REVISTA PALAFITAS – Saberes a partir das margens

Categoria: edicoes

  • Aula 5: Necropolítica e a Dignidade dos Corpos: Fanon e Mbembe

    Aula 5: Necropolítica e a Dignidade dos Corpos: Fanon e Mbembe

    Introdução: A Gestão da Vida e da Morte em Contextos de Dominação

    Nas aulas anteriores, exploramos as raízes sistêmicas da crise ecológica no capitalismo e na colonialidade, e as propostas de Murray Bookchin para uma sociedade comunalista. Agora, aprofundaremos a análise das formas mais extremas de dominação, aquelas que operam diretamente sobre a vida e a morte dos corpos. Esta aula se dedicará aos conceitos de necropolítica de Achille Mbembe e à análise da violência colonial e da luta pela dignidade em Frantz Fanon. Veremos como a soberania, em certos contextos, se manifesta não apenas no poder de “fazer viver”, mas sobretudo no poder de “deixar morrer” ou “fazer morrer”, especialmente em relação a corpos racializados e marginalizados.

    Achille Mbembe: Necropolítica e os Mundos da Morte

    Achille Mbembe, filósofo e teórico político camaronês, desenvolveu o conceito de necropolítica como uma crítica e extensão do biopoder de Michel Foucault. Enquanto Foucault descreveu o biopoder como a gestão da vida das populações pelo Estado (o poder de “fazer viver e deixar morrer”), Mbembe argumenta que, em muitos contextos contemporâneos, especialmente nas periferias do capitalismo global e em zonas de conflito, a soberania se exerce principalmente como o poder de “fazer morrer” ou de expor à morte. A necropolítica é, portanto, a capacidade de determinar quem pode viver e quem deve morrer, transformando a morte em um instrumento de poder e controle.

    “A necropolítica é a subordinação da vida ao poder da morte. É a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é descartável e quem merece viver.” [Mbembe, Achille. Necropolítica. 2019.]

    Os principais elementos da necropolítica incluem:

    • Mundos da Morte: Mbembe descreve a criação de “mundos da morte” – espaços e condições onde a vida é desvalorizada e a morte é uma constante. Exemplos incluem campos de refugiados, favelas, zonas de guerra, territórios colonizados e áreas de extração de recursos, onde a violência, a precariedade e a exposição à morte são normalizadas. Nesses espaços, a vida é reduzida à sua forma mais básica, e a morte é banalizada, tornando certos corpos “matáveis”.
    • Corpos Descartáveis: Sob a necropolítica, certos corpos são considerados dispensáveis e passíveis de extermínio. A racialização e a marginalização são elementos centrais na determinação de quem é “matável”. Populações negras, indígenas e periféricas são frequentemente as mais expostas a essa lógica, onde sua existência é constantemente ameaçada e sua morte, muitas vezes, não gera comoção ou justiça.
    • Soberania e Violência: A soberania, na perspectiva necropolítica, não se manifesta apenas no controle sobre a vida, mas principalmente no poder de infligir a morte e de criar estados de exceção onde a vida humana é suspensa e a violência é legitimada. Isso se traduz em políticas de segurança que visam o extermínio de populações consideradas “inimigas” ou “ameaças”, e na militarização de territórios.

    Frantz Fanon: Violência Colonial e a Luta pela Dignidade

    Frantz Fanon, psiquiatra e filósofo martinicano, ofereceu uma análise profunda das consequências psicológicas e sociais do colonialismo e da violência como um meio de libertação. Em sua obra seminal Os Condenados da Terra, Fanon argumenta que o colonialismo é, em sua essência, um sistema de violência que desumaniza o colonizado, impondo uma realidade de opressão e submissão. A violência não é apenas física, mas também psicológica, cultural e epistêmica.

    “O colonialismo não é uma máquina de pensar, nem um corpo dotado de razão, mas violência em estado de natureza, e só pode ceder diante de uma violência maior.” [Fanon, Frantz. Os Condenados da Terra. 1961.]

    Os pontos chave da análise de Fanon incluem:

    • Violência Colonial: Fanon descreve o colonialismo como um sistema que opera através da violência para manter a dominação. Essa violência é totalizante, infiltrando-se nas instituições, na economia, na cultura e, sobretudo, na psique do colonizado, gerando uma profunda alienação e desumanização.
    • Descolonização e Violência: Para Fanon, a descolonização é um processo inerentemente violento, onde a violência do colonizado é uma resposta à violência estrutural do colonizador. Essa violência não é apenas um ato de retaliação, mas um processo catártico e restaurador da dignidade e da subjetividade do oprimido. Através da luta violenta, o colonizado se liberta do complexo de inferioridade imposto pelo colonizador e reafirma sua humanidade.
    • Alienação e Identidade: O colonialismo leva à alienação do colonizado, que internaliza a visão do colonizador sobre si mesmo, resultando em uma crise de identidade. A luta pela libertação é também uma busca pela recuperação da identidade, da cultura e da subjetividade negadas.
    • Dignidade dos Corpos: A luta pela descolonização é intrinsecamente ligada à recuperação da dignidade dos corpos e mentes dos colonizados, que foram sistematicamente negados e oprimidos. A violência colonial busca transformar o corpo do colonizado em um objeto, e a resistência é um ato de reafirmação da sua dignidade e agência.

