REVISTA PALAFITAS – Saberes a partir das margens

A Falácia do Capitalismo Verde: Uma Crítica à Ideologia da Sustentabilidade na Era do Colapso

Autor: Fabio Borjas Rosim Braga

DOI 10.5281/zenodo.17617673.

Coordenador do Centro de Estudos e 

Editor Responsável da Revista Palafitas – Saberes a partir das margens

REVISTA PALAFITAS ISSN 3086-2892

Fediverso (Mastodon): https://hub.palafitas.org/@palafitas

https://orcid.org/0009-0008-7496-575X

Email: editor@palafitas.org

Resumo 

Este artigo analisa a impossibilidade estrutural de um “capitalismo verde”, argumentando que iniciativas como ESG não configuram uma transformação do sistema, mas sim uma estratégia de legitimação que reforça suas contradições internas. Fundamentado em uma constelação teórica crítica, o estudo demonstra que a destrutividade ambiental do capitalismo não deriva de falhas contingentes, mas de sua própria lógica de acumulação, marcada historicamente pelo Raubbau — a pilhagem predatória que exaure pessoas, territórios e ecossistemas. A análise articula a teoria do sistema-mundo de Immanuel Wallerstein e a colonialidade do poder de Aníbal Quijano para evidenciar a matriz geopolítica e racial da extração. Em seguida, mobiliza os conceitos de zona do não-ser (Fanon) e necropolítica (Mbembe) para mostrar como a administração diferencial da morte sustenta essa arquitetura. Por fim, a noção de capitalismo canibal (Fraser) explicita o mecanismo pelo qual o sistema devora as condições que possibilitam sua própria existência. Conclui-se que a crise climática constitui a expressão final da racionalidade necropolítica do capital, que, após séculos de devastação de corpos racializados, volta-se agora à exaustão irreversível da Terra, convertida na última fronteira da zona do não-ser. Assim, o capitalismo verde revela-se não como solução, mas como a fase mais avançada do colapso sistêmico.

Palavras-chave: Capitalismo verde; Raubbau; Sistema-mundo; Colonialidade do poder; Zona do não-ser; Necropolítica; Capitalismo canibal; Crise climática; ESG; Wallerstein; Quijano; Fanon; Mbembe; Fraser; Marx.

Introdução: A Mistificação Verde

A pergunta “existe capitalismo bom?” assombra o debate público em uma era marcada pela convergência de crises — climática, social, energética e sanitária. Diante desse colapso múltiplo, o próprio sistema capitalista, em sua notável capacidade de reinvenção discursiva, apresenta sua resposta preferida: a promessa de um capitalismo reformado, consciente, “verde”. Sob a sigla ESG (Ambiental, Social e Governança), um novo consenso se consolidou nos fóruns econômicos globais, oferecendo a sedutora ideia de que seria possível compatibilizar lucros crescentes com preservação ambiental.

Este artigo se coloca em oposição frontal a essa narrativa. Sustentamos que o “capitalismo verde” constitui a fase mais recente de uma longa tradição de mistificações ideológicas que buscam ocultar o caráter intrinsecamente predatório do sistema. Longe de corrigir suas contradições, a agenda ESG as aprofunda. A destruição ambiental não é uma falha corrigível do capitalismo, mas sua condição de existência — aquilo que Marx identificou como Raubbau, o padrão sistêmico de pilhagem e exaustão das bases materiais da vida.

Para demonstrar isso, mobilizamos uma tríade teórica crítica. A teoria do sistema-mundo de Immanuel Wallerstein revela que a acumulação capitalista depende estruturalmente da extração desigual de riqueza nas zonas periféricas. A colonialidade do poder, formulada por Aníbal Quijano, mostra que essa extração é historicamente organizada por classificações raciais que autorizam a exploração ilimitada de territórios e corpos não europeus. Por sua vez, a análise do capitalismo canibal de Nancy Fraser evidencia que o capital só funciona devorando suas próprias condições de possibilidade — a natureza, o trabalho reprodutivo e o poder público — convertendo tudo em recursos gratuitos ou baratos.

