doi.org/10.5281/zenodo.17600092
Fabio Borjas Rosim Braga
Afiliação / Cargo:
Coordenador do Centro de Estudos e Editor da Revista Palafitas – Saberes a partir das Margens
Instituição:
CENTRO DE ESTUDOS E REVISTA PALAFITAS – Saberes a partir das Margens -ISSN 3086-2892
Think Tank do Sul Global, Hub de Comunicação Decolonial e Práxis Comunal
ORCID:
https://orcid.org/0009-0008-7496-575X
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O avanço acelerado da crise climática e ambiental evidencia a contradição estrutural do chamado neoliberalismo verde, um projeto que, sob o discurso sedutor da “economia verde” e da “modernização sustentável”, aprofunda a mercantilização da natureza ao transformar elementos vitais da vida em commodities negociáveis no mercado global. Essa lógica econômica não apenas fracassa em alterar o padrão histórico de degradação ambiental, como também o insere em uma teia ampliada de interesses financeiros, dentro da qual o capital concentra poder e possibilita que uma minoria acumule recursos de forma ilimitada. A COP 30, realizada em Belém, no coração da Amazônia, em novembro de 2025, emerge como um espaço emblemático de disputa, onde as propostas tecnocráticas de “soluções de mercado” se confrontam com críticas provenientes de movimentos sociais, comunidades tradicionais e setores acadêmicos.
Conforme observa Santos (2018) ao analisar a criminologia verde, o neoliberalismo constitui “a nova razão do mundo” que orienta processos de destruição ambiental e produz aquilo que o campo denomina ecocídio — a morte sistemática de ecossistemas necessária para sustentar a expansão contínua do capital. Essa lógica de crescimento ilimitado em um planeta finito produz uma contradição insolúvel entre a preservação ambiental e a busca permanente por lucro, antinomia que o capitalismo verde tenta, sem êxito, conciliar. O ecocídio, nesse contexto, não representa um desvio, mas uma consequência intrínseca de um sistema que subordina a vida à acumulação.
A reflexão de Fraser (2023) em Capitalismo Canibal aprofunda esse diagnóstico ao sustentar que o capitalismo opera como uma ordem social ampliada que depende de condições de fundo não econômicas — como a natureza, o trabalho de cuidado e o poder político — as quais ele simultaneamente consome, desgasta e destrói. O caráter canibalístico desse modelo reside em sua tendência estrutural de devorar tais condições sem qualquer compromisso de renovação. A mercantilização da natureza constitui exemplo central desse processo: ecossistemas inteiros são reduzidos a recursos exploráveis para fins de acumulação, desprovidos de valor intrínseco e desvinculados de seus limites ecológicos.
Na perspectiva marxista apresentada por Harvey (2005), o neoliberalismo reconfigura os espaços naturais como territórios de acumulação, subordinando o uso da natureza às imperativas do mercado e da propriedade privada, sem reconhecer os limites ecológicos do planeta. Esse processo de comodificação ambiental, igualmente criticado por Shiva (2016), evidencia a perda da dimensão ética da relação humana com o meio em que vive, substituída pela lógica do valor monetário. A natureza, antes concebida como bem comum ou sistema de suporte à vida, passa a ser reinterpretada como “capital natural”, um ativo a ser mensurado, gerido e monetizado, desconsiderando suas interdependências ecológicas e seu valor intrínseco.
No campo acadêmico, Escobar (2018) destaca a necessidade de romper com a epistemologia dominante que reduz a natureza à condição de recurso. Para o autor, uma crítica consistente ao neoliberalismo verde exige o reconhecimento de cosmologias plurais e o diálogo com saberes tradicionais que formulam alternativas ao desenvolvimento capitalista, especialmente aquelas fundamentadas na interdependência ecológica, na autonomia comunitária e na justiça ambiental. A crítica, portanto, não se limita ao plano econômico: envolve uma revisão epistemológica e ética profunda acerca do modo como os seres humanos se relacionam com o mundo natural.