    Necropolítica na Crise Ecológica e Social

    A intersecção entre a necropolítica de Mbembe e a análise de Fanon sobre a violência colonial é crucial para compreender como a crise ecológica se manifesta. A lógica necropolítica que falhou em exterminar completamente os povos colonizados e racializados parece estar tendo sucesso em exterminar os ecossistemas e, por extensão, as populações que dependem deles. O “capitalismo verde”, criticado na Aula 1, pode ser visto como uma forma de necropolítica verde, onde a gestão da morte e da destruição ambiental é instrumentalizada para fins lucrativos, disfarçada de soluções “sustentáveis”.

    O capitalismo, nesse sentido, atua como um sistema de administração da morte com fins lucrativos, onde a degradação ambiental e a exposição de certas populações a riscos ecológicos são consequências diretas da busca incessante por acumulação. A “dignidade dos corpos” torna-se um conceito central na resistência a essa lógica, onde a luta pela vida e pela integridade dos territórios é inseparável da luta pela dignidade humana e pela justiça ambiental.

    Conclusão: Desafios para uma Ecologia da Liberdade

    Esta aula nos confrontou com as dimensões mais sombrias da dominação, revelando como a vida e a morte são gerenciadas em benefício de um sistema que explora tanto a natureza quanto os seres humanos. A necropolítica de Mbembe e a análise de Fanon sobre a violência colonial nos fornecem ferramentas essenciais para entender a profundidade da crise civilizatória e a urgência de uma transformação radical. A luta por uma “Ecologia da Liberdade” deve, portanto, enfrentar diretamente essas lógicas de morte e desumanização, reafirmando a dignidade de todos os corpos e a integridade de todos os ecossistemas. A próxima aula continuará a explorar as dimensões do feminismo decolonial, focando nas contribuições de Sueli Carneiro e Rita Segato sobre raça, gênero e território.

  • Neoliberalismo Verde: A Mercantilização da Natureza na Lógica da Acumulação Implacável e os Desafios da COP 30

    Neoliberalismo Verde: A Mercantilização da Natureza na Lógica da Acumulação Implacável e os Desafios da COP 30

    doi.org/10.5281/zenodo.17600092

    Fabio Borjas Rosim Braga

    Afiliação / Cargo:
    Coordenador do Centro de Estudos e Editor da Revista Palafitas – Saberes a partir das Margens

    Instituição:
    CENTRO DE ESTUDOS E REVISTA PALAFITAS – Saberes a partir das Margens -ISSN 3086-2892
    Think Tank do Sul Global, Hub de Comunicação Decolonial e Práxis Comunal

    ORCID:
    https://orcid.org/0009-0008-7496-575X

    Email:
    editor@palafitas.org

    O avanço acelerado da crise climática e ambiental evidencia a contradição estrutural do chamado neoliberalismo verde, um projeto que, sob o discurso sedutor da “economia verde” e da “modernização sustentável”, aprofunda a mercantilização da natureza ao transformar elementos vitais da vida em commodities negociáveis no mercado global. Essa lógica econômica não apenas fracassa em alterar o padrão histórico de degradação ambiental, como também o insere em uma teia ampliada de interesses financeiros, dentro da qual o capital concentra poder e possibilita que uma minoria acumule recursos de forma ilimitada. A COP 30, realizada em Belém, no coração da Amazônia, em novembro de 2025, emerge como um espaço emblemático de disputa, onde as propostas tecnocráticas de “soluções de mercado” se confrontam com críticas provenientes de movimentos sociais, comunidades tradicionais e setores acadêmicos.

    Conforme observa Santos (2018) ao analisar a criminologia verde, o neoliberalismo constitui “a nova razão do mundo” que orienta processos de destruição ambiental e produz aquilo que o campo denomina ecocídio — a morte sistemática de ecossistemas necessária para sustentar a expansão contínua do capital. Essa lógica de crescimento ilimitado em um planeta finito produz uma contradição insolúvel entre a preservação ambiental e a busca permanente por lucro, antinomia que o capitalismo verde tenta, sem êxito, conciliar. O ecocídio, nesse contexto, não representa um desvio, mas uma consequência intrínseca de um sistema que subordina a vida à acumulação.

    A reflexão de Fraser (2023) em Capitalismo Canibal aprofunda esse diagnóstico ao sustentar que o capitalismo opera como uma ordem social ampliada que depende de condições de fundo não econômicas — como a natureza, o trabalho de cuidado e o poder político — as quais ele simultaneamente consome, desgasta e destrói. O caráter canibalístico desse modelo reside em sua tendência estrutural de devorar tais condições sem qualquer compromisso de renovação. A mercantilização da natureza constitui exemplo central desse processo: ecossistemas inteiros são reduzidos a recursos exploráveis para fins de acumulação, desprovidos de valor intrínseco e desvinculados de seus limites ecológicos.

