por justiça social, portanto, não pode ser fragmentada, mas deve ser uma luta unificada contra as múltiplas formas de opressão e exploração.

    Conexões com a Ecologia da Liberdade

    A teoria de Nancy Fraser é fundamental para a construção de uma “Ecologia da Liberdade” decolonial, pois:

    • Amplia a Compreensão da Injustiça: Ao integrar as dimensões de redistribuição, reconhecimento e representação, Fraser nos ajuda a entender a complexidade das injustiças que geram a crise ecológica e social, e a evitar soluções parciais ou superficiais.
    • Fortalece a Crítica ao Capitalismo: Sua análise do “capitalismo canibal” reforça a ideia de que o sistema é inerentemente destrutivo e que a crise ecológica não pode ser resolvida sem uma transformação radical das relações econômicas.
    • Promove um Feminismo Integrado: A defesa de um feminismo anticapitalista que articula as lutas de gênero com as lutas de classe e raça é essencial para construir um movimento de libertação que seja verdadeiramente inclusivo e eficaz.
    • Prepara o Terreno para Alternativas: Ao desvelar as falhas do sistema atual, Fraser nos impulsiona a buscar alternativas que promovam uma justiça social e ecológica integral, pavimentando o caminho para as propostas comunalistas e decoloniais que serão sintetizadas na próxima aula.

    Conclusão: Rumo a uma Luta Unificada pela Justiça

    Esta aula nos equipou com as ferramentas conceituais de Nancy Fraser para analisar a justiça social em sua complexidade tridimensional e para criticar o caráter destrutivo do “capitalismo canibal”. A compreensão de que as lutas por redistribuição, reconhecimento e representação são interligadas e que um feminismo verdadeiramente emancipatório deve ser anticapitalista é crucial para o nosso projeto de “Ecologia da Liberdade”. Na próxima e última aula, faremos uma síntese de todos os conceitos e autores estudados, e desenvolveremos a proposta concreta dos conselhos municipais, integrando as perspectivas decolonial e comunalista em uma visão prática para a transformação social e ecológica.

  • O PL da Devastação: Por uma Ecologia Social a Partir das Margens

    O PL da Devastação: Por uma Ecologia Social a Partir das Margens

    A verticalização do poder é a negação da democracia

    Autor: Fabio Borjas Rosim Braga

     DOI 10.5281/zenodo.17635451

    Coordenador do Centro de Estudos e 

    Editor Responsável da Revista Palafitas – Saberes a partir das margens

    REVISTA PALAFITAS – ISSN 3086-2892

    Fediverso (Mastodon): https://hub.palafitas.org/@palafitas

    https://orcid.org/0009-0008-7496-575X

    Email: editor@palafitas.org

    Resumo

    Este ensaio propõe uma crítica estrutural ao Estado moderno e ao fetichismo político que o consagra como símbolo de emancipação. O Projeto de Lei 2159/21 — conhecido como PL da Devastação — é analisado como expressão da racionalidade necropolítica e da colonialidade do poder, ao legitimar a destruição ambiental sob os signos da eficiência e da segurança jurídica. A abordagem teórico-crítica, de natureza interdisciplinar, articula autores clássicos e decoloniais — de Hobbes a Marx, de Bookchin a Boaventura de Sousa Santos, passando por Quijano, Mbembe e Sueli Carneiro — para demonstrar como o Estado centralizado constitui a forma histórica da dominação moderna, operando pela administração do medo e pela hierarquização das vidas. Argumenta-se que mesmo os projetos revolucionários, ao tomarem o poder, tendem a reproduzir a lógica vertical da obediência. O texto conclui que romper com esse paradigma exige uma transição comunalista e ética, fundada na ecologia social e nos saberes das margens, rumo a formas de autogestão solidária capazes de reinventar a política como prática de cuidado, escuta e convivência.

    Palavras-chave: Estado; necropolítica; colonialidade do poder; comunalismo; ecologia social; saberes das margens.

    1. O Estado como invenção do medo

    O PL da Devastação (PL 2159/21), que altera a legislação de licenciamento ambiental no Brasil, é talvez a mais recente e cristalina anomalia do Estado moderno. Sob o discurso de “modernização”, “segurança jurídica” e “eficiência administrativa”, o projeto opera como tecnologia política de medo e dominação, convertendo a destruição ambiental em norma de governabilidade.
    O medo — de travar o “progresso”, de gerar “insegurança econômica”, de “paralisar investimentos” — é o afeto fundador do pacto social que sustenta o Estado. Como um Leviatã neoliberal, o Estado contemporâneo reatualiza o imaginário hobbesiano: apresenta-se como o único mediador capaz de conter o caos, mas o faz à custa da própria vitalidade do mundo. O medo se torna princípio de organização política e justificação moral da obediência.

    Em O Leviatã (1651), Thomas Hobbes descreve a origem do Estado como resposta à “guerra de todos contra todos”. Para evitar o colapso da convivência, os homens renunciam à liberdade e transferem ao soberano o monopólio da força. Contudo, essa teoria funda a legitimidade política na suposição de que o ser humano é, em essência, um competidor e um inimigo em potencial — um indivíduo que precisa ser domesticado. A política, portanto, nasce do medo da liberdade, e o Estado emerge como a institucionalização da violência que pretendia conter.

    “O Estado se tornou o próprio monstro que prometia controlar — o Leviatã que oferece proteção ao preço da servidão.”

    No Brasil contemporâneo, o PL da Devastação é a expressão dessa racionalidade hobbesiana reencarnada na linguagem da tecnocracia. O projeto promete “simplificar processos”, “reduzir conflitos” e “garantir previsibilidade” ao setor produtivo, mas na prática desarma os mecanismos de proteção ambiental e social, substituindo a precaução pelo risco calculado — isto é, pela aposta de que é possível administrar o colapso.
    Como adverte Boaventura de Sousa Santos (2021, p. 42), “o Estado moderno nasceu como Estado capitalista, patriarcal e colonial”. Não há neutralidade na forma estatal: ela é a gramática política do medo transformado em lei. Sua função é proteger a propriedade, disciplinar os corpos e organizar a obediência. O Estado não é a solução para o caos — é a forma sofisticada de perpetuá-lo sob aparência de ordem.

    O “contrato social”, lembra Charles Mills (1997), nunca foi universal: sempre foi um contrato racial, patriarcal e colonial. A promessa de igualdade política foi desde o início estruturada pela exclusão. Nas Américas, o pacto social é, na verdade, um pacto de dominação: o que funda a comunidade política é o consenso sobre quem deve permanecer fora dela. O PL da Devastação, ao restringir a consulta prévia de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, reinscreve esse contrato racial no corpo jurídico brasileiro.
    Aqueles que mais sofrem os impactos da destruição ambiental — os povos da floresta, as populações ribeirinhas, as comunidades de palafitas — são sistematicamente silenciados em nome de uma racionalidade econômica que não reconhece seu estatuto de sujeitos políticos.

    Como analisa Aníbal Quijano (2000), o Estado é “a face política da colonialidade do poder”: a instituição que administra, legitima e reproduz hierarquias raciais, econômicas e epistêmicas. A modernidade, para Quijano, é inseparável do colonialismo; o Estado, inseparável da guerra. A destruição da natureza e a subjugação de povos racializados não são distorções acidentais do sistema — são os alicerces ontológicos de sua existência.
    Por isso, como observa Achille Mbembe (2011), a modernidade é inseparável do necropoder — o poder de decidir quem vive e quem morre. E o PL da Devastação é, em sua essência, uma forma jurídica desse necropoder: ele define, por via administrativa, quais vidas e ecossistemas podem ser sacrificados em nome do crescimento econômico.

    O Estado, que nasceu como promessa de proteção, converte-se assim no principal agente de destruição. Seu medo original — o medo do outro, do bárbaro, do caos — se transmuta em medo da autonomia popular e em aversão à pluralidade epistemológica. O Leviatã moderno teme a multiplicidade porque ela ameaça sua ordem de controle.
    Assim, o discurso da segurança jurídica torna-se o instrumento da insegurança vital. A simplificação dos licenciamentos é o eufemismo para a eliminação da deliberação democrática. E a “eficiência administrativa” é o outro nome para o desmonte do poder público enquanto mediação ética entre humanidade e natureza.

    Em síntese, o PL da Devastação é o Leviatã ecológico, a atualização contemporânea do medo como princípio organizador do poder. Ele simboliza a maturação de um Estado que já não governa para evitar o colapso, mas governa o colapso — administrando a catástrofe como política pública.
    A democracia ambiental é assim substituída pela burocracia da devastação, e a política se reduz à gestão dos danos que o próprio Estado produz. Como alerta Bookchin (1971), “seria um erro desastroso lidar com uma economia de potencial abundância e produção cibernética a partir de uma posição teórica ainda enraizada na era do carvão”. O Brasil repete esse erro: insiste em responder à crise ecológica com as ferramentas conceituais e institucionais da modernidade que a criou.

    A necrojurisdição, como dimensão jurídica da necropolítica, opera justamente nesses dispositivos aparentemente técnicos. É ali, na linguagem administrativa e nos pareceres legislativos, que a morte se torna norma e a omissão se torna gestão. O que os artigos do PL escancaram não é apenas um desmonte ambiental: é o projeto de gestão seletiva da vida. O Direito não protege a vida — ele organiza quem pode perdê-la em silêncio.

    1.1 A crítica pontual

    A necropolítica ambiental inscrita no PL 2159/21 não está apenas no espírito do projeto, mas em seus dispositivos, que traduzem em linguagem jurídica a autorização para matar com aparência de legalidade. O artigo 14 é talvez o mais escandaloso: institui o chamado silêncio positivo, segundo o qual, se o órgão ambiental não responder a tempo, a licença será automaticamente considerada concedida. Em um país onde os órgãos ambientais operam sob sabotagem orçamentária, sucateamento técnico e aparelhamento político, esse dispositivo transforma a omissão do Estado em autorização tácita para destruir. O silêncio, que deveria ser interpretado como falha procedimental ou alerta de risco, passa a ser entendido como consentimento. O Estado desaparece, mas sua ausência vira assinatura. É a licença por abandono.

    Outro núcleo de devastação aparece já na base conceitual do projeto. Os artigos 2º e 3º reduzem o conceito de impacto ambiental aos efeitos imediatos, diretos e quantificáveis, desconsiderando qualquer dano indireto, cumulativo, simbólico ou sociocultural. O que não cabe em um gráfico, não entra no cálculo. O adoecimento lento de uma população exposta a metais pesados, a contaminação da água por agrotóxicos que se acumula ao longo de anos, o deslocamento forçado de comunidades por assoreamento ou desmatamento em áreas vizinhas — tudo isso é legalmente invisibilizado. O projeto constrói uma epistemologia do apagamento: só é real o que é visível para os olhos de engenheiros, consultores e investidores.