Ao integrar essas três perspectivas, demonstramos que o capitalismo verde não é uma correção do sistema, mas um aperfeiçoamento de sua lógica de pilhagem: uma tentativa de produzir novos mercados a partir da própria devastação que o sistema criou. A promessa de um “capitalismo bom para todos” revela-se, portanto, não apenas ilusória, mas impossível em termos estruturais, pois exige que o capital abandone exatamente aquilo que o define: sua vocação histórica para o Raubbau — a pilhagem infinita de um planeta finito.

Capítulo 1: A Arquitetura da Pilhagem: O Sistema-Mundo e a Colonialidade do Poder

A narrativa hegemônica do desenvolvimento capitalista se sustenta na ideia de uma “escada” universal, acessível a qualquer nação que adote as regras do livre mercado. Essa teleologia evolucionista estrutura uma visão segundo a qual todas as sociedades percorreriam trajetórias similares rumo ao progresso, reproduzindo o mito de uma modernidade homogênea e neutra. Tal pressuposto, porém, desaba diante da análise histórico-estrutural desenvolvida por Immanuel Wallerstein, para quem a unidade de análise pertinente não é o Estado-nação, mas o sistema-mundo moderno, constituído como “uma zona espácio-temporal que atravessa múltiplos Estados e unidades culturais […] regida por um conjunto coerente de regras sistêmicas” (WALLERSTEIN, 2001, p. 455).

Desde o século XVI, o sistema-mundo capitalista organiza-se por meio de uma divisão tripartite — centro, semiperiferia e periferia — cuja funcionalidade é manter a assimetria estrutural de fluxos materiais, energéticos e financeiros. Conforme destaca Wallerstein (1974), a acumulação de capital nas zonas centrais depende da apropriação sistemática do excedente produzido nas zonas periféricas, estabelecendo uma relação estrutural de transferência desigual. Desse diagnóstico decorre uma implicação teórica decisiva: não existe mobilidade ascendente estrutural no interior do sistema-mundo. Em termos rigorosos, nunca houve um país “subdesenvolvido” que tenha se tornado “desenvolvido” dentro das regras da economia-mundo capitalista, assim como nenhuma potência central foi previamente periférica. O desenvolvimento, portanto, não é um destino universal: é uma posição relacional de comando, alcançada e mantida pela captura contínua de trabalho, território e natureza alheios.

A sustentação histórica dessa arquitetura assimétrica dependeu de um fundamento epistêmico-político específico: a colonialidade do poder. Como argumenta Aníbal Quijano (2005), a modernidade capitalista é ininteligível sem a invenção da categoria de “raça”, um dispositivo classificatório que organizou o mundo de forma hierárquica desde a conquista das Américas. Para o autor, “a América se constituiu como o primeiro espaço/tempo de um novo padrão de poder de vocação mundial” (QUIJANO, 2005, p. 117), estruturado na:

“[…] classificação da população mundial segundo a ideia de raça, uma construção mental que expressa a experiência básica da dominação colonial e que, desde então, permeia as dimensões mais importantes do poder mundial, incluindo sua racionalidade específica, o eurocentrismo.” (QUIJANO, 2005, p. 117).

Assim, a distinção centro–periferia elaborada por Wallerstein não é primariamente geoeconômica, mas racializada. A hierarquia global não resulta apenas de vantagens competitivas acumuladas, mas da naturalização de formas de exploração que se apoiam na desumanização de povos indígenas, populações negras e outros grupos racializados. A colonialidade do poder fornece a gramática ontológica que legitima a expropriação e a violência constitutivas do sistema-mundo.

Nesse ponto, torna-se produtivo mobilizar o conceito de Raubbau, formulado inicialmente por Justus von Liebig e incorporado por Karl Marx como categoria crítica para descrever a lógica de exaustão predatória própria do capitalismo. Em Marx, Raubbau designa o padrão de exploração que esgota não apenas o trabalhador, mas também a terra e todos os fundamentos metabólicos da vida, produzindo uma ruptura irreversível no metabolismo sociedade–natureza. A pilhagem ecológica não é um evento colateral do capital, mas sua forma típica de operação: o capital vive da extração ampliada e da degradação acelerada de tudo que encontra — trabalho, natureza, corpos, territórios e mundos.