    Na perspectiva marxista apresentada por Harvey (2005), o neoliberalismo reconfigura os espaços naturais como territórios de acumulação, subordinando o uso da natureza às imperativas do mercado e da propriedade privada, sem reconhecer os limites ecológicos do planeta. Esse processo de comodificação ambiental, igualmente criticado por Shiva (2016), evidencia a perda da dimensão ética da relação humana com o meio em que vive, substituída pela lógica do valor monetário. A natureza, antes concebida como bem comum ou sistema de suporte à vida, passa a ser reinterpretada como “capital natural”, um ativo a ser mensurado, gerido e monetizado, desconsiderando suas interdependências ecológicas e seu valor intrínseco.

    No campo acadêmico, Escobar (2018) destaca a necessidade de romper com a epistemologia dominante que reduz a natureza à condição de recurso. Para o autor, uma crítica consistente ao neoliberalismo verde exige o reconhecimento de cosmologias plurais e o diálogo com saberes tradicionais que formulam alternativas ao desenvolvimento capitalista, especialmente aquelas fundamentadas na interdependência ecológica, na autonomia comunitária e na justiça ambiental. A crítica, portanto, não se limita ao plano econômico: envolve uma revisão epistemológica e ética profunda acerca do modo como os seres humanos se relacionam com o mundo natural.

    O discurso político e econômico do chamado “neoliberalismo verde” frequentemente oculta uma realidade estrutural violenta. O “enverdecimento” da economia pressupõe a transformação da natureza em capital natural, serviços ecossistêmicos e ativos financeiros, sustentando a crença de que mercados regulados poderiam resolver a crise ambiental por meio da mercantilização. Como observa Monedero (2017), essa racionalidade é altamente problemática, pois os mercados ignoram os limites ecológicos e subordinam a preservação ambiental ao cálculo econômico orientado ao lucro imediato. As Soluções Baseadas na Natureza (NbS), embora frequentemente apresentadas como inovações para a conservação, são comumente capturadas por essa lógica: convertem ecossistemas em ativos financeiros e ampliam mecanismos de acumulação por despossessão, conceito que Fraser (2023) utiliza para descrever processos contemporâneos de expropriação de bens comuns e de recursos socioambientais em benefício do capital.

    Um exemplo emblemático dessa lógica no contexto brasileiro — e que se torna tema central de debate na COP 30 — é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (FFFT). A iniciativa, liderada pelo governo brasileiro, busca captar recursos privados para remunerar países que mantêm florestas tropicais preservadas, convertendo o sequestro de carbono e outros serviços ecossistêmicos em produtos financeiros negociáveis (GOV.BR, 2025; SUMAÚMA, 2025). Embora apresentado como inovação institucional, o FFFT tem sido criticado por aprofundar a comoditização da natureza, redirecionar o financiamento público internacional para mecanismos privados, fragilizar a soberania dos países do Sul Global e ampliar a dependência em relação às regras do mercado financeiro (THE CONVERSATION, 2025; GLOBAL WITNESS, 2025).

    Além disso, a governança do fundo tem sido questionada pela ausência de participação efetiva de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais — grupos que, historicamente, atuam como principais protetores da floresta e, simultaneamente, figuram entre os mais afetados pelos impactos das mudanças climáticas (CLIMAINFO, 2025). Essa exclusão revela a persistência de uma lógica colonial na formulação de políticas ambientais, em que aqueles que sustentam material e culturalmente a preservação são sistematicamente afastados dos processos decisórios.

    Tal dinâmica evidencia o déficit de democracia deliberativa na governança ambiental global. Os protagonistas reais da defesa dos territórios permanecem alijados dos espaços formais de decisão, sem possibilidade de influenciar normas que afetam diretamente suas vidas e seus modos de existência. A Cúpula dos Povos, realizada paralelamente à COP 30 em Belém, constitui-se como contraponto fundamental ao proporcionar um espaço de expressão, articulação e formulação política para esses atores (FOURTH INTERNATIONAL, 2025).

    A marginalização desses grupos — cujos meios de subsistência e cosmologias estão intrinsecamente vinculados à manutenção da floresta — configura, como observa Fraser (2023), uma forma estrutural de expropriação. Trata-se de um mecanismo central ao funcionamento do capitalismo contemporâneo, especialmente em sua dimensão racializada e colonial, que depende da invisibilização e do saque dos bens comuns para sustentar a expansão da acumulação.

    Outro elemento central da crítica refere-se ao papel do chamado “poluidor mau pagador”, categoria que designa empresas e Estados historicamente responsáveis pela maior parcela da destruição ambiental, mas que se recusam a assumir os custos sociais e ecológicos decorrentes de suas próprias ações. O poder financeiro e político desses atores — majoritariamente concentrados no Norte Global — assegura-lhes impunidade, manutenção de subsídios e influência sobre processos decisórios, bloqueando a adoção de políticas ambientais eficazes e agravando as desigualdades globais e climáticas. A justiça climática, nesse sentido, requer que os agentes que contribuíram de maneira determinante para o colapso climático sejam responsabilizados e que comunidades vulneráveis, desproporcionalmente afetadas, recebam apoio para adaptação, reparação e desenvolvimento sustentável.