    A esse quadro soma-se o artigo 9º, que permite a dispensa do Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) para atividades classificadas como de “baixo impacto”. O problema, evidentemente, está na definição. O PL não estabelece critérios técnicos ou sociais objetivos — abre espaço para manobras políticas, tecnocráticas ou empresariais. Barragens, estradas, hidrelétricas ou projetos de mineração em regiões de alta fragilidade ecológica e social podem ser enquadrados como inofensivos. O licenciamento ambiental, nesse modelo, deixa de ser processo de precaução e passa a ser mera formalidade. A exceção vira regra, e a exceção é sempre contra os pobres.

    Mas talvez o dispositivo mais perverso esteja na exclusão das vozes que mais deveriam ser ouvidas. Os artigos 10 e 16 ignoram a obrigatoriedade da consulta livre, prévia e informada — prevista na Convenção 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário — e restringem o direito à participação apenas àqueles “afetados diretamente”, muitas vezes exigindo titularidade fundiária. Trata-se de um recorte jurídico deliberadamente colonial. Povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e populações periféricas, justamente os que têm seu território negado ou não documentado, são excluídos do debate. Não tendo papel, não têm palavra. O território vira terra disponível. A burocracia estatal transforma o direito à existência em processo seletivo.

    Esses dispositivos não são falhas técnicas nem excessos retóricos. Eles compõem, juntos, uma máquina legislativa perfeitamente ajustada para legalizar o colapso. O PL 2159/21 não corrige uma suposta “lentidão” do licenciamento ambiental. Ele destrói os mecanismos de contenção da catástrofe. Ele sabota deliberadamente os instrumentos de proteção ambiental, desmobiliza os canais de participação social e reconfigura o Estado como facilitador de negócios em detrimento da vida. O que se pretende com esse projeto não é melhorar a regulação — é remover o obstáculo jurídico que ainda impede o avanço irrestrito da acumulação capitalista nos territórios comuns.

    O medo, portanto, não é apenas o afeto fundante do Estado — é o modo de produção de sua legitimidade. Enquanto a política for mediada pelo medo, a vida continuará subordinada ao império da obediência. O PL 2159/21 é o sintoma disso: um Leviatã tropical, pintado de verde, que promete segurança às corporações enquanto desprotege a vida.

    Essa engenharia jurídica da destruição é embalada por discursos que prometem exatamente o oposto do que praticam. Sustentabilidade, modernização, celeridade: palavras que domesticam o horror com aparência de inovação. O PL 2159/21 não é exceção. Ele é expressão máxima de uma retórica verde que legitima a catástrofe. E é nesse terreno que atua o fetichismo revolucionário, onde o Estado, mesmo travestido de progresso, continua sendo o gestor do colapso.

    2. O Fetichismo Revolucionário

    O PL da Devastação é o retrato mais acabado desse fetichismo político: um Estado que promete “destravar o desenvolvimento sustentável” enquanto destrava a destruição. O discurso da sustentabilidade — reciclado em campanhas, relatórios e notas oficiais — converte-se em linguagem ritual de legitimação da catástrofe. O “verde” torna-se cosmético, a natureza é incorporada como ativo econômico, e o colapso ambiental é administrado como variável de mercado.

    Murray Bookchin (1971, p. 14) advertiu há meio século:

    “Toda organização que se estrutura como o sistema que quer derrubar termina por ser assimilada por ele.”

    É exatamente o que ocorre quando governos progressistas administram a devastação em nome da governabilidade. A máquina estatal se impõe como fetiche político — um ente que parece pairar acima da sociedade, como se fosse o único mediador possível entre economia e justiça, entre crescimento e preservação.
    O resultado é o que Bookchin chamará de fetichismo da administração: o hábito de confundir gestão com transformação, governabilidade com emancipação, estabilidade com justiça.

    Esse fenômeno tem raízes profundas na crítica marxiana. Karl Marx (1867) demonstrou que a mercadoria adquire “vida própria” quando os homens esquecem que foram eles mesmos que a criaram. É o fetichismo da mercadoria: o momento em que o produto da atividade humana se volta contra o próprio produtor e o domina.
    O Estado é o equivalente político desse processo. Ele se autonomiza, adquire aparência de sujeito e nos convence de que é ele quem garante a vida, quando, na verdade, ele é a forma institucionalizada de nossa dependência.

    O fetichismo do Estado — como o da mercadoria — consiste em atribuir ao artefato humano uma essência transcendente, como se o poder não tivesse origem social, mas divina. Assim, a dominação torna-se naturalizada, e a submissão, internalizada. Marx já intuía esse paradoxo em A Ideologia Alemã (1846): o Estado é “a forma pela qual os indivíduos de uma classe dominante afirmam seus interesses comuns”. O poder político, ao se autonomizar, deixa de aparecer como instrumento de classe e passa a se apresentar como mediador universal.

    Bookchin, em Post-Scarcity Anarchism (1971), atualiza essa crítica para o século XX: o Estado moderno, inclusive o chamado “Estado socialista”, é uma tecnologia social de controle, não um meio de libertação. “Seria um erro desastroso”, escreve ele, “lidar com uma economia de potencial abundância e produção cibernética a partir de uma posição teórica ainda enraizada na era do carvão.”
    O que o autor denuncia é a incapacidade da esquerda moderna de libertar-se da forma estatal. Em vez de questionar o poder, ela busca tomá-lo; em vez de inventar novas formas de convivência, ela repete as antigas com sinal trocado.

    É aqui que entra o conceito de fetichismo revolucionário — a crença de que tomar o poder equivale a transformar o mundo.
    O fetichismo revolucionário é a patologia política que substitui a emancipação pelo gerenciamento da dominação. Em nome da eficiência, reergue-se o mesmo edifício hierárquico, apenas pintado com novas cores.

    David Graeber (2013, p. 57) descreve com precisão essa armadilha:

    “A tragédia das revoluções modernas é que tentaram usar a imaginação burocrática do Estado para criar a liberdade.”

    Para Graeber, o Estado moderno é uma ficção social que transforma relações de cooperação em relações de comando. Ele sustenta sua autoridade ao monopolizar a imaginação política: faz crer que toda forma de ordem precisa ser hierárquica, e que toda mudança passa por ocupar o centro de poder. O que está em jogo, portanto, não é apenas uma estrutura, mas uma forma de pensamento.
    A burocracia, diz Graeber, é “a utopia do poder racionalizado”: uma crença de que a dominação pode ser eficiente, limpa, previsível. O PL da Devastação encarna essa utopia — o Estado promete racionalizar o licenciamento ambiental, mas o que realmente faz é racionalizar o colapso.

    O fetichismo revolucionário, nesse sentido, não é apenas uma falha da esquerda institucional. É uma doença civilizatória: a dificuldade de imaginar liberdade fora da forma estatal. A modernidade política naturalizou o Estado como horizonte único da razão — e toda utopia que tenta substituí-lo acaba reproduzindo-o.

    O mesmo fetichismo se manifesta em escala global na chamada “agricultura industrial”, que transforma o alimento em mercadoria e o solo em ativo financeiro. O relatório Factory Farming: The World’s Biggest Cause of Food Waste (Compassion in World Farming, 2025) revela que 766 milhões de toneladas de grãos comestíveis são desperdiçadas todos os anos ao serem desviadas para alimentar animais em fazendas industriais — quantidade suficiente para nutrir dois bilhões de pessoas. Trata-se de um retrato empírico do que Achille Mbembe (2011) chama de necropolítica e Aníbal Quijano (2000) de colonialidade do poder: a gestão da morte e da escassez em nome do lucro. A economia verde e o licenciamento “simplificado” compartilham essa mesma racionalidade necroprodutivista — uma tecnocracia global que administra o colapso enquanto promete sustentabilidade.
    Como observa Norberto Bobbio (1986, p. 54) em O Futuro da Democracia:

    “O poder sem controle se corrompe, e o poder absoluto, mesmo revolucionário, se autodestrói.”

    Bobbio diagnosticou, já no fim do século XX, que a esquerda transformara o ideal de emancipação em culto à eficiência institucional. A gestão tomou o lugar da política; o partido, o lugar do povo.
    Boaventura de Sousa Santos (2002) chama esse processo de “razão indolente”: a incapacidade da modernidade de aprender com as formas alternativas de racionalidade política — aquelas que emergem das margens, dos povos, das comunidades, da vida cotidiana.

    O fetichismo revolucionário, portanto, é o espelho invertido da colonialidade. Ambos são sustentados pela mesma crença: a de que o poder centralizado é condição da civilização. Enquanto o Estado continuar sendo visto como mediador universal, a política será apenas o teatro de sua manutenção.
    A esquerda “progressista” que defende o PL da Devastação em nome do “desenvolvimento sustentável” não rompe com o sistema — ela o legitima.

    A isso Bookchin (1995) opõe o princípio da pré-figuração: as formas da luta devem antecipar as formas da liberdade. Uma sociedade livre não pode nascer de estruturas autoritárias, da mesma forma que a ecologia não pode florescer dentro de instituições necropolíticas. “A organização que se estrutura à imagem do sistema que quer derrubar”, escreve ele, “acaba sendo assimilada por ele.”

    O PL da Devastação revela, assim, a ironia suprema do nosso tempo: a esquerda que queria democratizar o Estado termina administrando o colapso ecológico sob o nome de sustentabilidade.
    A revolução foi sequestrada pela razão burocrática; a política tornou-se contabilidade ambiental.
    O resultado é o fetichismo ecoverde — a crença de que é possível salvar a Terra sem transformar a forma política que a devasta.

    Em síntese, o Estado moderno é o fetiche supremo da modernidade: o artefato que promete ordem enquanto reproduz a dominação. O fetichismo revolucionário é a fé secular que o sustenta — a ilusão de que o poder pode ser redentor.

    3. O Estado como tecnologia de dominação

    O PL da Devastação não é apenas uma proposta de lei — é um sintoma estrutural da lógica que funda o Estado moderno. Ele revela, em sua gramática jurídica, aquilo que a modernidade política tenta ocultar: o Estado não é um instrumento neutro, tampouco um árbitro imparcial entre interesses sociais. Ele é, desde sua origem, uma tecnologia de dominação, um dispositivo de concentração do poder e de legitimação da coerção.

