REVISTA PALAFITAS – Saberes a partir das margens

🏛️ As Ruínas da Política Municipal: quando o feed substitui a praça

DOI 10.5281/zenodo.17550602

Por Fábio Braga, Editor


Revista Palafitas – ISSN 3086-2892

“A verdadeira questão não é organização versus não-organização, mas que tipo de organização.”
Murray Bookchin, Post-Scarcity Anarchism, 1971

A política municipal morreu — e foi substituída por um feed.
Não há mais debate público, há publicidade.
Não há mais praça, há palco.
As redes sociais não apenas esvaziaram o espaço político: elas colonizaram a imaginação democrática. O que antes era lugar de deliberação virou vitrine de vaidades; o mandato, uma marca pessoal; o orçamento público, um plano de impulsionamento.

Nas pequenas cidades, o fenômeno é ainda mais brutal: vereadores transformados em influencers, prefeitos em gestores de imagem, e o povo em platéia digital.
Fala-se de “proximidade”, mas tudo é filtrado por uma distância invisível — a do algoritmo.
O resultado é uma caricatura da democracia: um espetáculo de opiniões, sem estudos, sem dados, sem escuta.
Fulano vota contra porque acha que é certo; sicrano vota a favor porque acha que o mundo vai melhorar.
A política virou achismo e autopromoção — e, pior, ninguém parece se incomodar.


📉 Da cidade comunitária à cidade administrada

O que se perdeu não é apenas o senso de responsabilidade pública, mas o próprio significado da cidade como comunidade.
Como observa Murray Bookchin (1995), a urbanização capitalista transformou o município — essa célula viva da convivência humana — em uma “subunidade administrativa do Estado e do capital”.
Ou seja: a cidade deixou de ser um corpo político e virou um organismo gerencial, dominado por interesses econômicos, planos de marketing e lógicas de eficiência.

Em From Urbanization to Cities, Bookchin recorda que a democracia nasceu nos espaços locais, não nos parlamentos.
Foi na ágora de Atenas e, séculos depois, nas town meetings da Nova Inglaterra, que os cidadãos comuns deliberavam, cara a cara, sobre leis, impostos e orçamentos — sem mediação partidária.
Essas assembleias, em Massachusetts e Connecticut desde o século XVII, representavam a possibilidade concreta de autogoverno popular.
Alexis de Tocqueville as descreveu em Democracia na América (1835) como “a escola primária da liberdade”.
Nelas, o cidadão aprendia a ser cidadão.

“As reuniões municipais são o exercício perfeito do autogoverno e a garantia de sua preservação.”
Thomas Jefferson, apud Tocqueville (1835)

Bookchin recupera esse exemplo histórico para propor o que chamou de municipalismo libertário: um projeto de reorganização da sociedade a partir de assembleias populares locais, confederadas entre si, que substituam o Estado hierárquico por uma rede de comunidades autônomas e solidárias.
Não se trata de nostalgia, mas de reconexão com a dimensão humana da política — o rosto, a voz, o vínculo.


⚙️ A tecnocracia e o espetáculo

O que vemos hoje é o oposto disso.
A cidade virou cenário e a política, gestão de imagem.
O ideal republicano foi engolido pelo marketing digital.
Bookchin já previa esse esvaziamento: quando a esfera pública é dominada pela lógica da mercadoria, o debate se transforma em espetáculo — e o cidadão, em consumidor.

A “cidade”, diz ele, foi despolitizada por dentro.
E a burocracia municipal tornou-se o braço local da dominação estatal, reproduzindo o mesmo modelo de comando vertical que o municipalismo libertário queria abolir.

“Os cidadãos não deliberam mais, apenas consomem decisões já empacotadas.”
Bookchin, 1995, p. 77

A internet amplificou essa doença civilizatória: o fetichismo da opinião.
A ilusão de participação substitui a experiência do engajamento real.
Likes viram votos simbólicos; indignações coletivas substituem a organização coletiva.
E o pior: até quem se importa é arrastado pela lógica da visibilidade.