    Nesse cenário, a mercantilização da natureza característica do neoliberalismo verde não apenas reproduz desigualdades históricas, mas aprofunda a crise ecológica ao concentrar poder nas mãos dos mesmos atores que se beneficiam da devastação. A COP 30, portanto, não pode ser reduzida a um espaço de negociação de créditos de carbono ou de mecanismos financeiros supostamente compensatórios. Ela deve constituir-se como oportunidade para uma redefinição radical das relações entre sociedade e natureza, mediante o reconhecimento de limites ecológicos, da centralidade da vida e da necessidade de romper com modelos de gestão ambiental subordinados à lógica do mercado.

    Rumo a uma Transição Justa e Epistemologias do Sul

    O neoliberalismo verde, ao apresentar a natureza como mercadoria passível de negociação, inaugura uma nova etapa de exploração que não resolve a crise climática, mas aprofunda as desigualdades socioambientais. A lógica do “enverdecimento” da economia subordina a vida às exigências do lucro e ignora tanto os limites ecológicos quanto as dimensões de justiça social. Como argumenta Klein (2015), o capitalismo contemporâneo é intrinsecamente incompatível com qualquer modelo de sustentabilidade ecológica; por isso, iniciativas que se pretendem “capitalismo verde” constituem, na melhor das hipóteses, distrações que mantêm intactas as estruturas responsáveis pelo colapso ambiental.

    Nesse sentido, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (FFFT) representa um exemplo paradigmático. Ao transformar serviços ecossistêmicos em ativos financeiros, o fundo reforça a mercantilização da natureza e aprofunda a concentração de poder, excluindo justamente os povos que mais dependem e mais protegem a floresta. Essa abordagem negligencia as complexas relações socioecológicas e desconsidera saberes ancestrais que, como defende Santos (2007), são fundamentais para a construção das Epistemologias do Sul — racionalidades que oferecem alternativas substantivas ao pensamento hegemônico ocidental e às suas soluções de mercado. A exclusão sistemática desses saberes e a imposição de uma lógica econômica ocidentalizada constituem, como analisa Fraser (2023), elementos centrais da crise política do capitalismo, que compromete a deliberação democrática e impede a formulação de respostas realmente justas e eficazes.

    A persistência dessa exclusão, aliada à impunidade estruturada dos grandes poluidores, configura barreira decisiva para uma resposta ambiental robusta. A justiça ambiental e a justiça climática não serão alcançadas sem uma transformação estrutural capaz de desmontar as bases do neoliberalismo e do extrativismo. Moore (2015), ao desenvolver o conceito de Capitaloceno, enfatiza que a crise ecológica é sobretudo uma crise do capital — resultado de relações históricas de exploração que moldam a produção e a reprodução da vida. Enfrentar a crise, portanto, implica reavaliar profundamente os modelos de desenvolvimento, consumo e organização social.

    Superar o discurso tecnocrático da economia verde exige a construção de uma relação ética, democrática e plural com a natureza. Isso envolve reconhecer a autonomia dos territórios, a soberania dos povos sobre seus recursos e a legitimidade das cosmologias indígenas e camponesas como fundamentos de futuros ecossociais possíveis. A transição justa não pode ser imposta de forma vertical; ela deve nascer das lutas, dos corpos e dos territórios que vivenciam a crise no cotidiano. Como sustenta Malm (2021), não há espaço para gradualismos diante do colapso climático — a urgência impõe ação radical e reorientação profunda das políticas ambientais.

    O alerta é inequívoco: sem romper com a lógica dominante do mercado e sem expandir a democracia ambiental, caminharemos para um colapso irreversível em que a riqueza de poucos continuará assentada na destruição das bases da vida na Terra. A COP 30, nesse contexto, deve ser compreendida como momento de inflexão, no qual a crítica ao neoliberalismo verde e a defesa de alternativas ecossociais ganhem centralidade, abrindo caminhos para uma ecologia política que coloque a vida — humana e não humana — no centro das decisões coletivas.

    Para além da COP 30

    O enfrentamento da crise climática exige ultrapassar a dependência de respostas tecnocráticas e de mecanismos de mercado que tratam a natureza como ativo financeiro. As alternativas mais consistentes emergem de territórios historicamente marginalizados pela governança global, cujos modos de vida não foram capturados pelo paradigma ocidental desenvolvimentista e, por isso, preservam racionalidades capazes de interromper a lógica destrutiva que sustenta o neoliberalismo verde.

    Essas práticas insurgentes rompem com a monocultura do pensamento descrita por Shiva (2016) e confrontam o caráter canibal do capitalismo analisado por Fraser (2023), ao revelar que a crise ambiental decorre da própria estrutura que hierarquiza vidas, territórios e ecossistemas. Nessa perspectiva, a necrojurisdição ambiental evidencia como o sistema de justiça frequentemente administra a degradação, em vez de atuar em defesa da vida.