    Max Weber (1919) definiu o Estado como “a comunidade humana que reivindica, com êxito, o monopólio legítimo da violência”. Essa definição, muitas vezes citada como o retrato neutro da racionalidade política, carrega em si uma violência epistêmica: naturaliza a ideia de que a dominação é condição da convivência civil. O que Weber chama de “legitimidade” é, na verdade, o sucesso do poder em transformar coerção em consentimento. O PL da Devastação, ao institucionalizar o “silêncio positivo” — ou seja, a aprovação automática de licenças ambientais na ausência de manifestação dos órgãos fiscalizadores —, representa a tradução contemporânea desse monopólio da violência, agora revestido de burocracia técnica e neutralidade administrativa.

    A Nota Técnica do Observatório do Clima (2025) é explícita: o projeto restringe a manifestação da FUNAI e do INCRA apenas a territórios homologados ou titulados, deixando de fora as centenas de comunidades em processo de regularização. Também exclui da proteção as 26 categorias de povos e comunidades tradicionais reconhecidas pelo Decreto 6.040/2007. O que o texto normativo faz, sob o pretexto de “eficiência”, é suspender direitos originários e naturalizar a vulnerabilidade. A burocracia substitui a política; o cálculo técnico substitui o juízo ético.

    Trata-se, portanto, de uma forma de necropolítica ambiental — no sentido formulado por Achille Mbembe (2011): o poder de decidir quem deve viver e quem pode morrer. O PL não mata apenas corpos; mata territórios, rios, florestas, modos de vida e sistemas de conhecimento. Ele transforma a vida em variável regulatória, reduzindo o mundo à condição de recurso. O Estado assume, assim, o papel de gestor da morte ecológica, uma administração da finitude travestida de governança ambiental.

    Michel Foucault (1979) já havia diagnosticado essa mutação: o poder moderno não se exerce apenas pelo castigo, mas pela gestão diferencial da vida — aquilo que chamou de biopolítica. O que Mbembe faz é radicalizar essa análise: quando a biopolítica se converte em necropolítica, a gestão da vida se torna gestão da morte. O Estado brasileiro, ao flexibilizar o licenciamento e relativizar os instrumentos de proteção ambiental, faz exatamente isso: governa a morte sob o nome de eficiência.

    Boaventura de Sousa Santos (2007) descreve essa operação como uma “sociologia das ausências”. O Estado moderno não apenas governa — ele produz invisibilidades. O PL da Devastação transforma a omissão institucional em política de Estado, convertendo a ausência de resposta em autorização para o dano. O silêncio do poder é o ruído da destruição.
    Ao redefinir a inércia como eficiência, o Estado legitima a violência como racionalidade. É o que Aníbal Quijano (2000) chama de colonialidade do poder: o controle da economia, do saber e da subjetividade sob o disfarce da civilização.

    A colonialidade, em sua dimensão ecológica, traduz-se em um regime de propriedade e exploração que identifica a natureza como matéria-prima e os povos tradicionais como obstáculos. O PL, ao flexibilizar controles e silenciar vozes, reencena a conquista colonial no interior da república democrática.
    É o mesmo movimento descrito por Quijano: a “modernidade” como extensão do colonialismo; a “racionalidade” como tradução institucional da violência fundadora. O Estado moderno não rompeu com o colonialismo — ele o burocratizou.

    Nesse ponto, Mbembe (2011) é incisivo: “A soberania é o direito de matar.”
    No Brasil contemporâneo, esse direito é exercido não por fuzis, mas por pareceres, decretos e portarias. A necropolítica assume a forma de decisões administrativas que, ao restringirem a atuação de órgãos de controle e de participação social, determinam silenciosamente quais territórios serão devastados e quais povos serão sacrificados em nome do PIB.

    O fetiche da racionalidade estatal consiste em fazer crer que o cálculo técnico substitui o juízo moral. A economia assume o papel de nova teologia, e a destruição, de sacramento.
    Boaventura (2021) observa que o Estado capitalista, patriarcal e colonial se apresenta como império cognitivo: uma epistemologia do domínio que converte a desigualdade em dado natural e a injustiça em efeito colateral.
    A crença na neutralidade do Estado é o núcleo dessa religião política.

    No caso do PL da Devastação, essa fé se traduz no mantra do “desenvolvimento sustentável”. Mas, como observa Murray Bookchin (1995), “não há sustentabilidade possível dentro de uma lógica de dominação”. O que a ecologia social propõe é uma ruptura epistemológica: não se trata de administrar a natureza, mas de reintegrar sociedade e ecossistema num mesmo metabolismo ético. O que o Estado faz é o oposto — segmenta, hierarquiza, calcula, domestica.

    Assim, o PL 2159/21 não é um ponto fora da curva: é a curva do sistema. É a forma jurídica daquilo que Mbembe chamaria de “governança da morte”. A necropolítica contemporânea é tecnocrática, regulada por planilhas e pareceres.
    O Estado não dispara balas — dispara normas. E essas normas têm o mesmo efeito: aniquilam vidas, florestas, águas e saberes.

    A dominação moderna, portanto, é administrativa. É o poder que se oculta na rotina, na assinatura, no despacho. O Leviatã, agora, veste terno e planilha.
    O PL da Devastação é o símbolo máximo dessa mutação: a violência transformada em linguagem jurídica, o extermínio em ato administrativo, o colapso ecológico em ato de governo.

    Em suma, o Estado, longe de ser um instrumento de emancipação, é a máquina que converte medo em norma, obediência em virtude e morte em eficiência.
    A tecnocracia ambiental é o rosto sorridente da necropolítica — e o silêncio do licenciamento automático é o som do Leviatã respirando sob o verniz da legalidade.

    Isso não significa abdicar da disputa institucional enquanto o Leviatã ainda governa os corpos e os territórios. Pelo contrário: a resistência legal e a luta dentro do sistema devem ser compreendidas como táticas provisórias — trincheiras temporárias — de uma guerra ecológica que precisa ser vencida também fora dele. Como ensinam os movimentos socioambientais mais combativos, é possível litigar contra a devastação enquanto se planta agrofloresta, se faz rádio comunitária e se convoca assembleia popular.

    4. Nunca houve revolução: o poder tomou a esquerda

    “A desigualdade não nasceu da complexidade; nasceu da aceitação de formas hierárquicas de dominação.”
    (Graeber & Wengrow, 2021, p. 87)

    Não houve nenhuma revolução.
    O século XX inteiro pode ser lido como uma sucessão de promessas emancipatórias que terminaram reabsorvidas pela lógica do poder que pretendiam destruir. O PL da Devastação, em sua dimensão simbólica, é o epitáfio dessa história: o retrato de uma esquerda que, ao tomar o Estado, foi tomada por ele. Aquele que se propõe a administrar o Leviatã termina devorado por sua forma.

    A tragédia da modernidade política é que a revolução — esse acontecimento imaginado como ruptura — se converteu em continuação da dominação por outros meios.
    Karl Marx já advertira, em O Manifesto do Partido Comunista (1848), que o Estado é “o comitê executivo da burguesia”. Contudo, a esquerda marxista do século XX, ao tentar “tomar o poder”, manteve intacta a arquitetura hierárquica da dominação. Substituiu a burguesia pelo partido, o capital privado pela planificação central, o patronato pelo secretariado — e chamou isso de revolução.

    O problema, portanto, não foi a falta de coragem, mas o erro de forma.
    Como mostra Max Weber (1919), o Estado é o monopólio legítimo da violência; ele se estrutura na verticalidade, na obediência e na separação entre quem decide e quem obedece. Uma revolução que mantém essa forma mantém também o núcleo da dominação.
    David Graeber (2013) reforça: “as revoluções modernas tentaram usar a imaginação burocrática do Estado para criar a liberdade — e, por isso, fracassaram.”

    A imaginação burocrática é o verdadeiro inimigo da emancipação.
    Ela transforma o poder em um fim em si mesmo e reduz a política à técnica de governo.
    O PL da Devastação é o produto acabado dessa imaginação: nasce da crença de que a liberdade pode ser administrada por decreto, que a vida pode ser quantificada em relatórios de impacto ambiental, e que a justiça pode ser mensurada em prazos processuais.
    A política desaparece, substituída pela gestão — e o que resta é apenas governabilidade sobre ruínas.

    Murray Bookchin, em From Urbanization to Cities (1995), capturou essa patologia em uma frase definitiva:

    “A verdadeira questão não é organização versus não-organização, mas que tipo de organização.”

    O que ele denuncia é o fetichismo organizacional — a crença de que toda mudança exige um aparato, um partido, uma central, um comando. Mas as formas hierárquicas de organização produzem, inevitavelmente, os mesmos efeitos que pretendiam abolir.
    Toda estrutura vertical gera obediência; toda obediência cria burocracia; toda burocracia, por fim, converte a revolução em rotina.

    É essa lei da reprodução do poder que explica o paradoxo histórico: as revoluções terminam restaurando a ordem que diziam destruir.
    O Estado soviético, nascido da insurreição de 1917, manteve intacta a centralização e a verticalidade do czarismo — apenas mudou de bandeira.
    O mesmo padrão se repete na América Latina: as revoluções “progressistas” assumem o poder prometendo redistribuição, mas logo se veem reféns da governabilidade fiscal e do capital internacional.
    A dominação muda de roupa, mas não de estrutura.

    No Brasil, o PL da Devastação é a prova contemporânea dessa armadilha: um governo eleito com base em uma agenda ecológica e democrática sanciona, em nome da “modernização”, um projeto que desmonta as salvaguardas ambientais e ataca os direitos dos povos originários.
    O Leviatã não foi superado — foi incorporado.
    A esquerda chega ao poder, mas o poder não chega à esquerda.
    A administração pública, com sua lógica tecnocrática, captura o ideal político e o transforma em fetiche da governabilidade.

    Bookchin chamará isso de “morte da imaginação política”.
    Enquanto a política for pensada apenas em termos de governo, jamais haverá emancipação. A verdadeira revolução, diz ele, deve ser pré-figurativa: suas formas de organização precisam antecipar o mundo que desejam construir.

    “Uma organização libertária deve encarnar, desde já, os valores da sociedade livre que pretende criar.” (Bookchin, 1982)

    Isso significa que a revolução não é um ato futuro, mas um processo ético presente.
    Ela não se mede pela tomada de poder, mas pela criação de novas relações sociais — horizontais, cooperativas, autogestionárias.
    É o que Graeber (2004) chamou de “revolução convivencial”: não a derrubada violenta das instituições, mas o surgimento de formas de vida que tornam o poder obsoleto.