O discurso político e econômico do chamado “neoliberalismo verde” frequentemente oculta uma realidade estrutural violenta. O “enverdecimento” da economia pressupõe a transformação da natureza em capital natural, serviços ecossistêmicos e ativos financeiros, sustentando a crença de que mercados regulados poderiam resolver a crise ambiental por meio da mercantilização. Como observa Monedero (2017), essa racionalidade é altamente problemática, pois os mercados ignoram os limites ecológicos e subordinam a preservação ambiental ao cálculo econômico orientado ao lucro imediato. As Soluções Baseadas na Natureza (NbS), embora frequentemente apresentadas como inovações para a conservação, são comumente capturadas por essa lógica: convertem ecossistemas em ativos financeiros e ampliam mecanismos de acumulação por despossessão, conceito que Fraser (2023) utiliza para descrever processos contemporâneos de expropriação de bens comuns e de recursos socioambientais em benefício do capital.
Um exemplo emblemático dessa lógica no contexto brasileiro — e que se torna tema central de debate na COP 30 — é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (FFFT). A iniciativa, liderada pelo governo brasileiro, busca captar recursos privados para remunerar países que mantêm florestas tropicais preservadas, convertendo o sequestro de carbono e outros serviços ecossistêmicos em produtos financeiros negociáveis (GOV.BR, 2025; SUMAÚMA, 2025). Embora apresentado como inovação institucional, o FFFT tem sido criticado por aprofundar a comoditização da natureza, redirecionar o financiamento público internacional para mecanismos privados, fragilizar a soberania dos países do Sul Global e ampliar a dependência em relação às regras do mercado financeiro (THE CONVERSATION, 2025; GLOBAL WITNESS, 2025).
Além disso, a governança do fundo tem sido questionada pela ausência de participação efetiva de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais — grupos que, historicamente, atuam como principais protetores da floresta e, simultaneamente, figuram entre os mais afetados pelos impactos das mudanças climáticas (CLIMAINFO, 2025). Essa exclusão revela a persistência de uma lógica colonial na formulação de políticas ambientais, em que aqueles que sustentam material e culturalmente a preservação são sistematicamente afastados dos processos decisórios.
Tal dinâmica evidencia o déficit de democracia deliberativa na governança ambiental global. Os protagonistas reais da defesa dos territórios permanecem alijados dos espaços formais de decisão, sem possibilidade de influenciar normas que afetam diretamente suas vidas e seus modos de existência. A Cúpula dos Povos, realizada paralelamente à COP 30 em Belém, constitui-se como contraponto fundamental ao proporcionar um espaço de expressão, articulação e formulação política para esses atores (FOURTH INTERNATIONAL, 2025).
A marginalização desses grupos — cujos meios de subsistência e cosmologias estão intrinsecamente vinculados à manutenção da floresta — configura, como observa Fraser (2023), uma forma estrutural de expropriação. Trata-se de um mecanismo central ao funcionamento do capitalismo contemporâneo, especialmente em sua dimensão racializada e colonial, que depende da invisibilização e do saque dos bens comuns para sustentar a expansão da acumulação.
Outro elemento central da crítica refere-se ao papel do chamado “poluidor mau pagador”, categoria que designa empresas e Estados historicamente responsáveis pela maior parcela da destruição ambiental, mas que se recusam a assumir os custos sociais e ecológicos decorrentes de suas próprias ações. O poder financeiro e político desses atores — majoritariamente concentrados no Norte Global — assegura-lhes impunidade, manutenção de subsídios e influência sobre processos decisórios, bloqueando a adoção de políticas ambientais eficazes e agravando as desigualdades globais e climáticas. A justiça climática, nesse sentido, requer que os agentes que contribuíram de maneira determinante para o colapso climático sejam responsabilizados e que comunidades vulneráveis, desproporcionalmente afetadas, recebam apoio para adaptação, reparação e desenvolvimento sustentável.
Nesse cenário, a mercantilização da natureza característica do neoliberalismo verde não apenas reproduz desigualdades históricas, mas aprofunda a crise ecológica ao concentrar poder nas mãos dos mesmos atores que se beneficiam da devastação. A COP 30, portanto, não pode ser reduzida a um espaço de negociação de créditos de carbono ou de mecanismos financeiros supostamente compensatórios. Ela deve constituir-se como oportunidade para uma redefinição radical das relações entre sociedade e natureza, mediante o reconhecimento de limites ecológicos, da centralidade da vida e da necessidade de romper com modelos de gestão ambiental subordinados à lógica do mercado.