🏚️ O vazio da política local

O sintoma mais cruel desse colapso é a indiferença diante da miséria.
As câmaras municipais, antes espaços de representação, tornaram-se arenas de autopromoção — lotadas de leigos apaixonados por controle, moralismo e fascismo social.
Não há planejamento urbano, não há política pública de moradia, não há política para a população de rua.
Há decretos estéticos contra o “feio”, leis de “limpeza visual”, e muito silêncio diante do sofrimento.

A política pública virou “gestão do incômodo”.
E, como observou Bookchin (1982), a dominação da natureza é apenas a extensão da dominação social.
Quem vê o outro como descartável não vê a cidade como casa comum.
Por isso, a luta ecológica e a luta municipal são a mesma luta: reconstruir o comum.


🌿 Comunalismo libertário: reaprender a se reunir

Bookchin não propôs destruir o Estado de uma vez, mas esvaziá-lo de dentro — pela criação de assembleias populares municipais que retomem o poder de decisão sobre o território.
Essas assembleias seriam o embrião de uma nova forma de soberania: o poder que se dissolve no povo, em vez de governá-lo.

“O comunalismo libertário é a política da liberdade tornada prática cotidiana.”
Bookchin, 1995

Esse projeto encontra eco nas epistemologias do Sul de Boaventura de Sousa Santos (2018), que defende a “ecologia dos saberes” — a coexistência de múltiplas racionalidades na construção do comum.
Ambos convergem em um ponto essencial: a democracia real nasce na escala em que as pessoas podem se olhar nos olhos.

Tocqueville e Jefferson aprenderam a admirar as town meetings da Nova Inglaterra; mas as verdadeiras assembleias do povo sempre estiveram mais ao sul — nas aldeias, nos quilombos e nas margens onde a política nasce da vida comum, não da propriedade.
Nas assembleias indígenas, quilombolas e dos povos tradicionais, o comum é vivido como reciprocidade, e não como contrato.
Entre os Guarani, os Xavante, os povos de terreiro, as quebradeiras de coco e as comunidades ribeirinhas, a decisão coletiva é mais do que deliberação: é um gesto de cuidado, de escuta e de pertencimento.
Essas são as town meetings da floresta, democracias do convívio que não precisam do Estado para existir porque nascem do território e de seus vínculos simbólicos, espirituais e ecológicos.
Como lembra Sueli Carneiro (2005), “a epistemologia da dor é potência criadora”: nas margens, a política é inseparável da sobrevivência.

As town meetings não eram perfeitas, mas eram humanas.
E é isso que a cidade precisa reaprender.
A política não começou no Estado; começou na praça.
E será lá — ou nas margens, onde ainda pulsa — que poderá renascer.


🌎 Conclusão: Recomeçar pelas margens

As redes sociais mataram a política, mas ainda não conseguiram matar o desejo de comunidade.
E é por isso que, mesmo entre as ruínas, há esperança:
nos coletivos que se reúnem em praças; nas cozinhas solidárias; nas assembleias de bairro; nas hortas comunitárias; nos mutirões de cuidado.
É ali, nas margens, que o comunalismo libertário já respira.

O municipalismo de Bookchin não é utopia distante: é o retorno à política real, onde cada voz conta e cada corpo importa.
Enquanto as cidades forem governadas por publicitários, nada mudará.
Mas se voltarmos a falar — não no feed, mas na praça — talvez o comum ainda possa florescer.

“A praça é o corpo político em sua forma mais pura.”
Fábio Braga, Palafitas, 2025


📚 Referências
BOOKCHIN, Murray. Post-Scarcity Anarchism. Montreal: Black Rose Books, 1971.
BOOKCHIN, Murray. From Urbanization to Cities: Toward a New Politics of Citizenship. London: Cassell, 1995.
DE TOCQUEVILLE, Alexis. Democracia na América. São Paulo: Martins Fontes, 2005 [1835].
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. Epistemologies of the South: Justice Against Epistemicide. London: Routledge, 2018.
MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. São Paulo: Boitempo, 2013 [1867].

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