    A verdadeira transformação não está em conquistar o Estado, mas em torná-lo supérfluo.
    Enquanto o poder for concebido como algo a ser tomado, ele continuará nos tomando.
    A dominação não sobrevive por imposição, mas por reprodução.
    E o maior triunfo do Leviatã é ter ensinado seus filhos a desejarem governá-lo.

    No caso do PL da Devastação, essa lógica se manifesta no fetichismo ecoverde: a crença de que é possível administrar o colapso ecológico com instrumentos do próprio sistema que o produz.
    A esquerda, em vez de reinventar a política, torna-se a gestora da catástrofe.
    O que deveria ser revolução vira regulamentação.
    O que deveria ser emancipação torna-se mitigação.

    Como diria Boaventura de Sousa Santos (2018), é a “emancipação regulada” — a domesticação da utopia pelos instrumentos do império cognitivo.
    A luta social é convertida em planilha de governança, e a imaginação política, em manual de compliance.

    Por isso, nunca houve revolução — houve apenas mudanças de comando dentro da mesma máquina.
    O Estado não é uma solução política: é a institucionalização da dominação.
    Tomá-lo é perpetuar sua forma.
    A revolução verdadeira, como afirma Bookchin, não é o assalto ao poder, mas a sua dissolução no comum:

    “A organização que se estrutura à imagem do sistema que quer derrubar acaba sendo assimilada por ele.” (Bookchin, 1971)

    Em síntese, a esquerda moderna confundiu emancipação com governabilidade.
    Tomou o poder, mas foi tomada por ele.
    O desafio histórico, agora, é outro: não tomar o Estado, mas superá-lo — substituir a administração pela comunalidade, a hierarquia pela cooperação, o progresso pela convivência.

    O poder não liberta.
    E o Estado, mesmo quando pintado de verde, continua sendo o Leviatã.

    O que está em jogo aqui não é uma negação romântica da institucionalidade, mas a recusa da verticalização autoritária que caracteriza a modernidade política. O comunalismo que propomos não é isolamento — é interdependência sem tutela. Ele pode dialogar com a institucionalidade, desde que o faça desde as margens, com voz própria, sem perder sua radicalidade ética.

    5. O epistemicídio dos saberes das margens: os invisíveis do licenciamento

    “A epistemologia da dor é potência criadora.”
    Manifesto Palafitas, 2025

    O PL da Devastação é mais do que uma política ambiental desastrosa.
    Ele é o retrato do colonialismo burocrático — a velha lógica do Estado moderno travestida de modernização normativa.
    Sob o pretexto de “agilizar” o licenciamento ambiental, o projeto reafirma a matriz colonial da lei: o direito de decidir quem é visível, quem é sujeito e quem é descartável.

    Os vetos presidenciais ao PL 2159/21 corrigiram apenas o escândalo mais explícito — o trecho que restringia a obrigatoriedade de manifestação da FUNAI e do INCRA às Terras Indígenas (TIs) homologadas e aos Territórios Quilombolas (TQs) titulados.
    O novo texto do PL 3.834/2025, embora amplie marginalmente o escopo, incluindo TIs com RCID (Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação) e TQs com certidão da Fundação Palmares, segue limitado.
    A maioria das terras indígenas e quilombolas no Brasil ainda não possui esses documentos, e, portanto, continua invisível.

    Em outras palavras: o direito à consulta e à manifestação técnica segue condicionado à burocracia que o próprio Estado retarda.
    É o mesmo colonialismo — agora com papel timbrado.

    O Observatório do Clima (2025) foi categórico: há 26 segmentos de Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) reconhecidos pelo Decreto 6.040/2007 — ribeirinhos, extrativistas, quebradeiras de coco, ciganos, faxinalenses, povos de terreiro, entre outros — todos ignorados pela nova lei.
    Esses povos não vivem em mapas fundiários, mas em territórios simbólicos, espirituais e afetivos, construídos em rede, nas margens e nas águas.
    Mas o Estado moderno, como advertiu Aníbal Quijano (2000), só reconhece o que pode medir, cercar e certificar.

    O resultado é um paradoxo cruel: o direito à terra é negado pela ausência de documentos que o próprio Estado impede de existir.
    É o colonialismo burocrático em sua forma mais pura — negar o território pela falta do papel e negar o papel pela falta do território.

    5.1 Impactos diretos, indiretos e o direito de existir

    A nova lei exige apenas a análise dos impactos diretos sobre TIs e TQs formalizadas.
    Mas os danos mais profundos são indiretos e difusos: o assoreamento dos rios, a perda da fauna, o ruído das máquinas, o veneno que desce pela água e adoece as aldeias.
    Como ensina Achille Mbembe (2011), a necropolítica é a “morte lenta” — aquela que não fuzila, mas sufoca; que não assassina de imediato, mas nega as condições de vida.

    Ao excluir os impactos indiretos, o Estado legaliza a cegueira e perpetua essa morte silenciosa.
    O licenciamento, que deveria proteger, converte-se em instrumento de legitimação da destruição.

    Essa omissão sistemática é a expressão daquilo que Boaventura de Sousa Santos (2007) denominou sociologia das ausências: o poder de transformar a inexistência em categoria administrativa.
    Os povos tradicionais deixam de existir não porque desapareceram, mas porque o Estado decidiu não vê-los.

    5.2 O silêncio como método

    A exclusão das comunidades é acompanhada de outro mecanismo perverso: o “silêncio positivo”.
    Se FUNAI, INCRA ou outro órgão não se manifestarem dentro de prazos irrealistas, o processo segue automaticamente.
    O silêncio do Estado vale como aprovação.
    É a inversão completa do princípio da precaução — a omissão se torna método, a pressa vira norma e o silêncio ganha carimbo.

    O PL da Devastação transforma a surdez institucional em política pública.
    É a consagração da cegueira burocrática como ferramenta de gestão.
    Como já apontava Michel Foucault (1979), o poder moderno não precisa mais punir: basta normalizar.
    A omissão é uma forma de comando.

    Epistemicídio e necropolítica: o duplo extermínio

    O epistemicídio é o fundamento da necropolítica.
    Como ensinou Sueli Carneiro (2005), o dispositivo de racialidade opera como um filtro epistemológico: define quem pode produzir saber e quem será reduzido à condição de objeto.
    A destruição ambiental e o silenciamento epistêmico são, portanto, faces de uma mesma violência: a que transforma povos em ruídos e territórios em zonas de sacrifício.

    Walter Mignolo (2018) chama isso de geopolítica do conhecimento: a imposição de uma única racionalidade — a do Ocidente — sobre todas as outras formas de pensar o mundo.
    E o PL 2159/21 é sua versão tropical: o licenciamento “simplificado” é o nome tecnocrático da exclusão ontológica.
    A racionalidade estatal traduz a complexidade da vida em categorias de controle.
    O resultado é o epistemicídio institucionalizado — a anulação das epistemologias da floresta, do rio, do terreiro, do quilombo, da palafita.

    Uma ecologia da escuta

    O Projeto Palafitas nasce exatamente desse lugar — das margens esquecidas pelo licenciamento e pela política pública.
    Seu gesto inaugural é simples e revolucionário: escutar.
    Escutar é reconhecer que há saberes que não cabem no papel timbrado, que o território é também espiritual, relacional e comunitário.
    É romper com o monopólio epistêmico do Estado e restaurar o direito de existir.

    Como lembra Boaventura de Sousa Santos (2018), “não há sustentabilidade sem justiça cognitiva.”
    E justiça cognitiva significa devolver voz e autoridade epistêmica aos povos que sustentam o planeta vivo.
    É o que Murray Bookchin (1982) propôs em outro registro: a reintegração ética da sociedade e da natureza.
    A ecologia social de Bookchin e a epistemologia do Sul de Boaventura convergem aqui: a emancipação exige o reencontro entre conhecimento, território e vida.

    O comunalismo decolonial que emerge do Palafitas é, portanto, uma proposta de reconstrução política e cognitiva:

    • Assembleias populares no lugar de gabinetes;
    • Escuta comunitária no lugar de pareceres técnicos;
    • Territórios vivos no lugar de mapas cartoriais;
    • Saber como prática de liberdade, não como instrumento de controle.

    Conclusão: quando o Estado chama de silêncio o que é recusa de escutar

    Enquanto o licenciamento seguir atrelado à lógica fundiária e ao fetiche do documento, o Brasil seguirá negando o direito de existir a quem sustenta o planeta vivo.
    A Amazônia não será salva em conferências, mas na escuta das comunidades que nela habitam.

    “A floresta não fala português, mas grita nas vozes de seus povos.
    E o que o Estado chama de silêncio é, na verdade, a recusa de escutar.”
    Manifesto Palafitas, 2025

    6. Epílogo — A praça de volta ao comando: o retorno da política ao comum

    Em 21 de setembro de 2025, o Brasil voltou às ruas.
    De norte a sul, em todas as 27 capitais, multidões se reuniram para protestar contra a PEC da Blindagem — proposta que restringe a investigação e prisão de parlamentares, transformando a impunidade em cláusula constitucional.
    A Avenida Paulista, em São Paulo, e Copacabana, no Rio de Janeiro, concentraram cerca de 42 mil pessoas cada, segundo o Monitor do Debate Político da USP e o Cebrap, em dados repercutidos pelo Metrópoles (2025).
    Outras capitais, como Recife, Salvador, Belo Horizonte, Brasília e Manaus, repetiram a cena: praças lotadas, vozes múltiplas, e um mesmo grito — não à blindagem do poder, sim à democracia viva.

    Essas manifestações não foram um “evento”, mas uma revelação política: o povo brasileiro redescobriu que a democracia não cabe no Estado, e que a praça continua sendo seu verdadeiro parlamento.
    Enquanto o Congresso tentava se blindar do controle social, o povo reocupava os espaços públicos para reafirmar a soberania da comunidade sobre a máquina do poder.
    Foi o anticorpo da praça reagindo à doença do Leviatã.

    6.1 A filosofia política de Murray Bookchin (1982) antecipa esse gesto coletivo:

    “A verdadeira política nasce quando as pessoas se reúnem para deliberar sobre sua própria vida.”

    O que vimos nas ruas foi isso: a reaparição da política como encontro, não como representação.
    Enquanto o Estado se burocratiza em gabinetes, a política ressurge no corpo das pessoas, nos tambores, nas vozes, nas assembleias improvisadas, nos cartazes artesanais.
    O comunalismo libertário que Bookchin propôs — e que o Palafitas traduz em chave decolonial — estava ali, em sua forma mais pura: a comunidade pensando por si mesma.