Quando articulado ao esquema centro–periferia de Wallerstein, o conceito de Raubbau revela sua potência heurística. A periferia global deve ser compreendida como a zona estrutural da pilhagem, onde a exaustão de corpos e ecossistemas é condição para a prosperidade das zonas centrais. Isso explica por que a devastação ambiental não se distribui de forma homogênea: ela é espacializada, racializada e historicamente planejada. A pilhagem ecológica — devastação florestal, mineração predatória, agroextrativismo intensivo e destruição de modos de vida — segue a mesma lógica da pilhagem colonial descrita por Quijano: ambas são manifestações de uma matriz de poder global fundada na classificação racial do mundo.

Assim, o capitalismo não sobrevive apesar da miséria periférica, mas precisamente por meio dela. A produção da pobreza, da exaustão ambiental e da destruição de territórios é funcional ao sistema-mundo, e não um desvio patológico. A divisão centro–periferia é, simultaneamente:

  • uma arquitetura geoeconômica (Wallerstein),
  • uma gramática racial e epistêmica (Quijano),
  • e uma tecnologia de extração ecossistêmica baseada na lógica do Raubbau (Marx).

Essa integração permite afirmar, com precisão teórica, que a estrutura global do capitalismo repousa sobre um regime histórico de pilhagem ampliada — de territórios, saberes, vidas humanas e da própria base material da existência. A colonialidade do poder não apenas legitima essa pilhagem: ela define seus alvos, suas geografias e seus limites aceitáveis de destruição. O resultado é um sistema-mundo que organiza a morte, a exaustão e a devastação como condições de sua própria reprodução.

Capítulo 2: O Canibalismo como Engenharia Global

Se Wallerstein fornece a cartografia estrutural da exploração e Quijano revela seu fundamento racial, Nancy Fraser oferece a chave para compreender a lógica interna que sustenta e reproduz o sistema-mundo capitalista. Em Capitalismo Canibal, a autora argumenta que a economia “oficial”, isto é, a esfera visível e monetizada das relações mercantis, depende estruturalmente da extração contínua de três condições de fundo definidas como “não-econômicas”: a natureza, a reprodução social e o poder público (FRASER, 2023). Essas esferas são tratadas pelo capital como reservas inesgotáveis de riqueza “gratuita” ou “barata”, constituindo o que Fraser denomina de “apetite voraz por insumos não pagos” (FRASER, 2023, p. 25). Assim, o capitalismo não cria riqueza; ele a devora.

A articulação entre Wallerstein, Quijano e Fraser revela uma convergência teórica rara e poderosa. A arquitetura da economia-mundo, tal como descrita por Wallerstein (1974), define onde essa devoração ocorre: nas zonas periféricas racializadas, historicamente constituídas como espaços de saque e esvaziamento. A colonialidade do poder, formulada por Quijano (2005), define quem pode ser devorado: populações classificadas como inferiores e, portanto, passíveis de exploração ilimitada. A noção de capitalismo canibal, por sua vez, define como o sistema opera: mediante a extração sistemática de valor de tudo que permanece fora da esfera formal do mercado. Somadas, essas três perspectivas revelam o capitalismo como um regime global de pilhagem contínua.

O conceito marxiano de Raubbau — a pilhagem predatória que exaure a própria base material da vida — oferece um eixo analítico adicional. Se o Capítulo 1 demonstrou que o sistema-mundo depende da extração desigual de valor, e que essa desigualdade é legitimada pela colonialidade, este capítulo explicita que o capitalismo, para funcionar, precisa consumir incessantemente seus fundamentos: o trabalho vivo, os ecossistemas e os corpos racializados. O Raubbau torna-se, assim, a operação metabólica concreta do capitalismo canibal: a exaustão acelerada daquilo que não pode ser reposto.

É nesse contexto que as contribuições de Frantz Fanon e Achille Mbembe tornam-se cruciais. A periferia que Wallerstein denomina como locus da expropriação estrutural coincide com aquilo que Fanon (2008) identifica como zona do não-ser: um espaço social e ontológico no qual a humanidade dos sujeitos é sistematicamente negada. A zona do não-ser não é metafórica; ela é a espacialização da colonialidade. É ali que o capitalismo encontra sua matéria-prima humana e ecológica para alimentar o processo de acumulação. O que Fraser denomina de “riqueza gratuita” coincide com aquilo que Fanon descreve como vidas reduzidas à pura função material — corpos e territórios tornados recursos.