    Os saberes indígenas, quilombolas, ribeirinhos e camponeses oferecem contranarrativas fundamentais ao apresentarem cosmologias que recusam a separação colonial entre humanidade e natureza. Tais racionalidades expressam o pensamento pós-abissal formulado por Santos (2007) e se articulam ao pluriverso de Escobar (2018), que propõe uma compreensão do mundo fundada na coexistência de múltiplas ontologias e formas de vida.

    Ao incorporar essas epistemologias, torna-se possível deslocar a crítica do neoliberalismo verde do campo abstrato da denúncia para a construção de alternativas ecossociais que respondam de forma concreta ao colapso climático. Trata-se de reconhecer que a crise é inseparável das estruturas de poder e acumulação que sustentam o capital, e que novas formas de relação entre sociedade e natureza exigem rupturas profundas nas bases econômicas, políticas e jurídicas que legitimam a destruição.

    Assim, as racionalidades que emergem das margens não apenas denunciam a insuficiência das respostas tecnocráticas, mas indicam caminhos para reconstruir relações ecológicas e sociais pautadas na vida, na justiça e na pluralidade dos mundos existentes.

    Referências

    SANTOS, Jádia Larissa Timm dos. O neoliberalismo como nova ordem mundial e seu impacto. Anais do Congresso Internacional de Ciências Criminais, 2018. Disponível em: https://editora.pucrs.br/anais/congresso-internacional-de-ciencias-criminais/assets/edicoes/2018/arquivos/74.pdf.

    HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.

    SHIVA, Vandana. Monoculturas da mente: perspectivas da biodiversidade e da biotecnologia. São Paulo: Gaia, 2016.

    ESCOBAR, Arturo. Designs for the Pluriverse: Radical Interdependence, Autonomy, and the Making of Worlds. Durham: Duke University Press, 2018.

    MONEDERO, Juan Carlos. El gobierno de las palabras. Madrid: Fondo de Cultura Económica, 2017.

    BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O valor da vida: entenda como funcionará o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Brasília, 22 set. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias/o-valor-da-vida-entenda-como-funcionara-fundo-florestas-tropicais-para-sempre-tfff.

    SUMAÚMA. Entenda o TFFF, Fundo Florestas Tropicais para Sempre. Disponível em: https://sumauma.com/amazonario/entenda-o-fundo-florestas-tropicais-para-sempre/.

    THE CONVERSATION. Fundo Florestas Tropicais para Sempre levanta questões sobre formas de financiar preservação. 9 out. 2025. Disponível em: https://theconversation.com/fundo-florestas-tropicais-para-sempre-levanta-questoes-sobre-formas-de-financiar-preservacao-266873.

    GLOBAL WITNESS. 5 things to know about the Tropical Forest Forever Facility. 28 ago. 2025. Disponível em: https://globalwitness.org/en/campaigns/forests/5-things-to-know-about-the-tropical-forest-forever-facility/.

    CLIMAINFO. Fundo para florestas tropicais é finalista em prêmio internacional, mas gera polêmica. 5 out. 2025. Disponível em: https://climainfo.org.br/2025/10/06/fundo-para-florestas-tropicais-e-finalista-em-premio-internacional-mas-gera-polemica/.

    FOURTH INTERNATIONAL. COP 30: catalizar una reactivación de la lucha social y medioambiental. 28 fev. 2025. Disponível em: https://fourth.international/es/congresos-mundiales/874/america-latina/693.

    KLEIN, Naomi. Isento de impostos: como as corporações se tornaram os novos tiranos e como podemos resistir. Rio de Janeiro: Record, 2015.

    SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2007.

    MOORE, Jason W. Capitalism in the Web of Life: Ecology and the Accumulation of Capital. London: Verso Books, 2015.

    MALM, Andreas. How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on Fire. London: Verso Books, 2021.

    FRASER, Nancy. Capitalismo Canibal: Como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta, e o que podemos fazer com isso. São Paulo: Boitempo, 2023.

  • Por um Punhado de Dólares

    Por um Punhado de Dólares

    Justiça climática, dívida histórica e o fracasso global diante do colapso ambiental

    DOI 10.5281/zenodo.17589308

    Autor: Fabio Borjas Rosim Braga

    Coordenador do Centro de Estudos e 

    Editor da Revista Palafitas ISSN 3086-2892

    https://orcid.org/0009-0008-7496-575X

    Email: editor@palafitas.org

    Enquanto o planeta atinge recordes de temperatura e colapsos ambientais se tornam rotina, as potências que mais contribuíram para essa destruição seguem respondendo com promessas vazias — e um punhado de dólares. A proposta de US$ 300 bilhões anuais anunciada na COP29, em Baku, está muito aquém do necessário. A emergência climática exige trilhões, mas o que se oferece são migalhas, embrulhadas em discursos diplomáticos.

    A dissonância entre a dimensão da crise e a escala das soluções propostas evidencia um abismo ético e político. Trata-se de uma crise global que, embora naturalizada como fenômeno técnico ou ambiental, revela estruturas profundas de dominação histórica. O Brasil, neste cenário, ocupa o epicentro não apenas dos efeitos, mas também das contradições que atravessam o sistema internacional.