    6.2 Da crítica à proposta: uma ecologia social a partir das margens

    O Palafitas – Saberes a partir das Margens nasce da constatação de que o Estado moderno é estruturalmente incapaz de representar o comum.
    A blindagem parlamentar e o PL da Devastação são expressões complementares da mesma patologia: a verticalização do poder e a despolitização da vida.
    Ambos transformam o medo em norma — o medo da liberdade, da desordem, da escuta.

    A resposta não está em reformar o Leviatã, mas em reconfigurar a política desde as margens, onde a vida resiste apesar do Estado.
    Inspirado na ecologia social de Bookchin (1995) e na epistemologia do Sul de Boaventura de Sousa Santos (2018), este epílogo propõe um conjunto de diretrizes práticas para refundar a política como comunalidade:

    1. Licenciamento com consentimento comunitário (FPIC local):
      Nenhuma obra ou empreendimento deve prosseguir sem consulta prévia, livre e informada, inclusive a territórios ainda não titulados — como prevê a Convenção 169 da OIT.
      O direito de existir não pode depender da burocracia que o Estado sabota.
    2. Conselhos de Licenciamento Comunitário (CLC):
      Criação de conselhos com maioria de representantes das comunidades impactadas, dotados de poder deliberativo e de veto.
      São as assembleias da floresta e do quilombo exercendo soberania sobre o próprio território.
    3. Orçamento ecológico participativo:
      Reorientar recursos públicos segundo decisões tomadas em assembleias locais, priorizando saneamento, agroecologia, energia limpa e soberania alimentar.
      É o municipalismo libertário transformado em método de governo.
    4. Monitoramento ambiental popular e dados abertos:
      Brigadas comunitárias de vigilância ambiental, com tecnologia acessível e controle social permanente sobre licenças e empreendimentos.
      A transparência é o antídoto contra o silêncio institucional.
    5. Zonas de Proteção Sociocultural (ZPS):
      Reconhecimento automático de proteção a todas as Terras Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais — em qualquer fase de regularização.
      O território é vivo antes de ser cartório.
    6. Educação territorial e rádios comunitárias:
      Criação de rádios locais e mídias populares para democratizar a informação ambiental, divulgar consultas públicas e fortalecer a escuta intercultural.
      Escutar é também um ato político.
    7. Fim do “silêncio positivo”:
      Nenhum parecer omitido deve ser interpretado como aprovação.
      A ausência de resposta é motivo de suspensão imediata do processo.
      O silêncio não é neutro — é a forma mais eficiente de necropolítica.

    6.3 A praça como laboratório do comum

    As manifestações de 2025 provaram que o povo não precisa de tutela para deliberar.
    A rua é o espaço natural da decisão democrática — o laboratório da nova política.
    É ali que se realiza o princípio da pré-figuração, segundo Bookchin: a forma da luta já contém a forma da liberdade.

    “Seria um erro desastroso lidar com uma economia de potencial abundância e produção cibernética a partir de uma posição teórica ainda enraizada na era do carvão.”
    Bookchin, 1971, p. 23

    Esse erro se repete quando insistimos em buscar justiça social dentro das estruturas que a negam.
    A praça, ao contrário, antecipa o mundo que queremos: descentralizado, ético, ecológico e solidário.
    O comunalismo decolonial que propomos não é utopia — é método:
    assembleias populares, conselhos abertos, protocolos comunitários e redes confederadas de bairros, aldeias e quilombos.

    A democracia não será salva por reformas, mas por reconstruções.
    E essas reconstruções começam onde o Estado termina: nas margens, nos territórios, nas praças.

    6.4 Conclusão — Do Leviatã à escuta

    O PL da Devastação é a codificação jurídica da surdez estatal.
    Mas as praças de 21 de setembro provaram que a escuta ainda é possível.
    Entre a blindagem e a assembleia, o Brasil escolheu a praça — e com ela, o futuro.

    O Palafitas é o nome dessa escolha:
    um projeto que nasce das águas turvas, das vozes abafadas e dos corpos precarizados,
    mas que insiste em construir uma ponte de madeira sobre o abismo da modernidade.
    Uma ponte feita de escuta, comunhão e coragem.

    O que vimos nas ruas é o prenúncio da verdadeira revolução:
    a que não toma o poder, mas o dissolve.
    Porque, no fim, a política não é o governo dos homens — é o cuidado das vidas.

    A floresta não fala português, mas grita nas vozes dos que resistem. Contra o colapso com carimbo oficial, seguimos plantando a desobediência — não como recusa, mas como refundação do mundo.

    Referências

    BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. São Paulo: Paz e Terra, 1986.

    BOOKCHIN, Murray. Post-Scarcity Anarchism. Montreal: Black Rose Books, 1971.

    BOOKCHIN, Murray. From Urbanization to Cities: Toward a New Politics of Citizenship. London: Cassell, 1995.

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  • Aula 7: Feminismos Decoloniais: Epistemologias e Práticas (Silvia Rivera Cusicanqui e Angela Davis)

    Introdução: Descolonizando o Saber e a Ação

    Continuando nossa jornada pelos feminismos decoloniais, esta aula se aprofundará nas contribuições de Silvia Rivera Cusicanqui e Angela Davis. Ambas as pensadoras oferecem perspectivas cruciais para a descolonização do saber e da ação, desafiando as lógicas eurocêntricas e patriarcais que moldam nossa compreensão do mundo e das lutas por justiça. Exploraremos o conceito de ch’ixi de Cusicanqui como uma epistemologia da coexistência e a análise interseccional de Davis, que integra raça, classe e gênero na luta contra o sistema prisional e por uma libertação mais ampla.

    Silvia Rivera Cusicanqui: Ch’ixi, Colonialidade do Poder e Feminismo Comunitário

    Silvia Rivera Cusicanqui, socióloga e ativista Aymara da Bolívia, é uma figura central no pensamento decolonial latino-americano. Sua obra se destaca pela crítica à colonialidade do poder a partir de uma perspectiva indígena e pela proposição de novas formas de pensar e agir que transcendem as dicotomias ocidentais. O conceito de ch’ixi é uma de suas contribuições mais originais e poderosas.

    “O ch’ixi é a coexistência de opostos sem fusão, como o cinza que resulta da mistura de preto e branco, mas onde ambos os elementos permanecem visíveis. É uma forma de desobediência epistemológica à lógica binária ocidental.” [Rivera Cusicanqui, Silvia. Ch’ixinakax utxiwa: Una reflexión sobre prácticas y discursos descolonizadores. 2010.]

    O ch’ixi não é uma síntese, mas uma forma de coexistência e interpenetração de elementos diversos – o colonial e o indígena, o passado e o presente – que mantêm suas identidades distintas. Para Cusicanqui, essa é uma chave para entender a identidade indígena e a descolonização, que não busca a anulação de um polo pelo outro, mas a articulação de uma realidade complexa e plural. Essa perspectiva desafia a colonialidade do poder ao propor uma epistemologia que valoriza a multiplicidade e a coexistência, em vez da homogeneização imposta pelo projeto colonial.

    Seu trabalho também se alinha com o feminismo comunitário, que enfatiza a importância da comunidade, do território e das práticas ancestrais na luta contra o patriarcado e o colonialismo. A desobediência, nesse contexto, é uma forma de resistência ativa contra as estruturas de poder opressoras, enraizada nas tradições e saberes dos povos indígenas. Cusicanqui critica o academicismo ocidental e a produção de conhecimento que reproduz a colonialidade, defendendo uma ecologia de saberes que valorize as epistemologias do Sul e as experiências dos povos subalternizados.

    Angela Davis: Interseccionalidade, Abolicionismo Prisional e Feminismo Negro

    Angela Davis, filósofa, ativista e teórica feminista negra estadunidense, é uma das vozes mais influentes na crítica interseccional e no movimento abolicionista prisional. Sua obra, especialmente Mulheres, Raça e Classe, demonstra como as opressões de raça, classe e gênero são inseparáveis e devem ser combatidas simultaneamente.

    “A interseccionalidade é a compreensão de que raça, classe e gênero não são categorias isoladas, mas se entrelaçam e se informam mutuamente, criando experiências de opressão únicas para diferentes grupos.” [Davis, Angela. Mulheres, Raça e Classe. 1981.]

    Davis argumenta que o feminismo negro surge como uma resposta às falhas do feminismo branco hegemônico em reconhecer e abordar as especificidades das lutas das mulheres negras, que enfrentam opressões raciais e de classe além das de gênero. Ela critica a hierarquização das opressões, insistindo que não se pode priorizar uma categoria sobre as outras, pois todas estão interligadas na experiência de opressão.

    Uma das contribuições mais significativas de Davis é sua defesa do abolicionismo prisional. Ela argumenta que o sistema prisional é uma instituição inerentemente racista e classista, que perpetua a opressão e o controle social, especialmente sobre populações negras e marginalizadas. Para Davis, a prisão não é uma solução para a criminalidade, mas uma forma de gerenciar as desigualdades sociais e raciais, e sua abolição é um passo necessário para a construção de uma sociedade justa e livre. Ela propõe a busca por alternativas à punição e ao encarceramento, focando em soluções comunitárias e restaurativas para a segurança e a justiça social.

    Conexões para uma Ecologia da Liberdade

    As perspectivas de Cusicanqui e Davis convergem na necessidade de descolonizar tanto o pensamento quanto as práticas de resistência. A epistemologia ch’ixi de Cusicanqui oferece uma forma de pensar a complexidade das identidades e das lutas, enquanto a interseccionalidade de Davis revela a teia de opressões que precisam ser desmanteladas. Ambas as autoras nos convidam a:

    • Valorizar os Saberes Subalternizados: Reconhecer e integrar as epistemologias dos povos indígenas e das mulheres negras como fontes legítimas de conhecimento e de resistência.
    • Construir Alianças Interseccionais: Entender que a luta por uma Ecologia da Liberdade exige a articulação de diferentes movimentos sociais – ambientalistas, feministas, antirracistas, anticapitalistas – que reconheçam a interconexão de suas causas.
    • Desafiar as Estruturas de Poder: Questionar não apenas os sintomas da crise, mas as estruturas profundas de dominação (colonialidade, patriarcado, capitalismo, sistema prisional) que a sustentam.
    • Praticar a Desobediência e a Autonomia: Inspirar-se nas formas de resistência e autogestão comunitária para construir alternativas concretas a partir da base.