Achille Mbembe (2018), ao desenvolver o conceito de necropolítica, aprofunda essa análise ao demonstrar que, nas zonas subordinadas do sistema-mundo, o exercício da soberania se dá primordialmente sob a forma de administração da morte. O poder não se limita a gerir a vida; ele decide quais vidas serão expostas à morte, à degradação, à pobreza extrema ou ao desaparecimento. A necropolítica é, portanto, a racionalidade operacional do capitalismo canibal: a gestão diferencial da morte como instrumento de acumulação.

Essa racionalidade não é abstração teórica. Ela se materializa historicamente na escravidão atlântica, no genocídio de povos indígenas, nas políticas coloniais de ocupação territorial e nas formas contemporâneas de violência racializada. Os corpos negros e indígenas foram designados, pela colonialidade do poder, como habitantes primários da zona do não-ser — corpos passíveis de extração ilimitada, violência permanente e descarte sistemático. A sobrevivência desses povos, apesar de quatro séculos de escravidão e de genocídio contínuo, constitui um ato de resistência extraordinária contra um sistema cujo funcionamento pressupôs sua eliminação.

O neoliberalismo radicaliza e globaliza essa mesma lógica. Se durante a modernidade o alvo central da necropolítica foram corpos racializados, na contemporaneidade o planeta Terra torna-se o último corpo da zona do não-ser. A natureza passa a ser tratada como o fundamento final da pilhagem, o reservatório derradeiro da riqueza gratuita. Enquanto seres humanos historicamente resistiram à eliminação física, a natureza, regida por leis físicas e não pela resiliência moral, não dispõe do mesmo campo de resistência. A necropolítica que falhou em exterminar povos racializados encontra pleno êxito na destruição ecossistêmica. O colapso climático e a devastação ambiental não são anomalias, mas indicadores de que a máquina canibal atingiu seus limites materiais.

Dessa forma, o capitalismo não apenas consome corpos e territórios; ele consome o próprio planeta. A exaustão dos ecossistemas — aquecimento global, desertificação, colapso da biodiversidade — constitui a expressão mais avançada da lógica necropolítica. O capitalismo canibal, ao devorar a natureza como última fronteira da zona do não-ser, revela seu caráter autodestrutivo. A crise climática, nesse sentido, é a manifestação final do Raubbau global: a materialização de um sistema que destrói suas próprias condições de reprodução.

Capítulo 3: A Contradição Fatal: Um Sistema-Mundo em um Planeta Finito

A acumulação capitalista opera segundo uma lógica expansiva estrutural. Conforme Marx já apontara, o capital necessita, para sua própria reprodução, converter todo limite material em oportunidade de valorização; sua dinâmica só se sustenta mediante a expansão contínua da fronteira de exploração. Trata-se de um sistema cuja racionalidade interna é quantitativa e ilimitada, orientada pela maximização do valor de troca e pela produção incessante de mais-valia. Essa lógica abstrata colide, inevitavelmente, com a finitude concreta das condições biofísicas que sustentam a vida no planeta. Em termos simples, porém estruturalmente decisivos: enquanto a natureza possui limites ontológicos, o capital não possui limites operacionais.

Durante cinco séculos, o sistema-mundo conseguiu administrar essa contradição por meio da expansão de sua fronteira extrativa. Esse conceito, historicamente possibilitado pela colonialidade do poder (QUIJANO, 2005), refere-se ao movimento contínuo de deslocamento geográfico da pilhagem. Quando um território, uma população ou um ecossistema era exaurido, o capital avançava para outro. A escravização de africanos, a ocupação violenta das Américas, a devastação de florestas tropicais, o extrativismo mineral e a expansão do agronegócio monocultor expressam essa dinâmica contínua de avanço para novas fontes de “riqueza gratuita”, conforme formulado por Fraser (2023). Essa fronteira, além de espacial, sempre foi racial: o deslocamento da pilhagem acompanhou, pari passu, a classificação racial do mundo.