    Nesse contexto, a análise de Nancy Fraser em Capitalismo Canibal [1] oferece uma perspectiva crucial para entender a raiz dessa dissonância. Fraser argumenta que o capitalismo é uma ordem social ampliada que, em sua busca incessante por acumulação, tende a “canibalizar” as condições de fundo que o sustentam, incluindo a natureza e as capacidades políticas de governança [1]. A insuficiência do financiamento climático e a recusa das potências em arcar com sua responsabilidade histórica são manifestações diretas desse “canibalismo”, onde os custos da devastação são externalizados e as condições para uma solução justa são minadas.

    O colapso já começou

    O verão de 2024–2025 foi um dos mais quentes desde que há registro, com média de 0,34 °C acima da histórica, mesmo sob influência do fenômeno La Niña, que tende a resfriar o clima. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) registrou o agravamento de eventos extremos: secas prolongadas no Nordeste, enchentes violentas no Sul e Norte, e ondas de calor em todas as regiões [2].

    Essa emergência ambiental atinge com maior violência populações que já vivem sob múltiplas formas de vulnerabilidade: comunidades negras, indígenas, periféricas, quilombolas, ribeirinhas, LGBTQIAPN+. A desigualdade climática é também uma desigualdade política, epistêmica e territorial. A necropolítica climática se expressa no abandono de territórios inteiros, no colapso de infraestruturas precárias e na invisibilização dos saberes que resistem nas margens.

    Fraser, ao discutir o capitalismo racializado e a expropriação, ilumina como a desigualdade climática não é um acidente, mas uma característica intrínseca do sistema capitalista. As populações mais vulneráveis são aquelas cujas vidas e recursos são sistematicamente expropriados para sustentar a acumulação de capital, criando uma “linha divisória” entre quem se beneficia e quem sofre os ônus [1]. A “necropolítica climática” descrita no artigo é, portanto, uma expressão brutal do “canibalismo” capitalista, que devora as condições de vida e o bem-estar de comunidades inteiras.

    A falácia dos 100 bilhões

    Desde 2009, países ricos prometeram mobilizar US$ 100 bilhões por ano para apoiar a adaptação e mitigação nos países em desenvolvimento. Esse valor foi incorporado ao Acordo de Paris em 2015, mas nunca foi plenamente cumprido — e, mesmo se fosse, já se tornou completamente defasado.

    Relatório recente da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) estima que os países em desenvolvimento precisarão de US$ 5,1 a 6,8 trilhões até 2030 para cumprir suas metas climáticas (NDCs) — ou seja, cerca de US$ 455 a 584 bilhões por ano (UNFCCC, 2024). Estimativas independentes apontam para uma necessidade mínima de US$ 1 trilhão por ano até 2030 — chegando a US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 (UNFCCC, 2025) [3].

    Esses números revelam o real tamanho do desafio. E mostram que a distância entre o discurso e a prática não é acidental: é estrutural.

    COP29: prometer, adiar, transferir a culpa

    Na COP29, realizada em Baku, a promessa de triplicar o financiamento climático foi apresentada como vitória. Mas o valor proposto — US$ 300 bilhões por ano — representa menos de um terço do necessário. Além disso, os países desenvolvidos pressionaram para que China, países árabes e outras economias emergentes dividam a conta, diluindo sua responsabilidade histórica (UNFCCC, 2024; Climate Change News; Financial Times) [4, 5, 6].

    O resultado é o adiamento crônico da ação, o empobrecimento dos instrumentos multilaterais e o deslocamento da responsabilidade. Quando confrontadas com a necessidade de trilhões, as potências preferem entregar centavos — e ainda exigir aplausos.

    Essa dinâmica de “prometer, adiar, transferir a culpa” ilustra a crise política do capitalismo que Fraser descreve. A capacidade dos Estados e das instituições multilaterais de agir de forma eficaz é corroída pela lógica da acumulação, que prioriza os interesses de curto prazo do capital em detrimento das necessidades de longo prazo da sociedade e do planeta [1]. A governança climática global, nesse sentido, torna-se um palco para a manutenção do status quo e a perpetuação da dívida histórica, em vez de um espaço para a reparação e a justiça.

    Uma crise do sistema-mundo

    A crise ambiental global não é apenas um fenômeno natural ou técnico, mas resulta diretamente das contradições estruturais do sistema-mundo moderno, tal como formulado por Immanuel Wallerstein [7]. Um sistema fundado na exploração desigual de regiões periféricas, na acumulação incessante de capital e na concentração de poder econômico e político em centros hegemônicos.

    Nesse contexto, o colapso climático não é um acidente. É uma consequência histórica da própria lógica que organizou o mundo moderno: a expansão colonial, o extrativismo e a financeirização da vida. A destruição dos ecossistemas anda de mãos dadas com a destruição das possibilidades de futuro para os povos que vivem fora dos centros de decisão.

    A visão de Fraser de um capitalismo canibal se alinha perfeitamente com a ideia de uma “crise do sistema-mundo”. Para ela, as crises ecológicas, sociais e políticas não são isoladas, mas interconectadas e inerentes à própria estrutura do capitalismo como uma ordem social totalizante [1]. A expansão colonial, o extrativismo e a financeirização são mecanismos pelos quais o capital “devora” as condições de sua própria existência, gerando um ciclo vicioso de acumulação e destruição que ameaça a própria possibilidade de futuro.