    Conclusão: Rumo a uma Transformação Radical

    Esta aula demonstrou como as contribuições de Silvia Rivera Cusicanqui e Angela Davis são indispensáveis para a construção de um projeto de Ecologia da Liberdade verdadeiramente decolonial e emancipatório. Ao nos fornecerem ferramentas para descolonizar o saber e a ação, elas nos impulsionam a imaginar e construir um futuro onde a coexistência, a justiça interseccional e a abolição das estruturas de opressão sejam a norma. A próxima aula aprofundará a análise da justiça social e do capitalismo, com as contribuições de Nancy Fraser, explorando as dimensões da redistribuição, reconhecimento e representação.

  • A Falácia do Capitalismo Verde: Uma Crítica à Ideologia da Sustentabilidade na Era do Colapso

    A Falácia do Capitalismo Verde: Uma Crítica à Ideologia da Sustentabilidade na Era do Colapso

    Autor: Fabio Borjas Rosim Braga

    DOI 10.5281/zenodo.17617673.

    Coordenador do Centro de Estudos e 

    Editor Responsável da Revista Palafitas – Saberes a partir das margens

    REVISTA PALAFITAS ISSN 3086-2892

    Fediverso (Mastodon): https://hub.palafitas.org/@palafitas

    https://orcid.org/0009-0008-7496-575X

    Email: editor@palafitas.org

    Resumo 

    Este artigo analisa a impossibilidade estrutural de um “capitalismo verde”, argumentando que iniciativas como ESG não configuram uma transformação do sistema, mas sim uma estratégia de legitimação que reforça suas contradições internas. Fundamentado em uma constelação teórica crítica, o estudo demonstra que a destrutividade ambiental do capitalismo não deriva de falhas contingentes, mas de sua própria lógica de acumulação, marcada historicamente pelo Raubbau — a pilhagem predatória que exaure pessoas, territórios e ecossistemas. A análise articula a teoria do sistema-mundo de Immanuel Wallerstein e a colonialidade do poder de Aníbal Quijano para evidenciar a matriz geopolítica e racial da extração. Em seguida, mobiliza os conceitos de zona do não-ser (Fanon) e necropolítica (Mbembe) para mostrar como a administração diferencial da morte sustenta essa arquitetura. Por fim, a noção de capitalismo canibal (Fraser) explicita o mecanismo pelo qual o sistema devora as condições que possibilitam sua própria existência. Conclui-se que a crise climática constitui a expressão final da racionalidade necropolítica do capital, que, após séculos de devastação de corpos racializados, volta-se agora à exaustão irreversível da Terra, convertida na última fronteira da zona do não-ser. Assim, o capitalismo verde revela-se não como solução, mas como a fase mais avançada do colapso sistêmico.

    Palavras-chave: Capitalismo verde; Raubbau; Sistema-mundo; Colonialidade do poder; Zona do não-ser; Necropolítica; Capitalismo canibal; Crise climática; ESG; Wallerstein; Quijano; Fanon; Mbembe; Fraser; Marx.

    Introdução: A Mistificação Verde

    A pergunta “existe capitalismo bom?” assombra o debate público em uma era marcada pela convergência de crises — climática, social, energética e sanitária. Diante desse colapso múltiplo, o próprio sistema capitalista, em sua notável capacidade de reinvenção discursiva, apresenta sua resposta preferida: a promessa de um capitalismo reformado, consciente, “verde”. Sob a sigla ESG (Ambiental, Social e Governança), um novo consenso se consolidou nos fóruns econômicos globais, oferecendo a sedutora ideia de que seria possível compatibilizar lucros crescentes com preservação ambiental.

    Este artigo se coloca em oposição frontal a essa narrativa. Sustentamos que o “capitalismo verde” constitui a fase mais recente de uma longa tradição de mistificações ideológicas que buscam ocultar o caráter intrinsecamente predatório do sistema. Longe de corrigir suas contradições, a agenda ESG as aprofunda. A destruição ambiental não é uma falha corrigível do capitalismo, mas sua condição de existência — aquilo que Marx identificou como Raubbau, o padrão sistêmico de pilhagem e exaustão das bases materiais da vida.

    Para demonstrar isso, mobilizamos uma tríade teórica crítica. A teoria do sistema-mundo de Immanuel Wallerstein revela que a acumulação capitalista depende estruturalmente da extração desigual de riqueza nas zonas periféricas. A colonialidade do poder, formulada por Aníbal Quijano, mostra que essa extração é historicamente organizada por classificações raciais que autorizam a exploração ilimitada de territórios e corpos não europeus. Por sua vez, a análise do capitalismo canibal de Nancy Fraser evidencia que o capital só funciona devorando suas próprias condições de possibilidade — a natureza, o trabalho reprodutivo e o poder público — convertendo tudo em recursos gratuitos ou baratos.

    Ao integrar essas três perspectivas, demonstramos que o capitalismo verde não é uma correção do sistema, mas um aperfeiçoamento de sua lógica de pilhagem: uma tentativa de produzir novos mercados a partir da própria devastação que o sistema criou. A promessa de um “capitalismo bom para todos” revela-se, portanto, não apenas ilusória, mas impossível em termos estruturais, pois exige que o capital abandone exatamente aquilo que o define: sua vocação histórica para o Raubbau — a pilhagem infinita de um planeta finito.

    Capítulo 1: A Arquitetura da Pilhagem: O Sistema-Mundo e a Colonialidade do Poder

    A narrativa hegemônica do desenvolvimento capitalista se sustenta na ideia de uma “escada” universal, acessível a qualquer nação que adote as regras do livre mercado. Essa teleologia evolucionista estrutura uma visão segundo a qual todas as sociedades percorreriam trajetórias similares rumo ao progresso, reproduzindo o mito de uma modernidade homogênea e neutra. Tal pressuposto, porém, desaba diante da análise histórico-estrutural desenvolvida por Immanuel Wallerstein, para quem a unidade de análise pertinente não é o Estado-nação, mas o sistema-mundo moderno, constituído como “uma zona espácio-temporal que atravessa múltiplos Estados e unidades culturais […] regida por um conjunto coerente de regras sistêmicas” (WALLERSTEIN, 2001, p. 455).

    Desde o século XVI, o sistema-mundo capitalista organiza-se por meio de uma divisão tripartite — centro, semiperiferia e periferia — cuja funcionalidade é manter a assimetria estrutural de fluxos materiais, energéticos e financeiros. Conforme destaca Wallerstein (1974), a acumulação de capital nas zonas centrais depende da apropriação sistemática do excedente produzido nas zonas periféricas, estabelecendo uma relação estrutural de transferência desigual. Desse diagnóstico decorre uma implicação teórica decisiva: não existe mobilidade ascendente estrutural no interior do sistema-mundo. Em termos rigorosos, nunca houve um país “subdesenvolvido” que tenha se tornado “desenvolvido” dentro das regras da economia-mundo capitalista, assim como nenhuma potência central foi previamente periférica. O desenvolvimento, portanto, não é um destino universal: é uma posição relacional de comando, alcançada e mantida pela captura contínua de trabalho, território e natureza alheios.

    A sustentação histórica dessa arquitetura assimétrica dependeu de um fundamento epistêmico-político específico: a colonialidade do poder. Como argumenta Aníbal Quijano (2005), a modernidade capitalista é ininteligível sem a invenção da categoria de “raça”, um dispositivo classificatório que organizou o mundo de forma hierárquica desde a conquista das Américas. Para o autor, “a América se constituiu como o primeiro espaço/tempo de um novo padrão de poder de vocação mundial” (QUIJANO, 2005, p. 117), estruturado na:

    “[…] classificação da população mundial segundo a ideia de raça, uma construção mental que expressa a experiência básica da dominação colonial e que, desde então, permeia as dimensões mais importantes do poder mundial, incluindo sua racionalidade específica, o eurocentrismo.” (QUIJANO, 2005, p. 117).

    Assim, a distinção centro–periferia elaborada por Wallerstein não é primariamente geoeconômica, mas racializada. A hierarquia global não resulta apenas de vantagens competitivas acumuladas, mas da naturalização de formas de exploração que se apoiam na desumanização de povos indígenas, populações negras e outros grupos racializados. A colonialidade do poder fornece a gramática ontológica que legitima a expropriação e a violência constitutivas do sistema-mundo.

    Nesse ponto, torna-se produtivo mobilizar o conceito de Raubbau, formulado inicialmente por Justus von Liebig e incorporado por Karl Marx como categoria crítica para descrever a lógica de exaustão predatória própria do capitalismo. Em Marx, Raubbau designa o padrão de exploração que esgota não apenas o trabalhador, mas também a terra e todos os fundamentos metabólicos da vida, produzindo uma ruptura irreversível no metabolismo sociedade–natureza. A pilhagem ecológica não é um evento colateral do capital, mas sua forma típica de operação: o capital vive da extração ampliada e da degradação acelerada de tudo que encontra — trabalho, natureza, corpos, territórios e mundos.

    Quando articulado ao esquema centro–periferia de Wallerstein, o conceito de Raubbau revela sua potência heurística. A periferia global deve ser compreendida como a zona estrutural da pilhagem, onde a exaustão de corpos e ecossistemas é condição para a prosperidade das zonas centrais. Isso explica por que a devastação ambiental não se distribui de forma homogênea: ela é espacializada, racializada e historicamente planejada. A pilhagem ecológica — devastação florestal, mineração predatória, agroextrativismo intensivo e destruição de modos de vida — segue a mesma lógica da pilhagem colonial descrita por Quijano: ambas são manifestações de uma matriz de poder global fundada na classificação racial do mundo.

    Assim, o capitalismo não sobrevive apesar da miséria periférica, mas precisamente por meio dela. A produção da pobreza, da exaustão ambiental e da destruição de territórios é funcional ao sistema-mundo, e não um desvio patológico. A divisão centro–periferia é, simultaneamente:

    • uma arquitetura geoeconômica (Wallerstein),
    • uma gramática racial e epistêmica (Quijano),
    • e uma tecnologia de extração ecossistêmica baseada na lógica do Raubbau (Marx).

    Essa integração permite afirmar, com precisão teórica, que a estrutura global do capitalismo repousa sobre um regime histórico de pilhagem ampliada — de territórios, saberes, vidas humanas e da própria base material da existência. A colonialidade do poder não apenas legitima essa pilhagem: ela define seus alvos, suas geografias e seus limites aceitáveis de destruição. O resultado é um sistema-mundo que organiza a morte, a exaustão e a devastação como condições de sua própria reprodução.