O problema estrutural contemporâneo é que essa fronteira chegou ao limite material de sua própria possibilidade. O colapso climático — aquecimento global, acidificação dos oceanos, eventos extremos, perda acelerada de biodiversidade — evidencia que o planeta inteiro passou a integrar a zona de sacrifício, categoria anteriormente restrita à periferia racializada (FANON, 2008; MBEMBE, 2018). O que antes era uma contradição administrável mediante expansão geográfica torna-se uma contradição fatal, pois o capital esgota agora a própria base ecológica sobre a qual se sustenta. O Raubbau, antes circunscrito a regiões específicas, torna-se universal.

A desestabilização do sistema climático marca, portanto, o esgotamento do mecanismo histórico que permitiu ao capitalismo neutralizar seus próprios limites: a capacidade de deslocar a destruição para fora do campo de visão do centro. Como observa Wallerstein (2001), o centro sempre se fortaleceu justamente ao externalizar custos ambientais e sociais para a periferia. Contudo, na atual conjuntura, o planeta inteiro — atmosfera, oceanos, florestas, ciclos hídricos — converte-se em palco das consequências desse processo. Não há mais “fora” para onde deslocar a pilhagem; o mundo tornou-se simultaneamente único e finito.

É nesse momento de colapso estrutural que emerge a ideologia do capitalismo verde como narrativa dominante. Mecanismos como créditos de carbono, offsets florestais, neutralidade climática corporativa e fundos ESG surgem como tentativas de reconfigurar a crise ambiental em nova oportunidade de acumulação. Trata-se de uma estratégia de recodificação mercantil da catástrofe: transformar a destruição ecológica em ativo financeiro. Em vez de enfrentar a raiz estrutural do problema — a lógica de expansão infinita da produção capitalista — o capitalismo verde a reproduz sob novos termos, convertendo a própria devastação em fronteira de valorização.

Esse processo implica uma intensificação das desigualdades estruturais do sistema-mundo. A mercantilização da crise climática transfere, mais uma vez, os custos da transição ecológica para a periferia global. Territórios indígenas, florestas tropicais e ecossistemas do Sul Global tornam-se o locus privilegiado de captura de carbono, privatização de bens comuns e imposição de arranjos de governança ambiental controlados por atores transnacionais. O discurso de “salvar o planeta” é instrumentalizado para reforçar a divisão centro–periferia, sob o pretexto de responsabilidade ambiental. Em termos wallersteinianos, o capitalismo verde reorganiza, mas não rompe, a estrutura hierárquica do sistema-mundo.

O que se denomina capitalismo verde constitui, assim, uma mistificação dupla. Primeiro, porque oculta o fato de que a crise climática é a expressão final do Raubbau global — a exaustão metabólica produzida pela lógica de acumulação (MARX, 2013). Segundo, porque atribui ao mercado a capacidade de resolver um problema cuja origem está precisamente na expansão ilimitada das relações mercantis. Em vez de solucionar a contradição entre um sistema infinito e um planeta finito, o capitalismo verde a aprofunda ao transformar a catástrofe em ativo e ao deslocar seus custos para os corpos e territórios historicamente designados como descartáveis pela colonialidade.

Portanto, o capitalismo enfrenta agora sua contradição fatal: a impossibilidade de compatibilizar expansão infinita com um planeta limitado. Ao atingir os limites biofísicos da Terra, o sistema encontra não um obstáculo externo, mas o resultado inevitável da racionalidade que o sustenta. A crise climática não é um desafio ao capitalismo; é o seu produto lógico. Por isso, nenhuma reforma — verde, sustentável ou inclusiva — pode solucionar a crise ecológica sem confrontar a própria lógica de acumulação que a produz. Trata-se de uma contradição que não admite conciliação: ou o capitalismo se mantém e o planeta colapsa, ou a vida é colocada no centro e o capitalismo deixa de existir.

