🌿 ECOLOGIA DOS SABERES
“A justiça social vai obrigar a que se comprometa com a justiça cognitiva”
Entrevista com Boaventura de Sousa Santos
Diversa no. 8 – Revista da Universidade Federal de Minas Gerais | Outubro de 2005
O senhor defende uma equiparação ecológica dos diferentes tipos de saberes. Que significa isso?
A ecologia dos saberes é a extensão universitária ao contrário. É a universidade preparada para se abrir às práticas sociais, mesmo quando não informadas pelo conhecimento científico, que nunca é único. O conhecimento científico tem de saber dialogar com outros conhecimentos que estão presentes nas práticas sociais e, assim, trazê-los para dentro da universidade.
O que significa, eventualmente, que os alunos da universidade terão contato com líderes comunitários, que, hoje, não são credenciados para ensinar na Academia, mas, provavelmente, podem trazer a ela sua experiência. É isso exatamente o que faço, na minha experiência como sociólogo, como lema da minha vida profissional. É integrar as grandes teorias epistemológicas, abstratas, às práticas concretas.
Acabo de vir da Vila Santa Lúcia, depois fui à Santa Rita, depois à São Bento, que está em uma ravina. Falei com um catador de lixo, um homem extraordinário, que me explicou quais eram suas soluções para canalização de água, de forma a garantir segurança àquela população sem que ela seja removida.
Aquela população não quer ser removida por uma razão absolutamente racional – porque, se isso acontecer, vai para longe do lixo de luxo que é base de sua sustentação. Naturalmente, a Prefeitura não está sensibilizada para isso.
O conhecimento que esse homem revelou sobre a estrutura da terra, o que acontece quando a água cai, é um conhecimento popular. Seria uma lástima se os técnicos da Prefeitura não tomassem em conta o conhecimento popular que existe naquela região.
Só para dar um exemplo – eu já vi isso em Porto Alegre – os técnicos em diálogo direto com a população das vilas. Isso é ecologia do saber. É um novo equilíbrio, uma nova relação entre o conhecimento científico e os conhecimentos populares, os conhecimentos das associações cívicas, os conhecimentos dos cidadãos.
A questão do impacto ambiental é fundamental. Hoje, por exemplo, temos na Europa formas de interação, como, por exemplo, as science shops – lojas de ciência –, que são pontos de encontro entre o conhecimento científico e o conhecimento do cidadão.
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