    Capítulo 2: O Canibalismo como Engenharia Global

    Se Wallerstein fornece a cartografia estrutural da exploração e Quijano revela seu fundamento racial, Nancy Fraser oferece a chave para compreender a lógica interna que sustenta e reproduz o sistema-mundo capitalista. Em Capitalismo Canibal, a autora argumenta que a economia “oficial”, isto é, a esfera visível e monetizada das relações mercantis, depende estruturalmente da extração contínua de três condições de fundo definidas como “não-econômicas”: a natureza, a reprodução social e o poder público (FRASER, 2023). Essas esferas são tratadas pelo capital como reservas inesgotáveis de riqueza “gratuita” ou “barata”, constituindo o que Fraser denomina de “apetite voraz por insumos não pagos” (FRASER, 2023, p. 25). Assim, o capitalismo não cria riqueza; ele a devora.

    A articulação entre Wallerstein, Quijano e Fraser revela uma convergência teórica rara e poderosa. A arquitetura da economia-mundo, tal como descrita por Wallerstein (1974), define onde essa devoração ocorre: nas zonas periféricas racializadas, historicamente constituídas como espaços de saque e esvaziamento. A colonialidade do poder, formulada por Quijano (2005), define quem pode ser devorado: populações classificadas como inferiores e, portanto, passíveis de exploração ilimitada. A noção de capitalismo canibal, por sua vez, define como o sistema opera: mediante a extração sistemática de valor de tudo que permanece fora da esfera formal do mercado. Somadas, essas três perspectivas revelam o capitalismo como um regime global de pilhagem contínua.

    O conceito marxiano de Raubbau — a pilhagem predatória que exaure a própria base material da vida — oferece um eixo analítico adicional. Se o Capítulo 1 demonstrou que o sistema-mundo depende da extração desigual de valor, e que essa desigualdade é legitimada pela colonialidade, este capítulo explicita que o capitalismo, para funcionar, precisa consumir incessantemente seus fundamentos: o trabalho vivo, os ecossistemas e os corpos racializados. O Raubbau torna-se, assim, a operação metabólica concreta do capitalismo canibal: a exaustão acelerada daquilo que não pode ser reposto.

    É nesse contexto que as contribuições de Frantz Fanon e Achille Mbembe tornam-se cruciais. A periferia que Wallerstein denomina como locus da expropriação estrutural coincide com aquilo que Fanon (2008) identifica como zona do não-ser: um espaço social e ontológico no qual a humanidade dos sujeitos é sistematicamente negada. A zona do não-ser não é metafórica; ela é a espacialização da colonialidade. É ali que o capitalismo encontra sua matéria-prima humana e ecológica para alimentar o processo de acumulação. O que Fraser denomina de “riqueza gratuita” coincide com aquilo que Fanon descreve como vidas reduzidas à pura função material — corpos e territórios tornados recursos.

    Achille Mbembe (2018), ao desenvolver o conceito de necropolítica, aprofunda essa análise ao demonstrar que, nas zonas subordinadas do sistema-mundo, o exercício da soberania se dá primordialmente sob a forma de administração da morte. O poder não se limita a gerir a vida; ele decide quais vidas serão expostas à morte, à degradação, à pobreza extrema ou ao desaparecimento. A necropolítica é, portanto, a racionalidade operacional do capitalismo canibal: a gestão diferencial da morte como instrumento de acumulação.

    Essa racionalidade não é abstração teórica. Ela se materializa historicamente na escravidão atlântica, no genocídio de povos indígenas, nas políticas coloniais de ocupação territorial e nas formas contemporâneas de violência racializada. Os corpos negros e indígenas foram designados, pela colonialidade do poder, como habitantes primários da zona do não-ser — corpos passíveis de extração ilimitada, violência permanente e descarte sistemático. A sobrevivência desses povos, apesar de quatro séculos de escravidão e de genocídio contínuo, constitui um ato de resistência extraordinária contra um sistema cujo funcionamento pressupôs sua eliminação.

    O neoliberalismo radicaliza e globaliza essa mesma lógica. Se durante a modernidade o alvo central da necropolítica foram corpos racializados, na contemporaneidade o planeta Terra torna-se o último corpo da zona do não-ser. A natureza passa a ser tratada como o fundamento final da pilhagem, o reservatório derradeiro da riqueza gratuita. Enquanto seres humanos historicamente resistiram à eliminação física, a natureza, regida por leis físicas e não pela resiliência moral, não dispõe do mesmo campo de resistência. A necropolítica que falhou em exterminar povos racializados encontra pleno êxito na destruição ecossistêmica. O colapso climático e a devastação ambiental não são anomalias, mas indicadores de que a máquina canibal atingiu seus limites materiais.

    Dessa forma, o capitalismo não apenas consome corpos e territórios; ele consome o próprio planeta. A exaustão dos ecossistemas — aquecimento global, desertificação, colapso da biodiversidade — constitui a expressão mais avançada da lógica necropolítica. O capitalismo canibal, ao devorar a natureza como última fronteira da zona do não-ser, revela seu caráter autodestrutivo. A crise climática, nesse sentido, é a manifestação final do Raubbau global: a materialização de um sistema que destrói suas próprias condições de reprodução.

    Capítulo 3: A Contradição Fatal: Um Sistema-Mundo em um Planeta Finito

    A acumulação capitalista opera segundo uma lógica expansiva estrutural. Conforme Marx já apontara, o capital necessita, para sua própria reprodução, converter todo limite material em oportunidade de valorização; sua dinâmica só se sustenta mediante a expansão contínua da fronteira de exploração. Trata-se de um sistema cuja racionalidade interna é quantitativa e ilimitada, orientada pela maximização do valor de troca e pela produção incessante de mais-valia. Essa lógica abstrata colide, inevitavelmente, com a finitude concreta das condições biofísicas que sustentam a vida no planeta. Em termos simples, porém estruturalmente decisivos: enquanto a natureza possui limites ontológicos, o capital não possui limites operacionais.

    Durante cinco séculos, o sistema-mundo conseguiu administrar essa contradição por meio da expansão de sua fronteira extrativa. Esse conceito, historicamente possibilitado pela colonialidade do poder (QUIJANO, 2005), refere-se ao movimento contínuo de deslocamento geográfico da pilhagem. Quando um território, uma população ou um ecossistema era exaurido, o capital avançava para outro. A escravização de africanos, a ocupação violenta das Américas, a devastação de florestas tropicais, o extrativismo mineral e a expansão do agronegócio monocultor expressam essa dinâmica contínua de avanço para novas fontes de “riqueza gratuita”, conforme formulado por Fraser (2023). Essa fronteira, além de espacial, sempre foi racial: o deslocamento da pilhagem acompanhou, pari passu, a classificação racial do mundo.

    O problema estrutural contemporâneo é que essa fronteira chegou ao limite material de sua própria possibilidade. O colapso climático — aquecimento global, acidificação dos oceanos, eventos extremos, perda acelerada de biodiversidade — evidencia que o planeta inteiro passou a integrar a zona de sacrifício, categoria anteriormente restrita à periferia racializada (FANON, 2008; MBEMBE, 2018). O que antes era uma contradição administrável mediante expansão geográfica torna-se uma contradição fatal, pois o capital esgota agora a própria base ecológica sobre a qual se sustenta. O Raubbau, antes circunscrito a regiões específicas, torna-se universal.

    A desestabilização do sistema climático marca, portanto, o esgotamento do mecanismo histórico que permitiu ao capitalismo neutralizar seus próprios limites: a capacidade de deslocar a destruição para fora do campo de visão do centro. Como observa Wallerstein (2001), o centro sempre se fortaleceu justamente ao externalizar custos ambientais e sociais para a periferia. Contudo, na atual conjuntura, o planeta inteiro — atmosfera, oceanos, florestas, ciclos hídricos — converte-se em palco das consequências desse processo. Não há mais “fora” para onde deslocar a pilhagem; o mundo tornou-se simultaneamente único e finito.

    É nesse momento de colapso estrutural que emerge a ideologia do capitalismo verde como narrativa dominante. Mecanismos como créditos de carbono, offsets florestais, neutralidade climática corporativa e fundos ESG surgem como tentativas de reconfigurar a crise ambiental em nova oportunidade de acumulação. Trata-se de uma estratégia de recodificação mercantil da catástrofe: transformar a destruição ecológica em ativo financeiro. Em vez de enfrentar a raiz estrutural do problema — a lógica de expansão infinita da produção capitalista — o capitalismo verde a reproduz sob novos termos, convertendo a própria devastação em fronteira de valorização.

    Esse processo implica uma intensificação das desigualdades estruturais do sistema-mundo. A mercantilização da crise climática transfere, mais uma vez, os custos da transição ecológica para a periferia global. Territórios indígenas, florestas tropicais e ecossistemas do Sul Global tornam-se o locus privilegiado de captura de carbono, privatização de bens comuns e imposição de arranjos de governança ambiental controlados por atores transnacionais. O discurso de “salvar o planeta” é instrumentalizado para reforçar a divisão centro–periferia, sob o pretexto de responsabilidade ambiental. Em termos wallersteinianos, o capitalismo verde reorganiza, mas não rompe, a estrutura hierárquica do sistema-mundo.

    O que se denomina capitalismo verde constitui, assim, uma mistificação dupla. Primeiro, porque oculta o fato de que a crise climática é a expressão final do Raubbau global — a exaustão metabólica produzida pela lógica de acumulação (MARX, 2013). Segundo, porque atribui ao mercado a capacidade de resolver um problema cuja origem está precisamente na expansão ilimitada das relações mercantis. Em vez de solucionar a contradição entre um sistema infinito e um planeta finito, o capitalismo verde a aprofunda ao transformar a catástrofe em ativo e ao deslocar seus custos para os corpos e territórios historicamente designados como descartáveis pela colonialidade.

    Portanto, o capitalismo enfrenta agora sua contradição fatal: a impossibilidade de compatibilizar expansão infinita com um planeta limitado. Ao atingir os limites biofísicos da Terra, o sistema encontra não um obstáculo externo, mas o resultado inevitável da racionalidade que o sustenta. A crise climática não é um desafio ao capitalismo; é o seu produto lógico. Por isso, nenhuma reforma — verde, sustentável ou inclusiva — pode solucionar a crise ecológica sem confrontar a própria lógica de acumulação que a produz. Trata-se de uma contradição que não admite conciliação: ou o capitalismo se mantém e o planeta colapsa, ou a vida é colocada no centro e o capitalismo deixa de existir.

    Conclusão — A Impossibilidade da Reforma em um Sistema Necropolítico

    Retomando a questão que orientou este artigo — “existe capitalismo bom?” — torna-se evidente, ao final da análise, que a própria formulação da pergunta incorre em um erro de categoria. Tal pergunta presume que a violência estrutural, a devastação ecológica e a hierarquização racial produzidas pelo capitalismo são falhas contingentes, suscetíveis de correção interna. No entanto, as evidências teóricas apresentadas ao longo dos capítulos demonstram que essas dimensões não constituem anomalias do sistema, mas sua própria lógica operacional. O capitalismo não funciona apesar da destruição: ele funciona por meio dela.