Conclusão — A Impossibilidade da Reforma em um Sistema Necropolítico

Retomando a questão que orientou este artigo — “existe capitalismo bom?” — torna-se evidente, ao final da análise, que a própria formulação da pergunta incorre em um erro de categoria. Tal pergunta presume que a violência estrutural, a devastação ecológica e a hierarquização racial produzidas pelo capitalismo são falhas contingentes, suscetíveis de correção interna. No entanto, as evidências teóricas apresentadas ao longo dos capítulos demonstram que essas dimensões não constituem anomalias do sistema, mas sua própria lógica operacional. O capitalismo não funciona apesar da destruição: ele funciona por meio dela.

O sistema-mundo descrito por Wallerstein somente se mantém pela existência de uma periferia estrutural, destinada à extração sistemática de excedente econômico, ecológico e humano. Essa periferia não é fruto do acaso, mas da colonialidade do poder definida por Quijano, que instituiu a classificação racial como princípio organizador da modernidade. É essa classificação que permite designar determinados corpos, territórios e modos de vida como inferiores e, portanto, disponíveis para exploração e sacrifício. A economia-mundo só pode existir porque existe uma engenharia política e epistêmica que legitima sua violência.

Essa engenharia global assume diferentes modalidades: a zona do não-ser (FANON, 2008), na qual a humanidade dos sujeitos é sistematicamente negada; a necropolítica (MBEMBE, 2018), que administra a morte como instrumento de governo; e o capitalismo canibal (FRASER, 2023), que devora continuamente sua própria base social, ecológica e institucional. Todas essas formulações convergem para demonstrar que o capitalismo é um sistema cujo vetor fundamental é o Raubbau — a pilhagem predatória que exaure pessoas, ecossistemas, territórios e relações sociais, consumindo exatamente aquilo que possibilita sua existência.

Diante desse quadro, a proposta de um “capitalismo verde” emerge como a mais recente forma de mistificação ideológica. Longe de constituir uma solução, a agenda ESG representa a fase mais avançada da racionalidade necropolítica: a necropolítica verde. Trata-se da tentativa de reorganizar o colapso planetário como oportunidade de mercado, criando novas fronteiras de acumulação a partir da devastação ambiental. Sob o discurso da sustentabilidade, perpetuam-se as mesmas hierarquias raciais e geopolíticas do sistema-mundo: a periferia é novamente convocada a assumir o ônus da crise global, agora sob a promessa de uma transição ecológica que nunca se realiza.

A ideia de reforma ambiental do capitalismo, portanto, revela-se não apenas insuficiente, mas contraditória em si. Não é possível reformar um sistema cuja reprodução depende justamente da degradação contínua das condições que sustentam a vida. O colapso climático expõe essa contradição fatal: ao transformar o planeta inteiro em zona de sacrifício, o capitalismo alcança o limite material de sua lógica expansiva. O sistema que historicamente sobreviveu deslocando a destruição para a periferia encontra-se, agora, diante da impossibilidade absoluta de externalizar seus custos. A crise ecológica não é um problema a ser administrado pelo capitalismo; é a demonstração de que o capitalismo é o problema.

Diante disso, a superação da crise climática não pode assumir a forma de uma reforma interna ao sistema. Não se reforma uma máquina cujo motor é a morte. A tarefa contemporânea é mais radical: desmantelar a engrenagem necropolítica e a colonialidade que lhe dá sustentação, reconstruindo a ordem social e ecológica a partir de outro princípio ontológico — a centralidade inegociável da vida. Esse é o horizonte político que se abre e que, neste trabalho, nomeamos Contrato Decolonial: um marco ético e institucional que rompe com a economia-mundo capitalista e inaugura uma racionalidade fundada na reprodução ampliada da vida, não na sua exaustão.

Referências

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008. Edição original de 1952.

FRASER, Nancy. Capitalismo canibal. São Paulo: Boitempo, 2023.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.

MARX, Karl. Elementos fundamentais para a crítica da economia política (Grundrisse) – 1857-1858. São Paulo: Boitempo, 2011.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: N-1 Edições, 2018.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 107-130.

WALLERSTEIN, Immanuel. The modern world-system I: capitalist agriculture and the origins of the European world-economy in the sixteenth century. New York: Academic Press, 1974.

WALLERSTEIN, Immanuel. Para abrir as ciências sociais. Lisboa: Publicações Europa-América, 2001.

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