    Justiça climática exige reparação

    É necessário dizer com todas as letras: sem reparação histórica, não haverá transição justa. E sem transição justa, o colapso será total — ainda que distribuído de forma desigual. O financiamento climático não é caridade. É dívida.

    Enquanto os países que lucraram por séculos com a exploração de territórios alheios se recusarem a pagar essa conta, a justiça climática continuará sendo apenas uma retórica elegante. É preciso enfrentar a hipocrisia da governança climática global e romper com a lógica de mercado que transforma a vida em ativo e a destruição em oportunidade de lucro.

    Enquanto isso, seguimos contando os mortos. E esperando por um punhado de dólares.

    Referências

    [1] FRASER, Nancy. Capitalismo Canibal: Como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta, e o que podemos fazer com isso. São Paulo: Boitempo, 2023.

    [2] MCTI – Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (2025).

    [3] UNFCCC (2024, 2025).

    [4] COP29 – UNFCCC Press Release (2024).

    [5] Climate Change News (2024).

    [6] Financial Times (2024).

    [7] WALLERSTEIN, Immanuel (2004).

    [8] Net-Zero Asset Owner Alliance (2025).

  • O Banquete das Elites e a Crise Climática: Uma Análise da Injustiça Socioambiental

    O Banquete das Elites e a Crise Climática: Uma Análise da Injustiça Socioambiental

    Autor: Fabio Borjas Rosim Braga

    DOI 10.5281/zenodo.17579161

    Coordenador do Centro de Estudos e 

    Editor da Revista Palafitas – ISSN 3086-2892

    CENTRO DE ESTUDOS E REVISTA PALAFITAS SABERES A PARTIR DAS MARGENS – Think Tank do Sul Global, Hub de Comunicação Decolonial e Práxis Comunal

    https://orcid.org/0009-0008-7496-575X

    Email: editor@palafitas.org

    A crise climática contemporânea configura-se como um processo de expropriação e externalização de custos orquestrado pelas elites globais. Estas, ao longo de décadas, se beneficiaram da exploração irrestrita dos recursos naturais e da emissão massiva de gases de efeito estufa, acumulando riqueza e poder. Contudo, a fatura dessa devastação é sistematicamente transferida para os grupos sociais que menos contribuíram para o aquecimento global: os povos indígenas, quilombolas, comunidades negras, periféricas e pobres.

    Essa dinâmica revela a essência da injustiça climática, onde a vulnerabilidade aos impactos da crise é inversamente proporcional à responsabilidade histórica por ela. A materialização mais cruel dessa injustiça é o racismo ambiental, um fenômeno estrutural que direciona os danos ambientais e climáticos, de forma desproporcional, para populações historicamente marginalizadas e racializadas.

    Segundo o Emissions Gap Report 2025, as emissões globais chegaram a 57,7 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa em 2024, um crescimento de 2,3% em relação ao ano anterior. Mesmo diante desse cenário, governos e corporações mantêm o discurso de “transição energética”, enquanto seguem ampliando a infraestrutura para extração e queima de combustíveis fósseis. O banquete não acabou; ele apenas trocou o nome do prato principal. A devastação permanece como requisito para a continuidade do modelo de acumulação. (UNEP, 2025)

     A Urgência da Lacuna de Emissões e a Injustiça Global

    O Emissions Gap Report 2025 deixa claro que a crise climática não é efeito de desconhecimento ou falta de capacidade. As emissões globais chegaram a 57,7 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa em 2024, um aumento de 2,3% em relação ao ano anterior. Mesmo que todas as metas anunciadas fossem cumpridas, o planeta já está em rota de aquecimento acima de 2°C, com ultrapassagem permanente de 1,5°C na próxima década. (UNEP, 2025)

    A desigualdade climática é estrutural. Os danos não se distribuem de forma igual. Os corpos que mais enfrentam enchentes, secas, fome e deslocamentos são aqueles que nunca lucraram com o modelo que produziu o desastre. O relatório reconhece que os impactos atingem com mais força os povos mais pobres e racializados, enquanto os grandes emissores e detentores de capital seguem protegidos. (UNEP, 2025)

    Isso confirma o diagnóstico de Nancy Fraser: o capitalismo só se sustenta porque externaliza seus custos, consumindo territórios, ecossistemas e vidas como se fossem descartáveis. A crise climática é apenas a forma contemporânea desse mesmo processo — uma máquina que devora aquilo que permite sua própria existência.

    O Apagamento na COP30 e a Colonialidade do Poder

    A COP30, sediada em Belém, expõe uma contradição central: o reconhecimento discursivo não se converte em redistribuição de poder. Enquanto documentos internacionais incluem, pela primeira vez, a população afrodescendente como grupo vulnerável, o processo de organização no território amazônico mantém quilombolas e povos tradicionais fora da mesa de decisão. O protagonismo negro é enunciado no microfone, mas negado na prática.