Rumo a uma Transição Justa e Epistemologias do Sul
O neoliberalismo verde, ao apresentar a natureza como mercadoria passível de negociação, inaugura uma nova etapa de exploração que não resolve a crise climática, mas aprofunda as desigualdades socioambientais. A lógica do “enverdecimento” da economia subordina a vida às exigências do lucro e ignora tanto os limites ecológicos quanto as dimensões de justiça social. Como argumenta Klein (2015), o capitalismo contemporâneo é intrinsecamente incompatível com qualquer modelo de sustentabilidade ecológica; por isso, iniciativas que se pretendem “capitalismo verde” constituem, na melhor das hipóteses, distrações que mantêm intactas as estruturas responsáveis pelo colapso ambiental.
Nesse sentido, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (FFFT) representa um exemplo paradigmático. Ao transformar serviços ecossistêmicos em ativos financeiros, o fundo reforça a mercantilização da natureza e aprofunda a concentração de poder, excluindo justamente os povos que mais dependem e mais protegem a floresta. Essa abordagem negligencia as complexas relações socioecológicas e desconsidera saberes ancestrais que, como defende Santos (2007), são fundamentais para a construção das Epistemologias do Sul — racionalidades que oferecem alternativas substantivas ao pensamento hegemônico ocidental e às suas soluções de mercado. A exclusão sistemática desses saberes e a imposição de uma lógica econômica ocidentalizada constituem, como analisa Fraser (2023), elementos centrais da crise política do capitalismo, que compromete a deliberação democrática e impede a formulação de respostas realmente justas e eficazes.
A persistência dessa exclusão, aliada à impunidade estruturada dos grandes poluidores, configura barreira decisiva para uma resposta ambiental robusta. A justiça ambiental e a justiça climática não serão alcançadas sem uma transformação estrutural capaz de desmontar as bases do neoliberalismo e do extrativismo. Moore (2015), ao desenvolver o conceito de Capitaloceno, enfatiza que a crise ecológica é sobretudo uma crise do capital — resultado de relações históricas de exploração que moldam a produção e a reprodução da vida. Enfrentar a crise, portanto, implica reavaliar profundamente os modelos de desenvolvimento, consumo e organização social.
Superar o discurso tecnocrático da economia verde exige a construção de uma relação ética, democrática e plural com a natureza. Isso envolve reconhecer a autonomia dos territórios, a soberania dos povos sobre seus recursos e a legitimidade das cosmologias indígenas e camponesas como fundamentos de futuros ecossociais possíveis. A transição justa não pode ser imposta de forma vertical; ela deve nascer das lutas, dos corpos e dos territórios que vivenciam a crise no cotidiano. Como sustenta Malm (2021), não há espaço para gradualismos diante do colapso climático — a urgência impõe ação radical e reorientação profunda das políticas ambientais.
O alerta é inequívoco: sem romper com a lógica dominante do mercado e sem expandir a democracia ambiental, caminharemos para um colapso irreversível em que a riqueza de poucos continuará assentada na destruição das bases da vida na Terra. A COP 30, nesse contexto, deve ser compreendida como momento de inflexão, no qual a crítica ao neoliberalismo verde e a defesa de alternativas ecossociais ganhem centralidade, abrindo caminhos para uma ecologia política que coloque a vida — humana e não humana — no centro das decisões coletivas.
Para além da COP 30
O enfrentamento da crise climática exige ultrapassar a dependência de respostas tecnocráticas e de mecanismos de mercado que tratam a natureza como ativo financeiro. As alternativas mais consistentes emergem de territórios historicamente marginalizados pela governança global, cujos modos de vida não foram capturados pelo paradigma ocidental desenvolvimentista e, por isso, preservam racionalidades capazes de interromper a lógica destrutiva que sustenta o neoliberalismo verde.
