Autor: Fabio Borjas Rosim Braga
Coordenador do Centro de Estudos e
Editor da Revista Palafitas – ISSN 3086-2892
https://orcid.org/0009-0008-7496-575X
Email: editor@palafitas.org
A crise climática contemporânea configura-se como um processo de expropriação e externalização de custos orquestrado pelas elites globais. Estas, ao longo de décadas, se beneficiaram da exploração irrestrita dos recursos naturais e da emissão massiva de gases de efeito estufa, acumulando riqueza e poder. Contudo, a fatura dessa devastação é sistematicamente transferida para os grupos sociais que menos contribuíram para o aquecimento global: os povos indígenas, quilombolas, comunidades negras, periféricas e pobres.
Essa dinâmica revela a essência da injustiça climática, onde a vulnerabilidade aos impactos da crise é inversamente proporcional à responsabilidade histórica por ela. A materialização mais cruel dessa injustiça é o racismo ambiental, um fenômeno estrutural que direciona os danos ambientais e climáticos, de forma desproporcional, para populações historicamente marginalizadas e racializadas.
Segundo o Emissions Gap Report 2025, as emissões globais chegaram a 57,7 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa em 2024, um crescimento de 2,3% em relação ao ano anterior. Mesmo diante desse cenário, governos e corporações mantêm o discurso de “transição energética”, enquanto seguem ampliando a infraestrutura para extração e queima de combustíveis fósseis. O banquete não acabou; ele apenas trocou o nome do prato principal. A devastação permanece como requisito para a continuidade do modelo de acumulação. (UNEP, 2025)
A Urgência da Lacuna de Emissões e a Injustiça Global
O Emissions Gap Report 2025 deixa claro que a crise climática não é efeito de desconhecimento ou falta de capacidade. As emissões globais chegaram a 57,7 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa em 2024, um aumento de 2,3% em relação ao ano anterior. Mesmo que todas as metas anunciadas fossem cumpridas, o planeta já está em rota de aquecimento acima de 2°C, com ultrapassagem permanente de 1,5°C na próxima década. (UNEP, 2025)
A desigualdade climática é estrutural. Os danos não se distribuem de forma igual. Os corpos que mais enfrentam enchentes, secas, fome e deslocamentos são aqueles que nunca lucraram com o modelo que produziu o desastre. O relatório reconhece que os impactos atingem com mais força os povos mais pobres e racializados, enquanto os grandes emissores e detentores de capital seguem protegidos. (UNEP, 2025)
Isso confirma o diagnóstico de Nancy Fraser: o capitalismo só se sustenta porque externaliza seus custos, consumindo territórios, ecossistemas e vidas como se fossem descartáveis. A crise climática é apenas a forma contemporânea desse mesmo processo — uma máquina que devora aquilo que permite sua própria existência.
O Apagamento na COP30 e a Colonialidade do Poder
A COP30, sediada em Belém, expõe uma contradição central: o reconhecimento discursivo não se converte em redistribuição de poder. Enquanto documentos internacionais incluem, pela primeira vez, a população afrodescendente como grupo vulnerável, o processo de organização no território amazônico mantém quilombolas e povos tradicionais fora da mesa de decisão. O protagonismo negro é enunciado no microfone, mas negado na prática.
A exclusão não é falha institucional. É o funcionamento normal da colonialidade do poder. Os mesmos povos que sustentam a continuidade da floresta são sistematicamente impedidos de decidir sobre seu destino. O Estado negocia territórios como se fossem vazios, quando, na verdade, são espaços de vida, memória e resistência. A COP30, ao invisibilizar essas vozes, repete o padrão histórico de expropriação: ouvir o território como paisagem, nunca como sujeito.
O racismo ambiental opera aqui como tecnologia de distribuição desigual do dano. Ele define quais vidas podem ser sacrificadas para que o modelo de desenvolvimento siga incontestado. A exclusão de quilombolas da COP30 não é um incidente político; é a própria estrutura da decisão climática global. A crise ecológica não é apenas destruição da natureza — é a continuidade de um projeto que hierarquiza vidas e decide quem pode respirar.
Rumo a uma Transição Ecológica Justa
Reconhecer desigualdades não altera nada se o poder de decisão permanece nas mesmas mãos. A crise climática não será enfrentada enquanto quilombolas forem envenenados por agrotóxicos, indígenas perderem seus rios, e periferias urbanas forem as primeiras a serem alagadas e removidas. Essas vidas são tratadas como custo aceitável do desenvolvimento. Não se trata de inclusão: trata-se de romper com a lógica que produz o sacrifício.
A COP30 não representa uma oportunidade de reformar o sistema, mas a demonstração de seu limite. Se povos tradicionais são impedidos de decidir sobre seus próprios territórios, não há “justiça climática” possível. Não é uma questão de reconhecer saberes, mas de reconhecer soberania. Quem protege a floresta deve ter o poder de governá-la. Sem devolução de território, tudo é retórica.
Uma transição ecológica só pode ser justa se redistribuir poder, terra e futuro. Se continuar sendo conduzida por aqueles que lucram com a destruição, ela não será transição — será continuação.
Referências
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). Emissions Gap Report 2025: Off Target – Continued collective inaction puts global temperature goal at risk. Nairobi: UNEP, 2025. Disponível em: https://wedocs.unep.org/20.500.11822/48854. Acesso em: 11 nov. 2025.
FRASER, Nancy. Capitalismo canibal: como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta, e o que podemos fazer com isso. São Paulo: Boitempo, 2023.

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