    O sistema-mundo descrito por Wallerstein somente se mantém pela existência de uma periferia estrutural, destinada à extração sistemática de excedente econômico, ecológico e humano. Essa periferia não é fruto do acaso, mas da colonialidade do poder definida por Quijano, que instituiu a classificação racial como princípio organizador da modernidade. É essa classificação que permite designar determinados corpos, territórios e modos de vida como inferiores e, portanto, disponíveis para exploração e sacrifício. A economia-mundo só pode existir porque existe uma engenharia política e epistêmica que legitima sua violência.

    Essa engenharia global assume diferentes modalidades: a zona do não-ser (FANON, 2008), na qual a humanidade dos sujeitos é sistematicamente negada; a necropolítica (MBEMBE, 2018), que administra a morte como instrumento de governo; e o capitalismo canibal (FRASER, 2023), que devora continuamente sua própria base social, ecológica e institucional. Todas essas formulações convergem para demonstrar que o capitalismo é um sistema cujo vetor fundamental é o Raubbau — a pilhagem predatória que exaure pessoas, ecossistemas, territórios e relações sociais, consumindo exatamente aquilo que possibilita sua existência.

    Diante desse quadro, a proposta de um “capitalismo verde” emerge como a mais recente forma de mistificação ideológica. Longe de constituir uma solução, a agenda ESG representa a fase mais avançada da racionalidade necropolítica: a necropolítica verde. Trata-se da tentativa de reorganizar o colapso planetário como oportunidade de mercado, criando novas fronteiras de acumulação a partir da devastação ambiental. Sob o discurso da sustentabilidade, perpetuam-se as mesmas hierarquias raciais e geopolíticas do sistema-mundo: a periferia é novamente convocada a assumir o ônus da crise global, agora sob a promessa de uma transição ecológica que nunca se realiza.

    A ideia de reforma ambiental do capitalismo, portanto, revela-se não apenas insuficiente, mas contraditória em si. Não é possível reformar um sistema cuja reprodução depende justamente da degradação contínua das condições que sustentam a vida. O colapso climático expõe essa contradição fatal: ao transformar o planeta inteiro em zona de sacrifício, o capitalismo alcança o limite material de sua lógica expansiva. O sistema que historicamente sobreviveu deslocando a destruição para a periferia encontra-se, agora, diante da impossibilidade absoluta de externalizar seus custos. A crise ecológica não é um problema a ser administrado pelo capitalismo; é a demonstração de que o capitalismo é o problema.

    Diante disso, a superação da crise climática não pode assumir a forma de uma reforma interna ao sistema. Não se reforma uma máquina cujo motor é a morte. A tarefa contemporânea é mais radical: desmantelar a engrenagem necropolítica e a colonialidade que lhe dá sustentação, reconstruindo a ordem social e ecológica a partir de outro princípio ontológico — a centralidade inegociável da vida. Esse é o horizonte político que se abre e que, neste trabalho, nomeamos Contrato Decolonial: um marco ético e institucional que rompe com a economia-mundo capitalista e inaugura uma racionalidade fundada na reprodução ampliada da vida, não na sua exaustão.

    Referências

    FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008. Edição original de 1952.

    FRASER, Nancy. Capitalismo canibal. São Paulo: Boitempo, 2023.

    MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.

    MARX, Karl. Elementos fundamentais para a crítica da economia política (Grundrisse) – 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011.

    MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.

    MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

    MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

    QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 107-130.

    WALLERSTEIN, Immanuel. The modern world-system I: capitalist agriculture and the origins of the European world-economy in the sixteenth century. New York: Academic Press, 1974.

    WALLERSTEIN, Immanuel. Para abrir as ciências sociais. Lisboa: Publicações Europa-América, 2001.

  • Aula 6: Feminismos Decoloniais: Raça, Gênero e Território (Sueli Carneiro e Rita Segato)

    Introdução: Para Além do Feminismo Universal – A Pluralidade das Lutas

    As aulas anteriores nos guiaram por uma análise das raízes sistêmicas da crise ecológica e social, explorando as lógicas do capitalismo, da colonialidade e da necropolítica. Agora, esta aula se aprofundará nas contribuições dos feminismos decoloniais, que desafiam a universalidade de um feminismo hegemônico e eurocêntrico, evidenciando como as opressões de raça, gênero e classe se entrelaçam de maneiras complexas e específicas. Focaremos nas pensadoras Sueli Carneiro e Rita Segato, que nos oferecem ferramentas para compreender a colonialidade do gênero, a violência contra o corpo-território e a importância da desobediência como forma de resistência.

    Sueli Carneiro: Feminismo Negro, Interseccionalidade e Colonialidade do Gênero

    Sueli Carneiro, filósofa e ativista brasileira, é uma das vozes mais importantes do feminismo negro no Brasil. Sua obra destaca a necessidade de uma análise interseccional das opressões, argumentando que as experiências de mulheres negras não podem ser compreendidas apenas pela categoria de gênero, mas devem considerar a simultaneidade e a interconexão com as categorias de raça e classe. Carneiro critica o feminismo hegemônico por sua incapacidade de reconhecer e abordar as especificidades das lutas das mulheres negras, que enfrentam formas de opressão distintas e cumulativas.

    “O feminismo negro se constitui como uma crítica radical ao feminismo hegemônico, que não deu conta de incorporar a experiência das mulheres negras, e ao movimento negro, que não deu conta de incorporar a questão de gênero.” [Carneiro, Sueli. Ennegrecer o feminismo: a performance e a política da corporeidade. 2005.]

    Os principais pontos de sua contribuição incluem:

    • Interseccionalidade: Sueli Carneiro enfatiza que raça, gênero e classe não são categorias isoladas, mas se entrelaçam e se informam mutuamente, criando experiências de opressão únicas. Para as mulheres negras, a opressão de gênero é inseparável da opressão racial e de classe, exigindo uma abordagem que considere essa complexidade.
    • Colonialidade do Gênero: A partir da perspectiva decolonial, Carneiro mostra como as estruturas coloniais impuseram e reforçaram hierarquias de gênero, desvalorizando o feminino e, em particular, o corpo e a subjetividade das mulheres negras. A colonialidade do gênero se manifesta na imposição de um modelo binário e patriarcal que subalterniza as mulheres, especialmente as não-brancas.
    • Crítica ao Feminismo Hegemônico: Ela aponta as falhas do feminismo branco em reconhecer e abordar as especificidades das lutas das mulheres negras, que enfrentam opressões raciais e de classe além das de gênero. O feminismo negro, portanto, surge como uma resposta a essa lacuna, buscando dar visibilidade e centralidade às experiências e demandas das mulheres negras.
    • Epistemologias Negras: Carneiro defende a valorização das epistemologias negras, dos saberes e das experiências das mulheres negras como fontes legítimas de conhecimento e de resistência, desafiando a hegemonia do pensamento eurocêntrico.

    Rita Segato: Feminicídio, Colonialidade do Gênero e a Pedagogia da Crueldade

    Rita Segato, antropóloga e feminista argentina, oferece uma análise profunda da violência de gênero, especialmente o feminicídio, como uma manifestação da colonialidade do poder e do gênero. Ela argumenta que o corpo feminino se torna um território de disputa e inscrição de poder, e que a violência contra as mulheres não é um fenômeno isolado, mas parte de uma estrutura maior de dominação.

    “O feminicídio é um crime de segundo estado, onde o Estado, por omissão ou conivência, permite a perpetuação da violência contra as mulheres, servindo para demarcar o poder de grupos masculinos sobre o território e os corpos das mulheres.” [Segato, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. 2016.]

    Os conceitos chave de Segato incluem:

    • Feminicídio como Crime de Segundo Estado: Segato argumenta que os feminicídios não são crimes passionais isolados, mas crimes que revelam a falha do Estado em proteger as mulheres. Eles servem para demarcar o poder de grupos masculinos sobre o território e os corpos das mulheres, funcionando como uma mensagem de controle e intimidação.
    • Colonialidade do Gênero: Assim como Carneiro, Segato expande o conceito de colonialidade para incluir o gênero, mostrando como as estruturas coloniais impuseram e reforçaram hierarquias de gênero, desvalorizando o feminino e tornando os corpos das mulheres vulneráveis à violência. Essa colonialidade se manifesta na imposição de um modelo binário e patriarcal.
    • Pedagogia da Crueldade: Segato cunha o termo “pedagogia da crueldade” para descrever como a violência extrema contra as mulheres serve como uma forma de comunicação e demonstração de poder, ensinando à sociedade sobre os limites e as punições para a desobediência às normas patriarcais. Essa crueldade é um espetáculo que busca reafirmar a ordem patriarcal e colonial.
    • Corpo-Território e Desobediência: O corpo feminino é compreendido como um território, e a violência contra ele é uma forma de controle territorial. A defesa do corpo é, portanto, uma defesa do território e da autonomia. A resistência à violência e à colonialidade do gênero passa pela afirmação da dignidade dos corpos e pela desobediência às normas impostas, especialmente por parte das mulheres indígenas e negras.

    Conexões com a Ecologia da Liberdade

    As contribuições de Sueli Carneiro e Rita Segato são fundamentais para a construção de uma “Ecologia da Liberdade” decolonial. Elas revelam como a dominação de gênero e raça está intrinsecamente ligada à dominação da natureza e à exploração capitalista. A luta pela dignidade dos corpos e pela desobediência às normas opressoras é uma forma de resistência que se conecta diretamente com a defesa dos territórios e dos ecossistemas. A compreensão da colonialidade do gênero e da necropolítica que atua sobre os corpos femininos e racializados é essencial para desmantelar as estruturas de poder que geram a crise ecológica e social.

    Conclusão: Rumo a um Feminismo Plural e Emancipatório

    Esta aula nos permitiu aprofundar a compreensão dos feminismos decoloniais, reconhecendo a pluralidade das lutas e a complexidade das opressões. As análises de Sueli Carneiro e Rita Segato nos mostram que a libertação não pode ser universal, mas deve partir das experiências e demandas específicas dos grupos marginalizados. A defesa do corpo-território, a crítica à colonialidade do gênero e a pedagogia da crueldade são conceitos poderosos para enfrentar as formas mais brutais de dominação. Na próxima aula, continuaremos a explorar os feminismos decoloniais, com as contribuições de Silvia Rivera Cusicanqui e Angela Davis, focando nas epistemologias e práticas de resistência.