📌 DOI do artigo: https://doi.org/10.5281/zenodo.17541693
Revista Palafitas – ISSN 3086-2892
Editor Fábio Borjas Rosim Braga
Entretanto, esse avanço é apenas parcial. Mais de 70% das emissões brasileiras continuam vindo da mudança no uso da terra e da agropecuária — setores profundamente interligados. Estudos recentes demonstram que 97% da derrubada de vegetação nativa nos últimos cinco anos foi causada pela expansão agropecuária, sobretudo pela pecuária bovina. Se considerada isoladamente, a produção de carne bovina no Brasil tornaria o país o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do planeta (Zimbres et al., 2024; Xu et al., 2021).
No semiárido, a desertificação avança a um ritmo de 750 mil hectares por ano, comprometendo a agricultura familiar e a soberania alimentar regional (CEMADEN/INPE; Zimbres et al., 2024). Paralelamente, a Amazônia já apresenta áreas que emitem mais carbono do que absorvem. O chamado ponto de não retorno do bioma, estimado entre 20% e 25% de desmatamento, está perigosamente próximo — e o Brasil já ultrapassou a marca de 20% (Gatti et al., 2021; Nobre et al.).
Nas cidades costeiras, os impactos também são alarmantes. Projeções da Climate Central (2024) indicam que mais de 2 milhões de brasileiros poderão ser afetados pela elevação do nível do mar até o fim do século, com graves consequências para capitais vulneráveis como Rio de Janeiro, Fortaleza e Salvador.
Apesar de seu potencial para liderar uma transição energética justa e baseada em fontes renováveis, o Brasil permanece aquém do necessário. A meta nacional de redução de emissões foi classificada como “altamente insuficiente” pelo Climate Action Tracker, após revisões que reduziram a ambição climática. A meta atual prevê cortar entre 59% e 67% das emissões até 2035 — ainda distante do esforço exigido pelo Acordo de Paris para conter o aquecimento global em 1,5°C (Climate Action Tracker, 2024; SEEG, 2023).
É igualmente fundamental denunciar os mecanismos financeiros que mercantilizam a natureza — como o recém-anunciado Fundo de Financiamento para Florestas Tropicais — que não oferecem soluções reais. Diversas análises alertam para a ausência de controle social efetivo sobre esses fundos, frequentemente capturados por interesses do capital financeiro em detrimento da autonomia dos povos tradicionais. Sem participação direta, não há justiça ambiental. A defesa das florestas passa, necessariamente, pela valorização dos modos de vida que historicamente as preservam (Brasil de Fato, 2025).
A COP 30 é um marco histórico e uma oportunidade única para o Brasil assumir responsabilidade e coragem. É hora de firmar um pacto pela vida — que reconheça direitos territoriais, respeite saberes ancestrais, valorize territórios populares e promova mudanças estruturais no modelo produtivo que nos empurra ao colapso.
As soluções que o mundo precisa já existem. Estão nos quintais agroecológicos, nas aldeias, nos quilombos, nas palafitas. Elas vêm das mãos de quem cuida da terra, da água e do tempo com afeto e sabedoria. Reafirmamos, a partir de Palafitas – Saberes a partir das Margens, que a regeneração do planeta começa por reconhecer, proteger e fortalecer esses modos de vida.
Porque não se trata apenas de carbono — trata-se de vidas.
E as palafitas, longe de serem ruínas, são sementes.
De onde o mundo desviava o olhar, pode emergir o caminho.
Fontes consultadas
- SEEG – Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Observatório do Clima, 2023).
- Climate Action Tracker. Country Assessments: Brazil, 2024.
- Climate Central. Mapping Choices: Carbon, Climate, and Rising Seas, 2024.
- GATTI, L. V. et al. Amazonia as a carbon source linked to deforestation and climate change. Nature, 2021.
- ZIMBRES, B. Q. et al. Drivers of deforestation and forest degradation in Brazil. Biological Conservation, 2024.