
Diagnóstico e Urgência
“A dominação da natureza é apenas a extensão da dominação social.”
— Murray Bookchin, The Ecology of Freedom (1982)
1. A urgência da crise civilizatória
O planeta está em colapso — e o nome desse colapso é capitalismo.
A crise ecológica não é uma anomalia do sistema: é o próprio sistema revelando sua essência. O aumento das temperaturas globais, a desertificação, o derretimento das calotas, as pandemias zoonóticas e a perda de biodiversidade são sintomas de uma racionalidade necropolítica que, como denuncia Achille Mbembe (2011), organiza o mundo pela gestão da morte.
A humanidade entrou no que Boaventura de Sousa Santos (2021) chama de fim do império cognitivo: o limite histórico da razão ocidental, que acreditou poder dominar a Terra como quem administra uma colônia.
A catástrofe ambiental é, portanto, também uma catástrofe epistemológica — o esgotamento de um modo de conhecer que separou o humano da natureza e a vida da política.
Não vivemos uma crise climática, mas uma crise de imaginação política.
A ciência, capturada por corporações; o Estado, sequestrado por elites extrativistas; e a democracia, reduzida a marketing eleitoral, transformaram o futuro em mercadoria e o presente em espetáculo.
2. A COP 30 na Amazônia: palco ou encruzilhada?
Em novembro de 2025, Belém do Pará sediará a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP 30).
A escolha da Amazônia é simbólica — e também profundamente irônica.
Enquanto a floresta arde sob o avanço da mineração, do garimpo e da agropecuária industrial, chefes de Estado e executivos de multinacionais discursarão sobre “sustentabilidade” dentro de centros de convenções climatizados.
A Amazônia é tratada como um “estoque de carbono”, uma cifra em relatórios corporativos — não como território de povos vivos.
A COP 30 poderia ser o momento de escuta dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Mas, se seguir a tradição das conferências anteriores, será mais uma vitrine de acordos inócuos e promessas de compensação ambiental.
A floresta se tornará cenário de um teatro diplomático.
Como lembra Aníbal Quijano (2000), a colonialidade do poder não terminou com o colonialismo formal: ela se reatualiza nas novas formas de administração global. A COP 30 é a face verde desse colonialismo — uma necropolítica de mercado disfarçada de governança climática.
Em nome da “transição ecológica”, corporações e Estados reconfiguram o território amazônico em um grande laboratório de “créditos de carbono” e “economia verde”, transformando o ar, a terra e a água em ativos financeiros.
3. A falácia do capitalismo verde: a nova teologia da destruição
O chamado “capitalismo verde” é a mais sofisticada das mentiras modernas: a promessa de que é possível salvar o planeta sem transformar a economia.
Mas não há capitalismo sustentável.
O sistema depende do crescimento infinito — e nada infinito cabe em um planeta finito.
Sob o discurso do “desenvolvimento sustentável”, as elites globais — os mesmos 1% que, segundo a Oxfam, emitem tanto carbono quanto os 66% mais pobres do planeta — criaram uma nova forma de fetichismo: o fetichismo ecoverde.
A natureza é estetizada, transformada em mercadoria simbólica, enquanto os mecanismos de destruição seguem intactos.
Como demonstra o relatório da Compassion in World Farming (2025), mais de 766 milhões de toneladas de grãos são desperdiçadas por ano para alimentar animais confinados em fazendas industriais — o suficiente para nutrir dois bilhões de pessoas.
É o retrato empírico da necropolítica: milhões morrem de fome enquanto o sistema alimenta o lucro com a morte.
É o mesmo princípio que orienta o “PL da Devastação” no Brasil — a desregulação ambiental em nome da eficiência, o silêncio administrativo elevado à condição de norma, e a exclusão sistemática dos povos tradicionais dos processos de decisão.
Essa é a face contemporânea daquilo que Bookchin (1971) denunciou como o fetichismo político: acreditar que o Estado pode ser reformado para se tornar emancipador.
O Estado é a institucionalização da dominação; o capitalismo verde, sua liturgia mais recente.
4. A Amazônia como espelho da colonialidade
Na Amazônia, a crise ambiental é inseparável da crise social e racial.
Os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais vivem há séculos uma política de extermínio silencioso, uma “morte lenta” no sentido de Mbembe — a necropolítica tropicalizada.
O “PL da Devastação”, ao restringir o direito à consulta prévia apenas a terras já homologadas, reafirma o contrato racial descrito por Charles Mills (1997): um pacto em que a humanidade plena é privilégio de alguns, e o resto da população é tratado como externalidade.
A burocracia se torna instrumento de exclusão: o Estado nega o território pela falta do papel e nega o papel pela falta do território.
Como aponta Sueli Carneiro (2005), o dispositivo de racialidade estrutura não apenas as relações sociais, mas também as epistemologias — definindo quem pode falar, quem pode existir e quem pode ser ouvido.
A luta pela ecologia é, portanto, também uma luta pela escuta.
Sem reconhecer os saberes das margens — das florestas, das águas, dos terreiros, das quebradeiras de coco, dos povos de axé —, não há sustentabilidade possível.
5. Rumo a uma ecologia da liberdade
O curso Comunalismo Decolonial — Por uma Ecologia da Liberdade nasce desse impasse: o de uma humanidade que sabe que está se autodestruindo, mas não sabe mais imaginar outra forma de viver.
Murray Bookchin nos oferece um caminho: reconstruir a política a partir da base, pela criação de assembleias populares, conselhos municipais e comunas autogeridas — o que ele chamou de municipalismo libertário.
“A verdadeira questão não é organização versus não-organização, mas que tipo de organização.”
— Bookchin, Post-Scarcity Anarchism (1971)
Essa é também a lição das comunidades tradicionais brasileiras: nas aldeias, quilombos e territórios de resistência, a democracia nunca foi uma abstração, mas um modo de vida — deliberativo, comunitário, espiritual e ecológico.
Como nas town meetings da Nova Inglaterra que inspiraram Bookchin, mas com raízes muito mais antigas e profundas, essas comunidades nos ensinam que o comum é a primeira forma de soberania.
A “ecologia da liberdade” não será decretada por conferências internacionais, mas reconstruída nas margens — nas assembleias de base, nas ocupações, nas retomadas, nos conselhos populares, nas escolas comunitárias, nas cozinhas solidárias.
O futuro da Terra depende daquilo que o sistema sempre tentou destruir: a capacidade humana de viver em cooperação.
Referências principais
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. O Fim do Império Cognitivo. São Paulo: Autêntica, 2021.
BOOKCHIN, Murray. The Ecology of Freedom: The Emergence and Dissolution of Hierarchy. Palo Alto: Cheshire Books, 1982.
BOOKCHIN, Murray. Post-Scarcity Anarchism. Montreal: Black Rose Books, 1971.
CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de Racialidade. São Paulo: Pólen, 2005.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2011.
MILLS, Charles. The Racial Contract. Ithaca: Cornell University Press, 1997.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do Poder, Eurocentrismo e América Latina. Buenos Aires: CLACSO, 2000.
Compassion in World Farming. Factory Farming: The World’s Biggest Cause of Food Waste. 2025.