    A exclusão não é falha institucional. É o funcionamento normal da colonialidade do poder. Os mesmos povos que sustentam a continuidade da floresta são sistematicamente impedidos de decidir sobre seu destino. O Estado negocia territórios como se fossem vazios, quando, na verdade, são espaços de vida, memória e resistência. A COP30, ao invisibilizar essas vozes, repete o padrão histórico de expropriação: ouvir o território como paisagem, nunca como sujeito.

    O racismo ambiental opera aqui como tecnologia de distribuição desigual do dano. Ele define quais vidas podem ser sacrificadas para que o modelo de desenvolvimento siga incontestado. A exclusão de quilombolas da COP30 não é um incidente político; é a própria estrutura da decisão climática global. A crise ecológica não é apenas destruição da natureza — é a continuidade de um projeto que hierarquiza vidas e decide quem pode respirar.

     Rumo a uma Transição Ecológica Justa

    Reconhecer desigualdades não altera nada se o poder de decisão permanece nas mesmas mãos. A crise climática não será enfrentada enquanto quilombolas forem envenenados por agrotóxicos, indígenas perderem seus rios, e periferias urbanas forem as primeiras a serem alagadas e removidas. Essas vidas são tratadas como custo aceitável do desenvolvimento. Não se trata de inclusão: trata-se de romper com a lógica que produz o sacrifício.

    A COP30 não representa uma oportunidade de reformar o sistema, mas a demonstração de seu limite. Se povos tradicionais são impedidos de decidir sobre seus próprios territórios, não há “justiça climática” possível. Não é uma questão de reconhecer saberes, mas de reconhecer soberania. Quem protege a floresta deve ter o poder de governá-la. Sem devolução de território, tudo é retórica.

    Uma transição ecológica só pode ser justa se redistribuir poder, terra e futuro. Se continuar sendo conduzida por aqueles que lucram com a destruição, ela não será transição — será continuação.

     Referências

    UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). Emissions Gap Report 2025: Off Target – Continued collective inaction puts global temperature goal at risk. Nairobi: UNEP, 2025. Disponível em: https://wedocs.unep.org/20.500.11822/48854. Acesso em: 11 nov. 2025.

    FRASER, Nancy. Capitalismo canibal: como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta, e o que podemos fazer com isso. São Paulo: Boitempo, 2023.

  • A Universidade ao Contrário: Ecologia dos Saberes e Justiça Cognitiva

    🌿 ECOLOGIA DOS SABERES

    “A justiça social vai obrigar a que se comprometa com a justiça cognitiva”

    Entrevista com Boaventura de Sousa Santos
    Diversa no. 8 – Revista da Universidade Federal de Minas Gerais | Outubro de 2005


    O senhor defende uma equiparação ecológica dos diferentes tipos de saberes. Que significa isso?

    A ecologia dos saberes é a extensão universitária ao contrário. É a universidade preparada para se abrir às práticas sociais, mesmo quando não informadas pelo conhecimento científico, que nunca é único. O conhecimento científico tem de saber dialogar com outros conhecimentos que estão presentes nas práticas sociais e, assim, trazê-los para dentro da universidade.

    O que significa, eventualmente, que os alunos da universidade terão contato com líderes comunitários, que, hoje, não são credenciados para ensinar na Academia, mas, provavelmente, podem trazer a ela sua experiência. É isso exatamente o que faço, na minha experiência como sociólogo, como lema da minha vida profissional. É integrar as grandes teorias epistemológicas, abstratas, às práticas concretas.

    Acabo de vir da Vila Santa Lúcia, depois fui à Santa Rita, depois à São Bento, que está em uma ravina. Falei com um catador de lixo, um homem extraordinário, que me explicou quais eram suas soluções para canalização de água, de forma a garantir segurança àquela população sem que ela seja removida.

    Aquela população não quer ser removida por uma razão absolutamente racional – porque, se isso acontecer, vai para longe do lixo de luxo que é base de sua sustentação. Naturalmente, a Prefeitura não está sensibilizada para isso.

    O conhecimento que esse homem revelou sobre a estrutura da terra, o que acontece quando a água cai, é um conhecimento popular. Seria uma lástima se os técnicos da Prefeitura não tomassem em conta o conhecimento popular que existe naquela região.

    Só para dar um exemplo – eu já vi isso em Porto Alegre – os técnicos em diálogo direto com a população das vilas. Isso é ecologia do saber. É um novo equilíbrio, uma nova relação entre o conhecimento científico e os conhecimentos populares, os conhecimentos das associações cívicas, os conhecimentos dos cidadãos.

    A questão do impacto ambiental é fundamental. Hoje, por exemplo, temos na Europa formas de interação, como, por exemplo, as science shops – lojas de ciência –, que são pontos de encontro entre o conhecimento científico e o conhecimento do cidadão.

  • Manifesto Editorial — Palafitas Brasil: Saberes Decoloniais, Justiça Climática e a Construção de Futuros Possíveis

    DOI 10.5281/zenodo.17550399 

    Fábio Braga, Editor

    “A epistemologia da dor é potência criadora.”

    1. Quem Somos


    “O Palafitas é mais que uma revista.
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