Essas práticas insurgentes rompem com a monocultura do pensamento descrita por Shiva (2016) e confrontam o caráter canibal do capitalismo analisado por Fraser (2023), ao revelar que a crise ambiental decorre da própria estrutura que hierarquiza vidas, territórios e ecossistemas. Nessa perspectiva, a necrojurisdição ambiental evidencia como o sistema de justiça frequentemente administra a degradação, em vez de atuar em defesa da vida.
Os saberes indígenas, quilombolas, ribeirinhos e camponeses oferecem contranarrativas fundamentais ao apresentarem cosmologias que recusam a separação colonial entre humanidade e natureza. Tais racionalidades expressam o pensamento pós-abissal formulado por Santos (2007) e se articulam ao pluriverso de Escobar (2018), que propõe uma compreensão do mundo fundada na coexistência de múltiplas ontologias e formas de vida.
Ao incorporar essas epistemologias, torna-se possível deslocar a crítica do neoliberalismo verde do campo abstrato da denúncia para a construção de alternativas ecossociais que respondam de forma concreta ao colapso climático. Trata-se de reconhecer que a crise é inseparável das estruturas de poder e acumulação que sustentam o capital, e que novas formas de relação entre sociedade e natureza exigem rupturas profundas nas bases econômicas, políticas e jurídicas que legitimam a destruição.
Assim, as racionalidades que emergem das margens não apenas denunciam a insuficiência das respostas tecnocráticas, mas indicam caminhos para reconstruir relações ecológicas e sociais pautadas na vida, na justiça e na pluralidade dos mundos existentes.
Referências
SANTOS, Jádia Larissa Timm dos. O neoliberalismo como nova ordem mundial e seu impacto. Anais do Congresso Internacional de Ciências Criminais, 2018. Disponível em: https://editora.pucrs.br/anais/congresso-internacional-de-ciencias-criminais/assets/edicoes/2018/arquivos/74.pdf.
HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
SHIVA, Vandana. Monoculturas da mente: perspectivas da biodiversidade e da biotecnologia. São Paulo: Gaia, 2016.
ESCOBAR, Arturo. Designs for the Pluriverse: Radical Interdependence, Autonomy, and the Making of Worlds. Durham: Duke University Press, 2018.
MONEDERO, Juan Carlos. El gobierno de las palabras. Madrid: Fondo de Cultura Económica, 2017.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O valor da vida: entenda como funcionará o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Brasília, 22 set. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias/o-valor-da-vida-entenda-como-funcionara-fundo-florestas-tropicais-para-sempre-tfff.
SUMAÚMA. Entenda o TFFF, Fundo Florestas Tropicais para Sempre. Disponível em: https://sumauma.com/amazonario/entenda-o-fundo-florestas-tropicais-para-sempre/.
THE CONVERSATION. Fundo Florestas Tropicais para Sempre levanta questões sobre formas de financiar preservação. 9 out. 2025. Disponível em: https://theconversation.com/fundo-florestas-tropicais-para-sempre-levanta-questoes-sobre-formas-de-financiar-preservacao-266873.
GLOBAL WITNESS. 5 things to know about the Tropical Forest Forever Facility. 28 ago. 2025. Disponível em: https://globalwitness.org/en/campaigns/forests/5-things-to-know-about-the-tropical-forest-forever-facility/.
CLIMAINFO. Fundo para florestas tropicais é finalista em prêmio internacional, mas gera polêmica. 5 out. 2025. Disponível em: https://climainfo.org.br/2025/10/06/fundo-para-florestas-tropicais-e-finalista-em-premio-internacional-mas-gera-polemica/.
FOURTH INTERNATIONAL. COP 30: catalizar una reactivación de la lucha social y medioambiental. 28 fev. 2025. Disponível em: https://fourth.international/es/congresos-mundiales/874/america-latina/693.
KLEIN, Naomi. Isento de impostos: como as corporações se tornaram os novos tiranos e como podemos resistir. Rio de Janeiro: Record, 2015.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2007.
MOORE, Jason W. Capitalism in the Web of Life: Ecology and the Accumulation of Capital. London: Verso Books, 2015.
MALM, Andreas. How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on Fire. London: Verso Books, 2021.
FRASER, Nancy. Capitalismo Canibal: Como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta, e o que podemos fazer com isso. São Paulo: Boitempo, 2023.